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Publicação Norte-Americana da coletânea Solarpunk

Solarpunk - EUA

Foto de Sarena Ulibarri

 “The first English translation of a groundbreaking Brazilian anthology

of science fiction stories set in sustainable future worlds.” (Sarena Ulibarri)

 

Na semana passada, Sarena Ulibarri, publisher da editora norte-americana World Weaver Press anunciou o lançamento mundial da Solarpunk: Ecological and Fantastical Stories in a Sustainable World, versão em inglês da antologia que organizei para a Draco dentro do projeto Triantologia Punk e que foi publicada originalmente em 2012

O contrato entre a WWP e a Draco foi firmado no início do ano passado e a tradução ficou a cargo de meu velho amigo Fábio Fernandes.  Sarena propôs uma campanha bem-sucedida de crowdfunding para arrecadar os recursos necessários à tradução.

Grosso modo, um ano mais tarde, versão em inglês prontificada, a versão norte-americana está impressa e foi anunciada em pré-venda no último dia 09 de maio.  O lançamento mundial se dará em 07 de agosto.

Essa edição norte-americana contará com ilustrações internas belas, instigantes e, sobretudo, pertinentes do artista português José Baetas.

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Por falar em pertinência, cabe aqui um pequeno adendo:

Em maio passado, por conta do projeto Solarpunk original, fui convidado para comparecer à cidade de Santos durante um fim de semana a fim de ministrar uma palestra sobre ficção científica ecológica no SESC-Santos, oportunidade perfeita para rever os amigos Guilherme Kujawski e Ataide Tartari.

Preparei uma apresentação razoavelmente abrangente do tema e aproveitei para falar um pouco (ou, talvez, mais do que um pouco) do movimento solarpunk em geral e da antologia Solarpunk em particular. Aos interessados em maiores detalhes, sugiro a leitura da crônica “Ficção Científica Climática e Solarpunk no SESC Santos”, publicada em meu blogue Crônicas da FC Brasileira: alternative-highwayman.blogspot.com.br

*     *     *

A Solarpunk é o primeiro livro de ficção científica lusófona publicado em inglês nos últimos quarenta e poucos anos.  Uma vitória tanto para este antologista e para a Draco quanto, sobretudo, para os nove autores, que terão suas narrativas lançadas no exigente mercado editorial norte-americano e apreciadas por um público potencialmente muito maior do que aquele que teve acesso à publicação original.

Como esse pretenso milagre se deu?

Simples: em meados de 2011, após os lançamentos bem-sucedidos da Vaporpunk e da Dieselpunk, eu e o Erick Sama resolvemos que a terceira antologia teria uma pegada mais otimista, com a proposta de narrativas que falassem do emprego de energias renováveis.  Logo de cara nos fixamos no título “Solarpunk”, embora frisássemos no edital de convocação para os autores que qualquer energia renovável e/ou não convencional estava valendo.

Das três antologias do projeto, a Solarpunk foi a que recebeu menos submissões.  Também foi a que teve menos impacto inicial à época de seu lançamento.  O motivo provável foi que, ao contrário de suas irmãs mais velhas, a Solarpunk não lidava com o retrofuturismo à la steampunk.  Ao contrário, seis das nove narrativas são textos de ficção científica convencional, não relacionados, direta ou indiretamente, ao subgênero da história alternativa.[1]

No entanto, não se pode negar que foi a primeira antologia de ficção científica ecológica com viés otimista em âmbito mundial.  Daí, anos mais tarde, quando a comunidade de literatura fantástica anglo-saxã começou a ruminar o conceito de solarpunk neste exato sentido, alguém lembrou que uma editora brasileira havia publicado uma antologia com esse título quatro anos antes.  Por conta dessa descoberta tardia, concedi duas entrevistas internacionais em maio de 2016 para blogues de FC&F sobre solarpunk em geral e, sobretudo, sobre a nossa Solarpunk.  A primeira entrevista, para Abraham Martinez, foi publicada no El Ojo de Uk; e a segunda, para Luca Albani, saiu no Solarpunk World Scene.

Daí, o incipiente movimento solarpunk mundial enfim ficou sabendo da nossa antologia precursora. 🙂

*     *     * 

Meses mais tarde, quando a publisher Sarena Ulibarri comentou num fórum de discussão que estava cogitando lançar uma antologia de contos solarpunk por sua editora, Luca Albani citou a nossa Solarpunk.  Sarena retrucou algo do gênero:

— Já ouvi falar dessa antologia.  O problema é que quase ninguém lê em português.

É bem possível que, assim que ela respondeu ao Luca, a ideia da tradução tenha pipocado em sua mente.  E, por que não?

Daí, em meados de março de 2017, Luca passou o meu e-mail para Sarena e ela entrou em contato comigo.  Expliquei que a Draco detinha os direitos da antologia e passei o contato do Erick Sama.  Os dois publishers se entenderam e fecharam negócio.

Daí em diante, é história: Fábio Fernandes e José Baetas foram contratados pela World Weaver Press, o crowdfunding deu certo e hoje, ano e pouco mais tarde, a versão norte-americana da Solarpunk está em pré-venda na Amazon.com e no próprio site da editora.

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Implicações a longo prazo?  Ainda é cedo para dizer.

Mas, sinceramente?  Não nutro grandes esperanças de que a publicação da Solarpunk nos EUA mude sensivelmente o panorama da literatura fantástica lusófona, tampouco a percepção dessa literatura pelos leitores e críticos desse supergênero no Brasil, em Portugal e no exterior.  Afinal de contas, é apenas uma gota no oceano editorial norte-americano, mais um livro de contos entre milhares lançados anualmente no maior mercado consumidor do planeta.

Por outro lado, até pelo fato de ser o primeiro livro de contos de ficção científica lusófona a ser publicado em inglês, é possível que a antologia desperte certa curiosidade no público leitor.

Seria ótimo se a Solarpunk aparecesse resenhada na Locus, mesmo que a resenha não fosse de todo positiva.  Agora, se é para sonhar, melhor ainda seria se, a partir dessa publicação, uma das três narrativas de história alternativa se tornasse concorrente na categoria Ficção Curta do Sidewise Awards.  Se, de candidato passasse a finalista, então, seria a glória.

No entanto, não dá para ter ilusões.  A Solarpunk não foi publicada em inglês por causa da qualidade literária intrínseca das suas narrativas, mas sim pela originalidade de sua proposta e por seu papel de precursora em uma subtemática da ficção científica climática que, para nossa sorte, entrou em moda numa ocasião propícia.  Neste sentido, nossa Solarpunk foi apenas o livro certo publicado na hora certa.

Só o tempo dirá se ela se tornará mais do que isto um dia.  Contudo, enquanto isso, é melhor nos preocuparmos com nossos próximos escritos do que acalentar grandes esperanças sobre eventos futuros sob os quais não temos lá muito controle.

Gerson Lodi-Ribeiro,

Maio de 2018.

[1].  Mesmo assim, três das nove narrativas constituem histórias alternativas: as noveletas “Era uma vez um mundo”, de Antonio Luiz M.C. Costa, inserido na linha histórica alternativa Outros 500, e “Xibalba Sonha com o Oeste”, de André Soares Silva, e a minha novela “Azul Cobalto e o Enigma”, escrita dentro da LHA Três Brasis.

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