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Como escrevi “YHVH”, por Alexey Dodsworth

Ao me deparar com um edital da Draco que buscava roteiristas de quadrinhos para a coletânea “Demônios da Goetia”, decidi mudar um de meus planos originais. Eu havia começado a escrever “Paradoxo de Epicuro”, um roteiro de filme em que eu procurava aplicar as técnicas aprendidas em laboratórios de cinema que cursei em 2016. Pensei: e se no lugar de escrever um roteiro de filme eu fizesse uma versão mais enxuta aplicável à proposta da Draco? A estrutura de escrita de roteiro de cinema é até bastante parecida com a estrutura de uma história em quadrinhos. Eu precisava, é claro, fazer um enredo de quase duas horas de duração caber em vinte páginas. E, assim, nasceu “YHVH” (pronuncia-se “Iavé”), meu primeiro roteiro de quadrinhos.

Era fevereiro de 2017 quando eu comecei o processo de escrita, e eu estava em Veneza, na Itália. Fazia muito frio e, dado que era carnaval, eu encontrava pessoas fantasiadas de demônios até quando ia até a padaria. Mas as minhas principais inspirações não envolveram eventos sobrenaturais. As inspirações vieram de uma lembrança de adolescência e das associações que fiz com a história de uma pouco conhecida heroína, uma professora norte-americana chamada Victoria.

* * *

Como a grande maioria dos brasileiros descendentes de italianos, eu cresci no contexto de uma família cuja estrutura foi cimentada por valores católicos. Dentre tais valores, dizer a verdade é um dos imperativos mais significativos. Aprendemos desde cedo que mentir é errado, é pecado, aprendemos que o diabo é o pai da mentira. Confessamos nossas mentiras aos padres, mesmo as mais ridículas, para que sejamos redimidos de nossas faltas.

Eu tinha algo em torno de quatorze anos quando me deparei com o cenário da verdade como muito mais maligna que a mentira. Minha bisavó, maior motivadora católica da família, havia desenvolvido Alzheimer após a morte do marido e mergulhou fundo no abismo da insanidade. Como eu ajudava a tomar conta dela, era comum que ela se dirigisse a mim ao menos uma vez por dia, e perguntasse:

– Onde está Pasquale?

Eu só respondi a verdade uma única vez. Diante da lembrança de que meu bisavô já havia morrido, jamais esquecerei o tanto que ela chorou. Levou bem uma hora até esquecer novamente, e fazer a mesma pergunta. A resposta que eu dei desta vez seria, em tese, um pecado: eu disse que Pasquale estava na fazenda. Menti, e o fiz sem o mais vago peso na consciência. A partir daí, pequei todos os dias por algo em torno de cinco anos. Pasquale estava na fazenda, na igreja, em uma reunião, em outra cidade.

O padre, contudo, não se mostrou tão satisfeito. Mentira é mentira, e eu deveria rezar alguns rosários para me redimir, e prometer não mentir nunca mais. Não que isso fosse de fato significativo para mim, já que eu nunca fui um exemplo de fé religiosa. O que me chamou a atenção foi a irredutibilidade da moral cristã: mentir é errado, não importa a circunstância. E lá estava eu, ainda muito jovem, diante de um dilema: dizer a verdade, salvaguardando minha pureza, ainda que isso trouxesse sofrimento a uma senhora idosa? Ou mentir, indo contra o que dizia o padre, de modo a confortar minha bisavó?

Não que tenha sido um dilema tão complicado, devo admitir.

* * *

               Vinte anos após o meu primeiro questionamento filosófico em torno das questões sobre verdade e mentira, lá estava eu cursando a faculdade de Filosofia e me deparando com a alta pertinência de minhas dúvidas juvenis. Se por um lado há o risco do relativismo moral, por outro corremos o risco de nos submetermos a imperativos comportamentais que, se seguidos, nos afastam da humanidade. Por um lado, se dizemos que não há distinção ética entre dizer a verdade e mentir, abrimos precedentes perigosos. Por outro, se assumimos que mentir é sempre errado, o que nos restará de humanidade?

