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Por Gerson Lodi-Ribeiro

A Guardiã da Memória, romance de Gerson Lodi-Ribeiro

Muitos enredos originais de ficção especulativa nascem de indagações aparentemente simplórias e irrespondíveis.  No caso de meu romance de ficção científica erótica, A Guardiã da Memória (Draco, 2011), a pergunta especulativa simplória foi: “Se as borboletas possuíssem inteligência equivalente à humana, será que se lembrariam de suas experiências de vida do tempo em que eram lagartas?

Isto posto, mudança de cenário.

Janeiro de 2001.  Férias na casa de praia de meus sogros na cidade fluminense de Angra dos Reis.  Por aquela época eu começara a reunir trabalhos eróticos de autores brasileiros e portugueses para organizar a antologia que se tornaria a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (Ano-Luz, 2002).  Daí, cumpria escrever minha própria narrativa erótica fantástica para incluir no livro.

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Mesmo universo ficcional, abordagem diferente.

Por incrível que pareça, a gênese de meu romance erótico hardcore se situa numa noveleta razoavelmente inocente, “A Filha do Predador”, concluída dois anos antes daquele verão em Angra dos Reis.

“A Filha do Predador” é ambientada no planeta Ahapooka, uma biosfera que abriga indivíduos de milhares de espécies alienígenas distintas, cujos representantes descendem dos antigos tripulantes de naves estelares atraídas para aquilo que constitui um genuíno zoológico de dimensões planetárias preparado para receber espécimes racionais.  A protagonista é uma humana pré-adolescente, Clara, filha do predador Aeneas.  Numa região desértica de Ahapooka, onde naves despencam para jamais decolar outra vez, “predador” é o profissional que resgata bens e equipamentos de tecnologia estelar das carcaças das naves sinistradas e os revende para as cidades soberanas ou tribos bárbaras da vizinhança.  Quando a mãe de Clara abandona o lar, situado num núcleo urbano poliespecífico, para fixar residência em Rhea, uma nação de povoamento exclusivamente humano, a jovem se vê forçada a acompanhar o pai em suas expedições predatórias, passando a viver todo tipo de aventuras até que, no clímax da noveleta, acaba descobrindo sua verdadeira origem.

Após vencer o Prêmio Nautilus 1999 na categoria Noveleta de Ficção Científica, “A Filha do Predador” foi publicada em duas edições seguidas do fanzine Intrepid daquele ano e também como booklet pela editora Writers, em sistema de impressão por demanda.  Dois anos mais tarde, faria seu début profissional na revista Sci-Fi News Contos # 1 (agosto 2001).  Todas essas publicações se deram sob o meu pseudônimo Daniel Alvarez[1].

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Uma vez que as relações sexoafetivas entre humanos e alienígenas constitui meu tópico favorito na ficção científica erótica, a fim de escrever meu trabalho para a antologia, eu precisava do cenário ideal para propiciar o encontro do casal díspar.  Decidi empregar o universo ficcional Tramas de Ahapooka, porque naquela superfície planetária culturas humanas e alienígenas já interagiam há milênios, então não causaria estranheza que uma humana convivesse com um xenomorfo de uma espécie qualquer.

Apesar da tentação, hesitei um pouco em usar Clara como protagonista.  Afinal, seria uma criança protagonizando uma narrativa desprovida de elementos infantojuvenis marcantes e, pior, a personagem humana copularia com um alienígena.  Portanto, ela devia ser preferencialmente adulta, até para evitar processos judiciais por apologia à pedofilia.  A solução foi propor uma Clara mais madura e experiente, já radicada em Rhea há décadas e atuante como operativa de campo da Nação Humana em comunidades alienígenas.

