Coletânea Cyberpunk é lançada por meio do Catarse
maio 8, 2019
Essenciais para Aleister Crowley
maio 13, 2019

O Mago X O Poeta: o crossover do século

Portugal dos anos 1930 foi cenário de um dos crossovers mais inusitados do século, quando o homem mais perverso da Inglaterra se encontrou com o maior poeta da língua portuguesa.

O mago e o poeta

Aleister Crowley é hoje considerado o maior mago do século passado. Ele influenciou músicos, escritores, cineastas, artistas em geral, e… quadrinistas. Alan Moore afirmou sobre ele:  ​​“No mundo das ciências ocultas do século XX, Crowley é uma espécie de Einstein”. Para Grant Morrison, “ele é o Picasso da magia”. Mas no fim da década de 20, sua fama não era das melhores.

Crowley havia nascido numa Inglaterra ainda vitoriana, em outubro de 1875. Filho de pais adeptos de uma facção conservadora cristã, cresceu sob forte pressão da religião. Pelo seu comportamento avesso a essa tradição, sua própria mãe lhe deu o apelido de “Besta”, o qual assumiu com orgulho. Já no alvorecer do século XX, com uma herança de família que lhe dava uma certa tranquilidade financeira, um imberbe e pretensioso aspirante a mago iniciou sua jornada ao oculto ingressando na sua primeira sociedade secreta.

Quando, em 1929, Crowley recebeu o primeiro contato de Fernando Pessoa, ele já havia escrito o Livro da Lei e fundado sua religião/filosofia, a Thelema, já era considerado pela imprensa da rainha o “homem mais perverso da Inglaterra”, havia torrado toda a sua fortuna e era protagonista de diversos escândalos, com sexo, droga e rock and… não, mágicka!


Acredita-se que sejam Aleister Crowley e Fernando Pessoa jogando xadrez.

Fernando Pessoa, por sua vez, com seus 42 anos, era um poeta ainda desconhecido em Lisboa. Já tinha uma vasta contribuição a diversas revistas, mas seu primeiro livro só viria a ser publicado em 1934: Mensagem. O vate, ou poeta, nutria grande interesse pelo ocultismo, escrevendo sobre o tema, além disso, ele psicografou mensagens do além, praticou astrologia, produziu horóscopos, e se disse vidente, capaz de enxergar a aura magnética das pessoas. Ele mesmo afirma ter sido iniciado na Ordem Templária de Portugal, uma sociedade secreta.

A evocação da Besta

Se tiverem ocasião de comunicar, como provavelmente terão, com o Sr. Aleister Crowley, podem informá-lo que o horóscopo dele não está correto.

Em dezembro de 1929, Pessoa escreveu à editora que publicava os livros de Crowley para corrigir o horóscopo que o mago havia publicado de si próprio. Logo em seguida, o mago respondeu:

Atrevo-me a dizer que sua suposição está bastante certa. Ficaria muito contente se me desse alguma informação sobre minha situação atual.

Crowley, então, a partir de correspondências seguintes, firma o compromisso de conhecer as terras lusitanas, onde chegou em 2 de setembro de 1930, acompanhado de sua namorada Hanni Jaeger, um quarto de século mais jovem e carinhosamente chamada de Dama Escarlate ou Anu (referência à área da anatomia preferida do mago). Ele afirmou misteriosamente em seu diário que fora “obrigado a partir para Lisboa afim de estabelecer delegação da ordem sob a responsabilidade de dom Fernando Pessoa”, o que levanta suspeitas sobre as reais intenções do mago com o poeta em iniciados do mundo inteiro.

O suicídio de Crowley

Fizeram alguns passeios juntos naquele mês. O poeta agradou o mago, que registrou em seu diário: “Pessoa encontrou-se conosco. É um homem simpático.” Mas o que roubou a atenção de Fernando Pessoa foi a jovem namorada da Besta, de 19 anos.

Seus seios altos parecem

(se ela estivesse deitada)

Dois montinhos que amadurecem

Sem ter que haver madrugada.