Devemos dizer a verdade mesmo que ela ponha em risco a vida de inocentes? Quando é aceitável mentir? Como seria o mundo se nós fôssemos obrigados à verdade? É sobre essa pergunta que se debruça a carta de Benjamin Constant a Immanuel Kant. Enquanto Kant defende a ideia de um imperativo categórico, ou seja, de uma ética além de qualquer contexto, Constant diz: “não há nada de fixo: restam apenas as circunstâncias, e cada um é juiz das circunstâncias”. Não pretendo, aqui, me aprofundar no debate entre Constant e Kant, mas apenas pontuar que meu dilema adolescente é uma das questões mais significativas da história da Filosofia, capaz de gerar teses e mais teses de doutorado também na área do Direito.

* * *

               Eu não vejo a ficção como tendo uma obrigação pedagógica, mas gosto quando ela vai além do objetivo de entreter e estimula questões filosóficas. A ideia do roteiro de “YHVH” (pronuncia-se “Iavé”, a propósito) martela em minha mente desde a primeira vez em que me toquei do mal desnecessário que eu poderia causar ao dizer a verdade. Seria o pai da mentira tão maligno assim? E se ele for um agente de Deus, como propõem alguns teólogos, cumprindo seu papel nos desígnios divinos? E quanto à perversidade presente, embora sutil, nas ideias de pureza e bem absolutos? Como dizia meu saudoso amigo, o cineasta Pedro Camargo, “o diabo deve ser um cara muito bacana. Nenhuma guerra foi feita em nome do diabo, só em nome de Deus”.

Em “YHVH”, o diabo tem um propósito. Ele não é apenas uma entidade que sente inveja de Deus. Ao contrário, é o aperfeiçoador da divina obra, é aquele que lutou pela liberdade humana.

Note esta outra questão filosófico-teológica, elaborada pelo filósofo alemão Hans Jonas: se Deus é perfeito, é necessário que Ele se retire para que o Universo – imperfeito que é – possa existir. Para Jonas, essa retirada é um ato de generosidade: a perfeição cai fora para que eu e você possamos existir.

Se assim for, a pior coisa que poderia acontecer seria alguém trazer um anjo, enviado da perfeição, para o nosso mundo. A mera presença do anjo inviabilizaria a existência humana. Afinal, a pureza a todo custo está presente em ideologias autoritárias. A liberdade é inadmissível para aquele que tem por objetivo a obediência a um ser supremo. Convocar um anjo seria muito, muito pior do que dançar com o diabo. Se lhe parece estranho este pensamento, considere o seguinte: para o anjo, o que importa é a perspectiva da eternidade. Sofrer, ainda que sofrer bastante, é algo temporário. O sofrimento temporário não significa absolutamente nada na perspectiva de um ser eterno. Se a verdade traz sofrimento, e daí? O que importa, para o anjo (e para alguns religiosos) é a salvação.

É sobre esta perspectiva que “YHVH” se debruça. Como eu disse, eu estava em Veneza, quando comecei a escrever o roteiro, e era carnaval. Na tradição local, o ato de se mascarar, de fingir ser outra pessoa, de mentir a respeito da própria identidade, tem algo de libertador. O carnaval era o único momento do ano em que plebeus e nobres italianos interagiam, o único momento em que todos eram iguais. Não é interessante pensar que é em uma festa que celebra a mentira, a fantasia, o faz de conta, que os venezianos se percebessem como um só povo, sem distinções de classe?

“YHVH” é um elogio à mentira. Não à mentira como finalidade, mas como instrumento de compaixão. Não ofereço o diabo como um vilão. E tampouco como um herói. Em última instância, o diabo é nosso melhor amigo, nosso semelhante. O verdadeiro horror se revela em nossa própria imagem refletida no espelho: nossos ideais inumanos, monstruosos, de pureza e perfeição.

* * *

               Ops… no começo deste texto, eu me referi à professora Victoria, uma pouco conhecida heroína norte-americana. Pois então: após ler “YHVH”, procure na internet a história de Victoria Leigh Soto. Não leia antes, sob risco de spoiler. Se você acha que a verdade deve ser dita a todo custo, talvez Victoria faça você mudar de ideia…

…e não dormir direito à noite.

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