Na ocasião de conceber o parceiro alienígena de Clara, retornei à questão especulativa original e propus uma espécie cujos membros possuiriam duas vidas distintas.  Primeiro, nasciam como centauroides, cresciam, procriavam, envelheciam e, em vez de morrer, sofriam uma metamorfose e então renasciam como humanoides.  Ao fim de suas vidas humanoides, eles pereciam de fato.  Não sei quanto às tais recordações das borboletas enquanto lagartas, porém, no que tange os renatos, a metamorfose representa a perda de praticamente todas as memórias de suas vidas de centauros.

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De volta à Angra dos Reis, comecei a escrever meu texto erótico e, já ao fim da primeira noite de trabalho, percebi que não tinha um conto em mãos, mas uma noveleta.  Três ou quatro noites de verão mais tarde, a noveleta virou novela e eu estava com um problema e tanto no meu colo: minha narrativa erótica estava assumindo dimensões avantajadas e se arriscava, sem a menor intenção de fazer trocadilhos, a não caber dentro da Gostosa!  No início, fiquei preocupado, pois o crescimento inflacionário da narrativa que acabaria virando o romance A Guardiã da Memória implicava a elaboração de outro enredo para a antologia.  Depois, resolvi relaxar e prossegui na escrita, lépido e fagueiro, como diria minha avó.

Ao fim das férias, tinha em mãos cerca de setenta folhas manuscritas em letras miúdas, pois não levara micro ou notebook para Angra.  Quando digitasse, corrigisse e ampliasse, sabia que a coisa se tornaria os originais de um romance.

Para a Como Era Gostosa a Minha Alienígena! em si, adotei uma estratégia híbrida.  Escrevi um conto de ficção científica erótica também ambientado em Ahapooka, “A Melhor Diversão da Cidade”, porém, sem Clara ou Genteel, e o publiquei sob meu próprio nome.  Mais tarde, reescrevi três capítulos do romance sob forma de noveleta, incluída na antologia sob o título “A Predadora e o Renato” e o pseudônimo de Daniel Alvarez, uma vez que era ele quem constava como autor de “A Filha do Predador”.  Ah, para arrematar, como desgraça pouca é bobagem, incluí um terceiro trabalho de minha lavra, esse último sob meu pseudônimo feminino, até então secreto, “Carla Cristina Pereira”, produzindo uma versão mais apimentada de uma noveleta que havia conquistado o Prêmio Simetria 2000 nos Quintos Encontros de Ficção Científica e Fantástico de Cascais naquele ano, “Longa Viagem para Casa”.  A versão turbinada com Viagra da Carla para a Gostosa! foi publicada como “Uma Certa Capitã Rodriguez”.

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Com o propósito de tornar mais plausível a paixão mútua de Clara & Genteel, adotei uma série de justificativas em termos de enredo, à guisa de salvaguardas do princípio da suspensão da descrença, de modo a conferir novos patamares autoconsistência à narrativa.

Do ponto de vista da Clara, como cidadã nascida e criada num núcleo urbano poliespecífico, ela não nutria os mesmos preconceitos xenofóbicos contra os alienígenas que os humanos nativos de Rhea costumavam exibir.  Além disso, fiz com que ela permanecesse confinada meses a fio a bordo de um navio gigantesco tripulado exclusivamente por marítimas, xenomorfos muito mais alienígenas do que Genteel, tanto morfológica quanto psicologicamente.  Aliás, Clara e o renato compartilhavam o único camarote do Espumas Flutuantes adaptado para o uso de vertebrados terrícolas.  Na ausência de outros humanos, ela começou a sofrer de síndrome de abstinência sexual — fenômeno comportamental pelo qual os etólogos tentam justificar o acasalamento de indivíduos de espécies zoológicas distintas mantidos juntos em cativeiro.  Com a convivência, ela aos poucos descobre que seu companheiro centauro até que é um sujeito simpático, inteligente e sensível.  Como sói acontecer nessas situações, uma coisa acaba levando à outra…

No que concerne a Genteel, sentir atração por uma fêmea humana faz todo o sentido de Ahapooka.  Afinal, ele está vivendo seus últimos meses como centauroide, antes de morrer e renascer como humanoide.  Nessa fase de suas existências, os renatos costumam se interessar bastante, inclusive sexualmente, por tudo que é humanoide e, na ausência de uma renata humanoide, Clara é o sucedâneo mais próximo num raio de vários milhares de quilômetros.  Não é à toa que ele se apaixona pela humana bem antes de ser correspondido por ela.

