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Octopusgarden – Reencarnações de um octópode, Gerson Lodi-Ribeiro

Octopusgarden-capaEm 1983, David Brin publicava Startide Rising, segundo romance da trilogia Uplift Storm, ambientada em seu universo ficcional EarthClan.  Essa narrativa original criativa e intrigante abiscoitou merecidamente os prêmios Hugo e Nebula daquele ano.  A trama gira em torno dos percalços dos tripulantes da nave estelar Streaker (em sua maioria, golfinhos elevados à racionalidade por nossa espécie), enfrentando a fúria de civilizações alienígenas hostis por conta da arrogância suprema de haverem descoberto, já em sua viagem inaugural, os destroços de uma frota dos Progenitores, espécie mítica que, segundo a Biblioteca Galáctica, teria sido a primeira a galgar a autoconsciência sozinha  e também aquela teria instituído as tradições de elevação de espécies à racionalidade.  Neste U.F., os humanos são considerados uma espécie de párias galácticos pelo fato de alegarem terem evoluído espontaneamente, numa tentativa vã e patética de se ombrearem aos Progenitores.

Li Startide Rising pela primeira vez de uma tacada só em fins de setembro de 1986, às vésperas do nascimento da minha filha mais velha, Barbara.  Amor à primeira leitura: de pronto me apaixonei pela ideia de golfinhos elevados à racionalidade.  Daí, a questão de vida ou morte: cedo ou tarde, eu deveria escrever minha própria narrativa de golfinhos inteligentes.  Porém, se eu ousasse fazê-lo, pretendia mostrar golfinhos que realmente de comportassem como cetáceos, mas que também fossem bravos, corajosos e voluntariosos, e, sobretudo, que não parecessem tão dependentes da humanidade quanto os golfinhos postulados por David Brin no romance citado.

A oportunidade de criar minha própria narrativa delfínica surgiu quando, dois anos mais tarde, o amigo Rubenildo Python de Barros me convidou para participar de uma antologia que ele estava organizando, cuja proposta era reunir contos de ficção científica ou fantasia baseados ou inspirados em músicas dos Beatles.  Decidi tentar escrever algo em torno de uma de minhas canções favoritas do conjunto, “Octopus’s Garden”, composta pelo Ringo Starr.

Assim, começou a história da narrativa “Octopusgarden” e de suas diversas reencarnações ao longo dos anos e décadas que se passaram, começando como noveleta e terminando no romance prestes a ser publicado.

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Escrevi a noveleta ao longo do verão de 1988/1989.  Ambientei a narrativa no universo ficcional Tramas de Ahapooka, que havia estabelecido cerca de uma década antes para o projeto de um romance, Mundo-sem-Volta, que eu pretendia escrever algum dia e no qual já havia escrito (mas, ainda não publicado) a noveleta “Alienígenas Mitológicos”.[1]

Embora houvesse personagens humanos em “Octopusgarden”, a fim de me manter fiel ao propósito de prestar uma homenagem mais ou menos explícita a David Brin em geral e ao Startide Rising em particular, os protagonistas eram os golfinhos inteligentes, ali rebatizados como “dolfinos”.  Neste very far future, a humanidade orgânica possui androides para auxiliá-la em suas aventuras e explorações galácticas.  Daí, pareceu justo que seus pupilos dolfinos tivessem seus próprios “delfinoides” para apoiá-los na colonização de Bluegarden, mundo biótico que receberam de presente de seus criadores, os geneticistas humanos da cultura cósmica radicada no Sistema Gigante de Olduvaii.

Concluí a noveleta “Octopusgarden” (nove mil palavras) em fevereiro de 1989.  No entanto, Rubenildo a considerou grande demais, demasiado complexa e com muito pouco Beatles para integrar a antologia.  Portanto, em lugar da “Octopusgarden”, ele selecionou outra noveleta “Regresso ao Mundo dos Sonhos”[2], convenientemente rebatizada como “Across the Universe”, título de conotações simakianas nítidas que, por mera coincidência, também é o título de uma canção do conjunto referido.  Só que o projeto da Beatles 4-ever naufragou diante da falta de interesse das editoras e, sobretudo, do receio de ações judiciais por infringência de direitos autorais por parte da(s) gravadora(s) que então detinha(m) os direitos sobre as músicas do grupo.

Assim, “Octopusgarden” nunca foi publicada.

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Tempos mais tarde, em meados de 1995, resolvi reescrever vários trabalhos, dentre os quais a noveleta delfínica, ampliando-a para enfatizar um pouco mais o papel dos inspetores humanos que se veem obrigados a intervir no conflito que eclode no mundo biótico oceânico cedido aos dolfinos.  Nessa nova encarnação da trama, antes de chegar a Posseidon, sistema estelar que abriga o planeta dos seus protegidos, os inspetores cumprem uma missão preliminar de caráter humanitário em outro sistema.  O teor precípuo dessa missão consistia em salvar uma espécie alienígena da ameaça de extinção e, aproveitando o ensejo, testar um novo protótipo de nave estelar.