[…]

Ó fome, quando é que eu como?

Em carta, ela devolve ao vate: “Você é maravilhoso”, e assina “fraternalmente sua”.

Mas, em 27 de setembro, no jornal Diário de Notícias, de Lisboa, o jornalista Augusto Ferreira Gomes, amigo de Fernando Pessoa, dá a deixa com “Um caso Estranho”, onde relata o achado casual da carta de despedida assinada por Aleister Crowley. Alguns dias antes, Hanni Jaeger havia brigado com o bruxo e o deixado só em Portugal. Fernando Pessoa relatou que o ocultista inglês temia o destino da moça, que tinha tendência ao suicídio e se dizia perseguida por um mago negro em Lisboa.

A versão do suicídio, defendida pelo poeta português, rapidamente ganhou repercussão internacional, com destaque nos principais jornais e revistas europeus, e despertou interesse, inclusive, da Scotland Yard. Teria o mago se suicidado no local conhecido como Boca do Inferno, uma formação rochosa à beira mar com uma violenta torrente de água a 30km de Lisboa?


Placa afixada na Boca do Inferno em 2000 relembra o fato

O assassinato de Crowley

Já em dezembro, Fernando Pessoa dá um depoimento ao semanário Girassol em que o entrevistador é, ninguém mais, ninguém menos que (rufem os tambores) ele mesmo!

O poeta manejava com destreza sua habilidade em escrever como outros. Foi com seus heterônimos que ele conquistou seu espaço na literatura universal, destacando-se o trio Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Ele assinava poemas através de autores que criava, com características estilísticas próprias, inclusive biografias e traços físicos particulares. Pessoa afirmava que essa escrita fluía automaticamente, que ele via alguns desses amigos em seu reflexo quando se olhava no espelho e que eles podiam inclusive se encontrar e ter longas conversas.

A entrevista da revista Girassol que trazia o título clickbait “Aleister Crowley foi assassinado?” causava uma reviravolta no caso da Boca do Inferno. Lá o poeta conta (para si mesmo) que, em outubro, um médium londrino em transe esteve na Boca do Inferno e descobriu que a Besta 666 fora empurrada dos rochedos por um agente do Vaticano.

A blague de Crowley

O mistério só se encerrou em fevereiro do ano seguinte, 1931, quando Crowley surge em Berlim, divulgando uma exposição de quadros. Há que se reconhecer nele também um mago da autopromoção.

Acredita-se que o próprio Pessoa participou da encenação, inclusive confundindo a polícia ao, por exemplo, aparecer nos jornais afirmando ter visto Crowley ainda em Portugal, antes do suicídio, quando as investigações já apontavam que o ocultista havia ultrapassado a fronteira. Outra pista da blague é a amizade do jornalista Augusto Ferreira Gomes com o poeta Fernando Pessoa, o qual teria achado “casualmente” o bilhete próximo à Boca do Inferno.

Durante o sumiço, Fernando Pessoa chegou a escrever dez capítulos de uma novela policial em que um detetive inglês tenta desvendar o suicídio, mas a obra ficou inacabada. E, quando do retorno do mago ao mundo dos vivos, talvez tenha perdido o interesse.

Há quem diga que tudo não passou apenas de uma estratégia do homem mais perverso da Inglaterra para não pagar as contas do hotel.

Suicídio, assassinato, blague, segredos ocultistas, ordens secretas, mago negro, corações partidos, calote, autopromoção, Scotland Yard, agente do Vaticano…

— O que se conclui disso?

— Que eu saiba, nada.

(Fernando Pessoa em entrevista a Fernando Pessoa)

Posteriormente, o poeta lusitano publicou a tradução para o português do poema Hino a Pã, de autoria de Aleister Crowley. Pessoa dizia tratar-se não de um poema sobre magia, mas um verdadeiro poema mágico.

Fontes

arquivopessoa.net

Crowley-Pessoa: o encontro, de Alberto Marsicano

Fernando Pessoa: Uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho

Por Rogério Faria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *