Cangaço Overdrive é finalista do Prêmio Jabuti
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Jabuti Sertãopunk
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Vikings: Lutem, cães! Lutem!

– Veja, pai, há barcos se aproximando! – O pequeno Edred apontou para a praia. – Muitos barcos!

O pai apruma as costas, magoadas de tanto lavrar a terra. Enxuga o suor da testa com a manga da camisa puída e olha para o mar. Preme os olhos azuis como os do filho, mas que já não têm a mesma clareza da sua juventude.

– Devem ser os pescadores retornando. – Estala os dedos, pronto para voltar à labuta. – Aproveite e veja se eles conseguiram alguma coisa. Wulf está me devendo. Vai lá e escolhe um peixe bem grandão.

– Não são os pescadores, pai! – O molequinho corre e sobe em uma rocha parecida com o dedo de um gigante saindo da terra. – As velas são grandes e coloridas!

O pai tosse, escarra e vai, com passos cansados, atrás de Edred.

– Pare de inventar coisas, moleque! Quer arder no inferno? O padre Will…

O pai leva a mão à cabeça. E as suas pernas amolecem.

– Pelo sangue de São Wilfrid! – Faz o sinal da cruz. – Vem, Edred!

– Por quê? – O menino não tira os olhos do mar. Acena, mas eles estão longe. – Quero ver os navios chegarem. Olha como são grandes!

– Vem logo! – O pai pega o menino no colo e corre.

– Por que estamos correndo, pai?

– Estamos fugindo!

O pai abandona a enxada – o seu bem mais caro e importante – e segue em direção ao pequeno vilarejo. Sobe a colina a passos largos, ofegando como um cão velho, não tanto pelo esforço, mas pelo medo. Ele se lembra bem daqueles navios. Vira o pai tombando de joelhos depois de ter a cabeça rachada por um machado.

Ele vira sua mãe e a sua irmã serem levadas. E só não morreu porque se escondeu atrás de um saco de grãos, contendo o choro com as mãos na boca.

Mas o que ele poderia ter feito contra aqueles homens do norte? Aqueles que pilhavam e queimavam igrejas sem se importar com a fúria de Deus? Aqueles que decapitavam padres e pisoteavam as relíquias sagradas zombando: “como alguém pode adorar o dedo seco e o prepúcio de um homem morto?”.

– Pega a bebê e vai pro bosque! – Escancara a porta do seu casebre, fazendo a esposa gritar de susto. No fogo, um ensopado de legumes e peixe exala um cheiro bom.

Mas não serão eles a comê-lo.

– O que está acontecendo, homem? – A mãe vai acalentar a filha, que começou a chorar no cesto.

– Eles voltaram!

– Eles quem?

– Os daneses!

– Minha Santa Alkelda, interceda junto a Deus por n…

– Rápido, mulher! – O pai enfia algumas tralhas na sua mochila enquanto Edred pega um pão e peixes defumados e coloca em uma trouxa.

A bebê berra, desesperada. Edred resmunga algo sobre querer ir ver os navios. Leva um tabefe na nuca e continua a embrulhar os mantimentos, choroso. O pai vai até o cercado e passa uma corda no pescoço da porca prenha. E a família vai rumo ao bosque.

O sino da igreja começa a badalar, frenético.

– Vamos logo! – O pai aperta o passo e não demora muito para algumas pessoas se juntarem a eles, somente com a roupa do corpo e o desespero no semblante.

E, lá no vilarejo, começa a gritaria.

*

Cena da HQ Vikings: noite em Valhala

– Lutem, cães! Lutem! – Hróaldr, um poderoso Jarl, acabara de talhar a barriga de um saxão. As tripas do infeliz resolveram tomar um pouco de ar fresco enquanto ele guinchava.

– Esses merdas de bode são corajosos! – Boors, irmão do Jarl, picara o olho de um molecote com a sua espada. O garoto caiu para trás, tendo espasmos.

– Filho de uma porca vesga! – Uffe fez uma careta por causa de uma flecha que rasgara a sua orelha. Atirou sua machadinha, que se cravou no peito do arqueiro.

Caolho aparou um golpe de espada com o seu escudo redondo e devolveu a gentileza cravando a lâmina do seu machado logo acima do joelho do atacante, que caiu para trás e teve a cara perfurada por uma lança.

Um longship tinha ancorado nessa praia, e sessenta guerreiros desembarcaram famintos por prata e ouro. Outros cinco navios com cabeças de feras na proa continuaram margeando a costa. Iriam saquear mais ao sul, em Bretlinton ou além.

Hroáldr decidira encurtar a sua viagem. Sentiu que devia parar ali. Algo lhe soprou nos ouvidos. Talvez Odin. Talvez Loki.

Ao ser recebido por mais de cem saxões bem armados, sorriu. Sabia que aquela pequena igreja devia esconder muitas riquezas para ter tamanha proteção.

Estavam em menor número, contudo o comandante dos defensores era afoito. Decidira combater direto na praia assim que os nórdicos desembarcaram. Isso fez muitos dos seus homens tombarem, e ele teve que recuar. Estavam bem armados, mas muitos eram inexperientes, ao contrário da tripulação jurada a Hroáldr.

Muitos batalhavam juntos havia mais de dez invernos. E mesmo os mais novos, provaram o seu valor durante os treinamentos exaustivos que o Jarl impunha aos seus homens.

O líder dos saxões e mais um punhado de homens estavam sobre o seu cavalo quando viram a primeira leva ser massacrada pelos machados, lanças e espadas escandinavas.

– Voltem! – berrou. – Toca essa merda de corneta, Alfred!

A corneta estridente ecoou, e aqueles que ainda conseguiam correr deram meia-volta. Muitos morreram quando o aço frio fendeu suas colunas.

Quarenta ou cinquenta corpos estavam na areia. Apenas seis eram daqueles que vieram do mar.

– Covardes! – Boors riu. – Não são corajosos, são galinhas fugindo da raposa.

– Parede de escudos! – o Jarl ordenou quando entraram no vilarejo e uma flecha resvalou no seu elmo. – Eles irão se agrupar nos portões da igreja!

Grande parte do povo daquele vilarejo havia fugido. Outros se trancaram em suas casas. O Jarl ordenara matar primeiro os soldados antes de saquear. E nenhum dos seus homens ousava desobedecer.

– Escudos colados, homens! Vocês sabem o que fazer. Matem! Matem! – Hróaldr berrou, segurando com firmeza o cabo da sua espada, enquanto avançava passo a passo.

– Esses mijos de foca ficam atirando flechas! – O escudo de Boors tamborilava. – Parecem meninos tentando caçar coelhos.

– Acertaram a orelha de um! – Caolho zombou de Uffe, que tinha a barba empapada de sangue. – De uma lebre feia como um troll!

– Doeu menos que colocar um brinco – Uffe rosnou enquanto a sua orelha latejava.

Dez passos os separavam dos saxões.

Cinco.

Três.

Dois.

Um.

*

Cena da HQ Vikings: noite em Valhala

– Ainda bem que morreram alguns dos nossos! – Boors arrotou, o rosto vermelho e a fala mole depois de tomar pelo menos cinco canecas da boa cerveja do padre. – Temos tanta prata e tanto ouro que – hic! –, se eles ainda estivessem vivos, precisaríamos jogá-los no mar.

– Lutaram bem. – Hróaldr tocou o seu pingente de martelo. – Logo estarão no Salão de Odin.

– Eu não sei se quero voltar. – Uffe, com a cabeça envolta em bandagens, coçou o sovaco. – Veja que terras boas para plantar!

– Verdade – Caolho soluçou. – Aqui não é tão frio. Acho que vou encontrar uma boa mulher e ficar por aqui mesmo.

– Você parece um verme cagado por um cão! – A cerveja escorria pela barba de Boors. – Ninguém vai te querer.

– A sua mãe nunca me recusou!

– Seu filho de uma… – Boors se levantou, mas tonteou e caiu para trás, os braços abertos e o rosto vermelho.

Todos riram.

Alegraram os Deuses naquela manhã. E tinham todo um reino para pilhar.

Esse é o estilo narrativo do autor Eduardo Kasse. E você pode fazer parte dessa jornada ao apoiar a campanha Vikings: Morte ao troll no Catarse!

Vikings: Morte ao troll no Catarse

Chegou o momento de fazer acontecer! Você vai fazer parte dessa aventura épica. Vamos, juntos, matar o troll!

https://www.catarse.me/vikings

Por Eduardo Kasse



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