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Meu Amor é um Sobrevivente: Escrevendo "Chocolate", Karen Alvares
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Meu Amor é um Sobrevivente: Uma cidade chamada Anomia, Lidia Zuin

Ele estava de costas, ajoelhado frente à grande mochila aberta como a boca de uma fera engordada por ideias ruins e atitudes irracionais. Por entre os dentes do zíper pulavam cilindros de tinta vermelha, preta, branca, azul. Uma infinidade de tons que inexistiam na paleta urbana. Suas mãos seguravam a única arma que possuía: um tubo de spray metálico que usava para preencher a foice do ceifador pintado nas paredes de um túnel subterrâneo. Os carros corriam enfileirados, brilhando suas luzes em ciano. Iluminavam a pouca pele que escapava de seus rostos cobertos por máscaras: a dele, de gás, era feita de plástico; a dela era um capacete de material balístico. O cabelo preto preso num elástico de remendos moveu-se do ombro esquerdo às costas, no momento em que ele se voltou para a mulher. Os olhos se preenchiam de pupilas dilatadas. E, ainda assim, aquelas orbes continham força o suficiente para se transformarem em dois buracos negros sugando tudo ao seu redor, exceto aqueles que trocavam olhares. Não era a primeira vez.

Resident Evil 4 - Leon a Ada copy

Eu já havia participado da série Amores Proibidos na coletânea Meu Amor é um Anjo, o que foi um desafio, agora como autora convidada, eu fui novamente posta em xeque com outra temática voltada para o público infanto-juvenil. A proposta distópica me fez recordar das aulas de sociologia, no primeiro ano de faculdade, quando o professor nos ensinou o conceito de anomia de Émile Durkheim.

A palavra, aliás, foi adicionada ao dicionário e resumida da seguinte maneira, como consta no Michaelis:

anomia 
a.no.mi.a
sf (anomo+ia11 Ausência de lei ou regra; anarquia. 2 Estado da sociedade no qual os padrões normativos de conduta e crença têm enfraquecido ou desaparecido. 3 Condição semelhante em um indivíduo, comumente caracterizada por desorientação pessoal, ansiedade e isolamento social. 4 Med Perda da faculdade de dar nome aos objetos ou coisas ou de reconhecer e lembrar seus nomes.

Assim, peguei esse gancho, uni ao cenário cyberpunk e resolvi pôr como personagem principal um homem, pensando que, como a coletânea é feita somente por autoras, normalmente há uma facilidade das escritoras em pôr como protagonista uma mulher. Eu mesma tenho esse costume, aliás. Então vou apresentando o mundo desse rapaz que vive sozinho, às lembranças do pai, um professor que faleceu e deixou um caderno de anotações sobre seus pensamentos a respeito dessa sociedade condicionada, a qual ele apelidou de “Cidade de Anomia”. Isso faz com que o personagem dê uma repaginada em sua vida meio medíocre e tente agir contra o que ele passa a achar injusto, mas através da arte. E é nesse momento que ele se encontra com uma pessoa do passado, um amor de infância.

A isso eu uno algumas das coisas que também comecei a estudar no mestrado, o conceito de seres hipnogênicos, um pouco da ideia de funcionário de Vilém Flusser, que ele aborda no livro Filosofia da Caixa Preta, mas que é um tema abordado ao longo de toda sua obra. Chego a quase citar literalmente um trecho de um artigo do meu orientador, o Norval Baitello Junior, O tempo lento e o espaço nulo, no qual ele explica sobre o conceito do nulodimensional, ou seja, da abstração, temas abordados também por Flusser e Dietmar Kamper.

O caso é que cada vez mais tenho gostado de escrever ficção não só pra contar uma boa história, mas também para falar sobre temas interessantes e filosóficos. Faço isso em homenagem a meus professores, que me inspiraram tanto quanto os autores literários. E o cyberpunk é uma vertente extremamente forte nesse sentido, se formos levar em consideração o impacto das obras dos autores do Movimento além de terem entretido. Então, espero que gostem desse meu conto!

Meu Amor é um Sobrevivente, editora draco

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0 Comments

  1. Melissa de Sá disse:

    Lídia, menina, que admiração que eu tenho com esse seu processo de escrita que junta academia e ficção. Pra mim é uma ponte tão incrível, mas ao mesmo tempo tão longínqua por conta do lugar de onde falo. Mas penso como você, mesmo sozinha com minha dissertação. Mal posso esperar para ler seu conto.

    • Lidia Zuin disse:

      Melissa, obrigada mais uma vez por comentar em um post meu aqui no blog da Draco! Espero que goste desse meu conto 🙂 Vamos ver se você gosta da forma que tentei unir esses dois campos!

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