Nessa segunda encarnação, a narrativa “Octopusgarden” se transformou numa novela de quase dezenove mil palavras, mais do que o dobro da versão anterior.  A trama se torna mais amarrada às temáticas típicas do universo ficcional de Ahapooka, no que se pese que o enredo àquela época mal falava daquele zoológico planetário para criaturas racionais.

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O problema das novelas é que elas são textos de tamanho ingrato.  Portanto, não surpreende que sejam relativamente difíceis de publicar nos mercados editoriais lusófonos, carentes de revistas de ficção científica e fantasia.  Em geral, são grandes demais para serem inseridas em antologias e demasiado pequenas para serem editados como livros solo.

Daí, segui a tendência (compulsão) natural de ampliar essa novela delfínica para um romance, tarefa na qual me empenhei no verão de 2001/2002, durante uma longa estada com a família na casa de praia dos meus sogros em Angra dos Reis.  Empolgado, escrevi cenas novas, capítulos inteiros.  Esforcei-me para trabalhar melhor nas motivações dos meus personagens e exibir mais do mundo alienígena que os humanos do meu futuro distante presentearam aos seus pupilos cetáceos.  Ao fim da lida, em fevereiro daquele ano, tinha um romance curto em mãos.  Em sua terceira encarnação, Octopusgarden tornou-se um texto de 41 mil palavras, dividido em oito partes tituladas e subdividido em 28 capítulos não titulados.  Novamente, mais do que o dobro da versão anterior.  Essa disposição de partes e capítulos seria herdada com modificações pelas encarnações seguintes da narrativa.

Enfim, meus personagens adquiriram os nomes e designações que iriam manter nas encarnações posteriores da narrativa: de um lado os humanos de Olduvaii, Pandora, Talleyrand e sua Nave autoconsciente e bastante volitiva; do outro, os dolfinos Lennox, Timmy, Carthy, Tieko, Johnny e Ringo; seus delfinoides Andromeda e Nereu; e os octópodes Fiel da Voz e Núncio.

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Não me senti lá muito satisfeito com aquela versão romance curto.  Essa insatisfação explica a vida breve dessa terceira encarnação.  Dois anos e pouco mais tarde, decidi ampliar Octopusgarden para transformá-lo num romance de fato, com mais de 65 mil palavras.  Para a maioria dos efeitos práticos, uma versão já razoavelmente semelhante à atual: uma narrativa dividida em dez partes tituladas que se subdividiam em 38 capítulos não titulados.

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Em sua quarta encarnação, o agora romance Octopusgarden gozou de uma sobrevida de mais de meia década.  No entanto, acabou vitimado por minhas leituras sobre o comportamento dos cetáceos em geral e dos golfinhos em particular.  Porque, com os novos conhecimentos fervilhando em meus neurônios, percebi que certas atitudes dos meus dolfinos não soavam tão plausíveis quanto eu imaginara na época em que (re)escrevi a quarta encarnação da narrativa.

Daí, empreendi novo esforço de reescrita, que culminaria na quinta e (espero!) última encarnação de Octopusgarden, aquela que foi submetida à Editora Draco e que será publicada em breve: um romance de quase 93 mil palavras com doze partes tituladas, que se subdividem em 56 capítulos não titulados.

Na versão atual, a décima-segunda e última parte constitui uma espécie de faixa-bônus: foi originalmente escrita sob a forma de noveleta de dezesseis mil palavras em janeiro de 1999 e, publicada sob o título de “A Filha do Predador” na revista Sci-Fi News Contos em 2001, após vencer o Prêmio Nautilus (na verdade, um concurso) dois anos antes.  Subdividida em doze capítulos não titulados, essa última parte mostra o que acontece quando a nave estelar compacta Penny Lane finalmente ingressa na gravitosfera do Sistema Lobster e aterra em Ahapooka quase dois milênios depois da visita de inspeção efetuada por Pandora e Talleyrand em Octopusgarden.

Creio que “A Filha do Predador” funciona como fecho inusitado, mas pertinente, para a narrativa Octopusgarden em sua versão atual, pois traz o romance para a superfície planetária de Ahapooka, ao mostrar a chegada da quarta expedição científica enviada pela civilização humana de Olduvaii (mais tarde apelidada pelo predador emérito John Smith como “Expedição-Fantasma”) sob os olhos de Clara, uma humana pré-adolescente, nativa desse mundo-zoológico e que, para além de ser a “filha” do título, protagonizará como adulta, cerca de um século mais tarde, meu romance de ficção científica erótica A Guardiã da Memória (Draco, 2011).  Desta forma, Octopusgarden funciona como prequel daquele texto, pela qual tive a honra de receber do Clube de Leitores de Ficção Científica o Prêmio Argos 2012 na categoria Melhor Romance.

