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Priscilla Matsumoto – @balljointedpuri – tem tantas palavras para expressar que, por vezes, elas extrapolam o papel. A escritora carioca, de 29 anos, está lançando seu segundo romance e tem diversos e-books publicados na internet, e ainda alimenta seu blog, Alada com poesia, contos e resenhas.

1 – “Minha querida Sputnik”, Haruki Murakami

minha-querida-sputinikA percepção da realidade em Minha querida Sputnik – sua fluidez, sua inconfiabilidade, seu caráter escuso – motivou a edificação do universo no qual a trama de Ball Jointed Alice se desenvolve. Não posso deixar de mencionar, também, o tecido emocional arrebatador da narrativa. A representação do desejo – e da falta dele –, bem como suas implicações irreversíveis, é um ponto que me conectou especialmente com esse romance e me fez enxergar melhor o tipo de história que Ball Jointed se tornaria.

Esse foi o livro do Murakami que o tornou um dos meus escritores favoritos. Eu o li enquanto escrevia BJA e ele é, inclusive, citado na história – uma das personagens possui uma relação especial com a obra (por isso é difícil falar sobre suas influências no meu trabalho sem deixar escapar algum spoiler).

2 – My Chemical Romance (e outros músicos – Andrew McMahon, Emilie Autumn, Anberlin)

my-chemical-romanceMúsica é extremamente importante na minha escrita. É, quase sempre, o ponto de partida de qualquer ideia. Não consigo conceber imagens literárias sem um pano de fundo musical, algumas canções são determinantes na atmosfera de uma cena ou, até mesmo, de um personagem.

Sou louca pelo My Chemical Romance, a estética teatral e a poética pungente da banda têm um apelo muito forte na minha criação artística (e, por assim dizer, na minha vida). Errante, trágico, sangrento, belo – estes são os conceitos emprestados do MCR que eu quis aplicar a BJA e que são explícitos, principalmente, no protagonista Frank, cujo nome e visual foram chupinhados de uma dos guitarristas da banda, Frank Iero. Por mais que o My Chem tenha sido o pilar musical de Ball Jointed Alice, há outros músicos que não posso deixar de citar:

Andrew McMahon é um cantor, compositor e pianista indie pouco conhecido que teve duas bandas (Something Corporate e Jack’s Mannequin), hoje segue carreira solo e é considerado um gênio por muita gente (pelo menos por mim é). É o homem que compõe a trilha sonora da minha vida em tempo real e, por isso, acaba influenciando tudo que eu escrevo. Emilie Autumn é a rainha das garotas loucas (depois da Sylvia Plath, claro) e minha diva. Seu álbum Opheliac e, especialmente, a canção “Shalott” (“I’m half sick of shadows, I wanna see the sky. Everyone eles can watch as the sun goes down, so why can’t I?”) não saíram da minha cabeça enquanto eu construía Alice, a louquinha. O disco mais recente da Emilie, lançado bem no meio do processo de BJA, conta uma história que se passa em um hospício. Não tinha como não me inspirar. Já o Anberlin é uma banda de rock alternativo com um vocal que me arrepia até a alma. Se há algo de “místico” em Ball Jointed, foi inspirado pela voz de Stephen Christian. É deles a música cujo título tenho tatuado no braço, “Dismantle. Repair”, muito significativo ao meu fazer literário e conectado diretamente à obra sobre destruição e criação que é BJA.

Fiz uma playlist do livro no Spotify:

3 – “O Estrangeiro” e “O Mito de Sísifo”, Albert Camus

o-estrangeiro-o-mito-de-sisifoLi tanto O Estrangeiro quanto O Mito de Sísifo quando era mais nova – este último acabou se tornando tema da minha monografia – mas tenho a sensação que, assim como Andrew, Camus sempre vai reverberar em qualquer coisa que eu escreva. Foram duas leituras que transformaram meu modo de ver o mundo. Ambas as obras abordam o mesmo tema, o absurdo, só que o primeiro é um romance e o outro, um ensaio. Frank é um esboço, frustrado pela nostalgia, de homem absurdo. Alguém que tenta a todo custo viver como se nada fizesse sentido. Tal objetivo é traído pelo amor por Alice, o qual lhe oferece uma esperança vã. Contudo, nas palavras do próprio Camus: “quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo”. A natureza de Frank é, ao mesmo tempo, errante e aprisionada por um desejo fadado ao fracasso. Isso faz com que ele se assemelhe a Sísifo, que recebeu o castigo dos deuses de empurrar uma rocha montanha acima apenas para, ao atingir o cume, vê-la rolar novamente para baixo.

Frank é, e sempre será, um estrangeiro. Como “um ator divorciado de seu cenário”, incapaz de crer nas ilusões que confeririam ao mundo algum sentido, apegado a um amor desprovido de expectativas. Enfim, um homem com a morte na alma.

4 – “Nana”, Ai Yazawa

nanaNana é um mangá josei que foi adaptado para uma série de anime.

Junto com o grupo CLAMP e a Kaori Yuki, Ai Yazawa é minha mangaká favorita. Assim que comecei a escrever BJA, imaginava meus personagens desenhados nos traços da Yazawa, a atmosfera punk-nipônica de Nana impregnava meus cenários. Era como se Yazawa fosse a diretora de arte e a figurinista da minha história. Contudo, não foi apenas a parte visual do mangá que inspirou meu trabalho.

Sou fascinada pela maneira como Ai Yazawa constrói relações. É como se ela jogasse uma lupa sobre cada dupla de personagens – todos jovens adultos, assim como os meus – e ampliasse os laços únicos que existem ali. Essa perspectiva, principalmente quando se trabalha com um grupo grande composto por indivíduos peculiares (no meu caso, loucos), demonstra o nível de sensibilidade que eu procurava atingir. Não há fantasia em Nana (pelo menos, não que eu me lembre), mas foi sua exploração tão aguda do humano que me atraiu e que eu quis trazer para minha obra.

5 – “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho”, Lewis Carroll

aliceO item mais óbvio da lista.

Minha obsessão por essas obras do Lewis Carroll começou quanto fiz uma adaptação de País das Maravilhas para o teatro. Mesmo antes de ler os livros, quando era criança e assisti ao desenho animado, os personagens peculiares e o enredo desobrigado de sentido me atraíram. Isso sem falar da personalidade da menina Alice, curiosa, esperta e maluquinha… muito mais interessante, aos meus olhos, que qualquer princesa de conto de fada. Durante minha infância, tinha até uma amiga imaginária chamada Alice. Eu cresci, Alice se transformou numa esquizofrênica de cabelos pretos, pele pálida e olhos esbugalhados – mas nunca me abandonou. Seu mundo permaneceu fiel à natureza dada por Lewis Carroll, uma realidade oculta à própria realidade, mas com um gosto de sombras e desespero.

O modo como Carroll trabalha o conceito de “identidade” (e até os questionamentos quanto à própria existência), principalmente em Através do Espelho, saltou-me à vista e refletiu na criação de BJA. Durante suas aventuras por universos desconhecidos, a Alice de Carroll é, a todo momento, interrogada sobre quem (ou o que) é e o que deve fazer, como deve agir. E isso vindo de criaturas imersas em incoerência e obedientes a leis estapafúrdias, o que a irrita e, por vezes, chega a entristecê-la. Não vivemos num mundo muito diferente desses. Talvez seja por isso que Alice, a minha Alice, tenha enlouquecido.

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