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Quando comecei a escrever as cenas de sexo entre Clara e Genteel, não imaginei que elas sairiam tão calientes como apareceram no texto, ao menos, na opinião da meia dúzia de beta-readers que tiveram acesso ao romance antes da publicação.  O problema talvez tenha sido o aspecto excessivamente gráfico dessas cenas.  A maioria dos autores de literatura de gênero sabe que uma das primeiras orientações de qualquer oficina literária minimamente eficaz é “não conte; mostre”.  Pois bem.  Aplicado às cenas de sexo, essa regra salutar tende a produzir descrições mais explícitas, por assim dizer, do que se o autor não houvesse executado um esforço consciente para que seus leitores fossem capazes de visualizar tais cenas.

Outro aspecto é que, do nosso ponto de vista, com seis tentáculos lúbricos, criativos e, sobretudo, incansáveis, Genteel possui uma capacidade sexual sobre-humana inegável.

Em sua primeira versão, originalmente submetida para publicação no selo Unicórnio Azul, da editora Mercuryo, então sob liderança de Fábio M. Barreto, A Guardiã da Memória apresentava menos cenas de sexo.  Contudo, quando reescrito para submissão a uma coleção de ficção científica portuguesa (uma bela iniciativa do autor e tradutor Jorge Candeias que, infelizmente, não vingou), o romance tornou-se mais encorpado e mais erótico ainda.  Concluída em 2007, essa segunda versão deu origem àquela que foi enfim publicada pela Draco em 2011.

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Como leitor, sempre menosprezei alienígenas pouco alienígenas, quer do ponto de vista morfológico quanto psicológico.  Afinal de contas, uma vez que a ficção científica literária não está sujeita às limitações de orçamento dos estúdios cinematográficos, cumpre não manietar nossos enredos e backgrounds com limitações das nossas imaginações tacanhas.

Daí, a bem da coerência, como autor, sempre que possível, opto por criar alienígenas bem alienígenas.  Os renatos constituíram um exemplo típico.

Com um ciclo vital complexo, dicotomizado pela metamorfose de quadrúpede para bípede, e um sistema de reprodução no qual são as fêmeas que penetram os machos com seus tentáculos, injetando-lhes seus óvulos para que sejam fecundados pelos espermatozoides desses machos no interior de seus próprios corpos (sim, são os machos que ficam grávidos), os renatos são mais alienígenas do que sua mera aparência nos faria supor.  E, sim, lógico, Genteel é na verdade uma fêmea, uma renata centauroide prestes a se metamorfosear em renata humanoide.  Isto faz de Clara uma homossexual?  Mais ou menos.  Porque, a bem da verdade, se considerarmos que as diferenças entre humanos e humanas são infinitamente menores do que as reinantes entre a humanidade e os alienígenas, concluímos que a homossexualidade empalidece um bocado como tabu surrado, quando comparada à xenofilia.  Mesmo assim, Borbulhante, a comandanta marítima do Espumas Flutuantes, alegra-se ao descobrir que Genteel é na verdade uma fêmea.  Porque, como na espécie dessas paracrustáceas, apenas as fêmeas são racionais, ela se sentia desconfortável na presença de um macho dotado de raciocínio e volição…

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Nem todos os dramas existenciais da Clara giram em torno da xenofilia.  Mais grave e mais presente em sua vida é a questão do especismo em oposição à tolerância ao outro, ao diferente.