Os dois romances — Octopusgarden e A Guardiã da Memória — são narrativas solo e não partes integrantes de uma trilogia ou arco narrativo maior.  Neste sentido, podem ser lidos independentemente um do outro.  No entanto, se o leitor está embarcando agora no universo ficcional Tramas de Ahapooka, fica aqui a sugestão de começar sua exploração galáctica por Octopusgarden.

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Encarnações e reencarnações cefalópodes à parte, afinal, do que trata Octopusgarden?  O romance aborda vários temas.  Em primeiro lugar, a elevação de espécies animais à racionalidade (mais uma apropriação da sacada genial do David Brin para explicar o suposto enigma SETI do Paradoxo de Fermi, também apelidado como “Grande Silêncio”), que rebatizo como “promoção”.  Em segundo lugar, é uma história de exploração e colonização planetária.  No caso, o mundo biótico oceânico que os dolfinos batizaram “Bluegarden”.  Em terceiro lugar, trata-se de uma narrativa de primeiro contato entre os dolfinos e uma civilização alienígena, os octópodes.  Enfim, é a história do conflito que se estabelece como consequência infeliz desse primeiro contato malfeito.  Estes são os temas principais, do ponto de vista dolfino.  Pois, sob a óptica dos inspetores humanos, Bluegarden é apenas uma missão secundária cumprida praticamente às vésperas de a Penny Lane ser enviada a Lobster, conduzindo a terceira expedição de Olduvaii àquele sistema mítico, na esperança de ser bem-sucedida onde as duas anteriores fracassaram.

A verdade é que — por acaso, destino, azar ou carma — nem tudo aconteceu como Pandora, Talleyrand e a Nave planejaram.  Contudo, de qualquer modo, ainda que muito mais tarde, os três acabaram concretizando o sonho de aterrar em Ahapooka, o Mundo-sem-Volta, zoológico de âmbito planetário estabelecido milhões de anos atrás e habitado pelos descendentes dos tripulantes de milhares de naves estelares atraídas para lá.  Tanto é verdade, que os dois olduvaicos reaparecem como personagens secundários em A Guardiã da Memória.

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Tudo revelado até o limite dos spoilers, resta uma dúvida derradeira.

O que aconteceu no planeta Ahapooka (também conhecido, dependendo da cultura humana, alienígena ou poliespecífica que fala, ora como “Skirmish”; “Mundo-Prisão”; “Zoo”; ou, mais amiúde, “Mundo-sem-Volta”) antes da chegada inopinada da Penny Lane?

Para responder esta questão caudalosa seria preciso contar a história da Terceira Expedição do Sistema Gigante de Olduvaii ao Sistema Lobster.  Quer dizer, a história da verdadeira Terceira Expedição, aquela conduzida pela Lucky Man, nave estelar compacta da mesma classe que a Penny Lane.  A saga de Europa e Spartacus, o casal de expedicionários que, com o auxílio de um punhado de amigos, humanos e alienígenas, convocado ao longo do caminho na Banda Ocidental do Grande Continente de Skirmish, exploraram e desvendaram alguns (ou muitos) dos enigmas que assolam o Mundo-sem-Volta.

Justamente para contar essa história seminal — que não sai da minha cabeça há quase quatro décadas e que, afinal, inspirou a criação do U.F. Tramas de Ahapooka — é que estou trabalhando presentemente no último romance da trilogia Mundo-sem-Volta, Párias da Periferia.[3]

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[1].  “Alienígenas Mitológicos” seria publicada em julho de 1991 pela Editora Record no número 15 da Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica, a versão brasileira da famosa revista Asimov’s.  Anos mais tarde, essa noveleta seria republicada em meu primeiro livro solo, a coletânea de ficção curta Outras Histórias… (Editorial Caminho, 1997).

[2].  Também publicada na Outras Histórias…  No que me dizia respeito, “Regresso ao Mundo dos Sonhos” possuía menos elementos “beatlelógicos” do que “Octopusgarden”.  Porém, tratava-se do arbítrio idiossincrático do organizador e, o importante é que haveria uma noveleta de minha autoria na antologia.

[3].  Os romances anteriores (ainda inéditos) são:

Mundo-sem-Volta 1: Atrações do Zoológico; e

Mundo-sem-Volta 2: Magos Humanos.

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