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Como escrevi “Carnavalito”, por Simone Saueressig

Andava eu meio desenxavida, quando a Ana Merege me mandou um e-mail salvador: escrever um conto para uma coletânea que enfocava essas criaturinhas mágicas que acompanham os seres humanos há tantos séculos, habitando suas imaginações ou, o que talvez seja mais assustador, os rincões sombrios e empoeirados das casas, os duendes. Detalhe: como a Ana conhece meu trabalho de viés folclórico, ela queria um conto sobre duendes americanos.

Meu primeiro pensamento foi “alebrijes!!!!”. Os alebrijes são uma criação do mexicano Pedro Linares Lópes, que através da modelagem de múltiplos materiais, cria animais imaginários, coloridos e extravagantes, tão ao gosto do universo mexica.

Ou isso dizem. Quem anda vagando pela rede em momentos de insônia é capaz de ter uma outra ideia sobre eles…

Porém, quando sentei para escrever, não sei por quê, a música que conhecemos aqui no Brasil como “Carnavalito” começou a martelar na minha cabeça. E aí fui fuçar um pouco nos meus livros (físicos, porque eu ainda os uso), e depois na rede, e aí reuni um monte de informação sobre os carnavalitos, que não são uma música específica, como eu imaginava, mas um ritmo. Dos carnavalitos para a diablada da região de Hamahuaca e suas máscaras sensacionais foi um clique, e depois virei à esquerda na estrela da manhã e a Terra do Nunca sul-americano se escancarou, porteira aberta, horizontes inesperados e uma rica e desconhecida identificação de regiões através dos xales argentinos: sem padrão, com padrão, listras, triângulos, círculos. Tanto e tanto, que o primeiro arquivo que enviei para Ana estava repleto de notas, que não aparecerão na edição física da coletânea, mas que disponibilizarei na www.ossoisdaamerica.wordpress.com. Não, a América jamais me falha e nunca deixa de me surpreender. Quem acha que às terras meridionais lhes falta tradições majestosas, rituais, mistérios e o épico, é porque não passou meia hora, no mínimo, circulando pelas redes certas. Quem passou meia hora, esqueceu do tempo e varou a noite.

Enfim, fiz como faço quando cozinho: reuni um monte de ingredientes, separei alguns, piquei em pedacinhos, e na hora de começar a escrever, já sabia: nada de noite escura, frio ou neve. Até poderia ser, porque na Patagônia faz um frio danado, as montanhas ainda se cobrem de neve e há lugares onde a noite dura quase um dia, no inverno – o frio não mora só no Norte. Mas era verão, fazia muito calor, lá fora ardia um sol feroz e não me seria possível fazer de conta que vivo em outro lugar. Só quem já passou algumas horas no sol estival, ao meio dia, caminhando e ansiando por uma sombra e água, sabe que um cenário como esse também guarda ameaças. A parte disso, só os que vivem em cidades grandes pensam que a ameaça única é a noite. Quem viveu nas aforas, conhece bem o silêncio do meio dia, quando tudo parece cochilar, menos nós, que olhamos o pátio e de repente pulamos na rede, porque alguma coisa estranha correu pela sombra distante ou alguém nos soprou na orelha, bem de pertinho. A gente olha ao redor e estamos só nós e o vazio do meio dia. Sozinhos. Dá um arrepio na espinha.

Foi muito divertido. Foi muito rico. Uma viagem para além das linhas escritas. Há muitos duendes habitando os rincões da América, e todos são estranhos e assustadores. Se você ouvir uma flauta apitando nas quebradas solitárias, fuja dela; se achar uma huanca no meio do campo, não se avexe de se abrigar ao seu lado. Seu olhar de pedra oferece proteção e sua sombra talvez lhe conte uma história totalmente inesperada.

E daí você conta ela para a gente.

O pote de ouro está no Catarse!

O Reino Invisível sempre esteve perto de nós. Além dos círculos de pedra, no coração das florestas, em dimensões das quais nos separa uma frágil barreira, um povo muito antigo nos espreita com olhos cheios de paixão, curiosidade, sabedoria – mas também inveja e maldade. Seu universo é cruel e violento, repleto de traição, vingança e crianças roubadas. E basta um rápido olhar para os contos tradicionais para saber que os duendes não são as criaturinhas adoráveis que as versões modernas fazem parecer.

Você pode pisar num círculo de trevos ou cogumelos. Pode fiar uma meada de lã. Ou pode participar do novo projeto da Draco no Catarse. De qualquer jeito, prepare-se: uma vez que tenha entrado em seus domínios, os duendes não vão te largar, e você talvez só consiga voltar de lá daqui a muito tempo. Pelo menos o tempo que levar para ler este livro até o fim.

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