Pelo fato de ter sido educada em sua infância numa sociedade poliespecífica, onde os humanos são apenas uma espécie dentre muitas, e de se ter radicado, ainda pré-adolescente, em Rhea, um Estado soberano de povoamento exclusivamente humano, onde efetivamente concluiu sua educação, Clara se sente dividida entre o patriotismo exacerbado dos rheanos e sua defesa cega por tudo que é humano de um lado, e a anarquia democrática e a tolerância social ao mutuamente alienígena, duas práticas cultivadas na maioria das sociedades poliespecíficas da Grande Planície Vermelha, pelo outro.

Humanos e alienígenas oriundos de sociedades poliespecíficas acusam os rheanos de especismo, isto é, preconceito contra indivíduos de outras espécies, ao passo que os cidadãos de Rhea se defendem, afirmando que estão apenas tentando reparar uma injustiça histórica, a citar, o preconceito contra a humanidade que grassa em boa parte das civilizações alienígenas periferia galáctica afora, em consequência de sua pretensa origem anômala.

Portanto, dentro de Clara há um lado tolerante e amistoso em relação às culturas e pessoas alienígenas, fruto da criação numa cidade poliespecífica sob influência de seu pai predador, mas também um outro lado, especista, orgulhoso das proezas recentes dos cidadãos de Rhea, representado pela influência que seus avós ilustres exercem não apenas sobre ela, mas sobre boa parte dos humanos radicados em Ahapooka.  Pois esses avós são hierarcas e ídolos culturais da Nação Humana, além de cidadãos de Tannhöuser, mundo situado no Sistema Gigante de Olduvaii, renomado por abrigar a cultura humana mais avançada e esclarecida de que já se ouviu falar, a ponto de ser referido por humanólogos alienígenas como “O Planeta dos Sábios”.  Esses dois lados antagônicos vivem às turras dentro da heroína.

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Octopusgarden sai em breve pela Draco. Fonte da imagem.

Para concluir, um pouco do que virá a seguir.

A Guardiã da Memória e as noveletas “A Filha do Predador” e “A Predadora e o Renato” não constituem as únicas incursões no universo ficcional Tramas de Ahapooka.

Atualmente no prelo da Draco está o romance Octopusgarden que, apesar de ambientado em sua maior parte num planeta oceânico situado em outro sistema estelar, funciona como uma espécie de prequela de A Guardiã da Memória.  Embora haja humanos no enredo de Octopusgarden, um casal de exploradores que constitui a tripulação ambulante da expedição perdida de Olduvaii a Ahapooka, os verdadeiros protagonistas do romance são cetáceos inteligentes da espécie Delphinus sapiens, promovida à racionalidade por gengenheiros olduvaicos e popularmente batizada “delfineia”.

Vários séculos após o início da colonização do mundo oceânico que a humanidade olduvaica lhes ofertou, os dolfinos se veem sozinhos diante de um primeiro contato ameaçador com uma espécie de moluscos cefalópodes alienígenas, mas essa já é uma outra história.

À guisa de faixa-bônus, incluí no fim de Octopusgarden, a noveleta “A Filha do Predador”.  Pela primeira vez os leitores saberão de onde o casal Pandora e Talleyrand esteve antes de chegar ao mundo-zoológico Ahapooka e por que peripécias passou para chegar até lá.


[1].  Esse pseudônimo possui uma história sui generis.  Em minha noveleta de história alternativa “A Ética da Traição”, havia um agente secreto da Confederação Germânica (tradicionais aliados da Gran República del Paraguay), Marcel Klein, que embarcara na barcaza Espírito Santo para vigiar os passos do físico brasileiro Albuquerque Vieira, em sua tentativa de fuga para o lado paraguaio da fronteira.  Em suas horas vagas, esse operativo alemano escrevia ciência fictícia (tradução literal para o português do termo castelhano “ciencia ficción”, ou seja, nossa velha e boa ficção científica).  O problema é que, como os grandes autores do gênero eram todos paraguaios, para se inserir no mercado editorial, nosso dublê de espião e ficcionista adotou o pseudônimo literário de “Daniel Alvarez”.

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