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Samurais x Ninjas: Como escrevi “A Sombra na Cerejeira”

Eu precisava mudar de assunto. Estava tão envolvido, há tantos anos, em um romance problemático, cuja primeira versão tinha saído muito aquém do que eu esperava, e naquele momento eu estava dividido entre a vontade de reescrever tudo ou desistir de vez daquela história. Talvez de escrever até. Eu tinha perdido o tesão. Estava tão imerso numa trama deprimente que nem me dei conta que estava ficando deprimido por conta dela. Devido ao tema espinhoso, talvez, mas não apenas por isso. Incomodava-me que eu não conseguisse contá-la como ela merecia. E, neste excesso de zelo, acabei mimando-a, deixando fazer o que quisesse. Eu tinha perdido o controle, e não sabia como recuperá-lo.

Então, eu precisava mudar de assunto. Sair do pântano modorrento que havia afundado e voltar a experimentar. Criar algo totalmente diferente do que eu vinha fazendo pelos últimos anos. Eu sempre acompanho as chamadas de antologias das editoras pelas redes sociais. Mas sempre que sentia vontade de participar de alguma, aquela vozinha irritante – mas convincente – no canto do cérebro me esbofeteava com culpa. Eu já tinha tão pouco tempo pra escrever, e tinha um livro pra terminar. “Finish your shit”, berrava a caneca de Chuck Wendig. Termina a porcaria do livro, Alexandre.

canecaSamurais X Ninjas, surgiu então a chamada da nova antologia da Draco. Samurais. Ninjas. Com elementos fantásticos. Com uma pegada mais pop. Lembro que parei um tempo pra pensar em pelo menos um clichê com esse tema. Clichê do tipo vampiros com reflexões existencialistas. Inimigo de um clã licantropo. Esse tipo de bobagem. Não encontrei nada (não sou grande consumidor de mangás e animês, confesso). Tentei bolar uma premissa. Nada. Eu curto a estética minimalista japonesa, o lance cultural dos samurais e seu código de honra. Sabia um pouco da história do final do período feudal do Japão, mas precisava estudar mais sobre o bushido e o mito dos ninjas e…

Quem eu estava enganando? Eu estava escorregando de novo para a ladeira do exagero de pesquisa. Era o caminho errado. Eu precisava pensar em algo diferente. Do jeito que eu gosto de fazer. Subverter esse tema. Desconstruí-lo. Jogar tudo pro espaço e juntar em gravidade zero. Surpreender.

E então eu soube que havia embarcado nessa jornada. Amarrei as sandálias, prendi firme a espada nas costas e embarquei na espaçonave.

Lá no fundo eu sabia sobre o que eu queria escrever. Era sobre a crueldade humana, da capacidade que temos de inventar e construir maravilhas tecnológicas, apenas para logo em seguida usá-las para a destruição. Uma história sobre colonialismo, perseverança contra as pirores diversidades, e uma vitória amarga. Samurais, ninjas… No espaço! Não, em uma colônia humana em um planeta em processo final de terraformação. Melhor. Os samurais renasceriam por uma necessidade de sobrevivência dos colonos. Que estavam sendo dizimados por criaturas alienígenas assassinas. Predadores perfeitos, que agiam nas sombras, rápidos e silenciosos como a brisa noturna. Ninjas.

shinobita

Eu precisava tomar cuidado. O risco de virar um pastiche pulp era muito grande. Na época eu estava relendo “Grande Sertão: Veredas” (inspirado pela leitura da novela “Os Carangonços de Riobaldo”, do Antonio Luiz M. C. Costa, publicado aqui pela Draco, e que resenhei em meu blog), e decidi que iria fazer o meu texto naquele estilo. Uma história contada muitos anos depois, como um “causo”, que mostraria a vitória humana em um novo mundo, mas que na verdade…

Não vou contar o conto. Você vai ter que ler.

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Premissa e tema. Um princípio de trama. Personagens. Eu precisava de personagens. Eu precisava de um coronel com um sotaque meio caipira, meio mafioso. Que contaria a lenda de samurais e ninjas para um repórter e…

Olha eu caindo no óbvio confortável de homem branco cisgênero e hetero de novo. O repórter seria uma mulher. E não seria uma repórter coisa nenhuma. Seria uma cientista. Por quê? Porque sim. Por que não? Ela seria um lampejo de razão em meio a uma destruição cega e irresponsável, tão masculina, representada pelo Coronel, e ilustrada pela luta dos samurais e dos ninjas alienígenas. Mas “ninjas alienígenas” era uma denominação terrível. Eu precisava de uma melhor. Escolhi misturar a outra palavra japonesa vinculada aos ninjas, shinobi, com os demônios cenobitas de Hellraiser de Clive Barker. Nasceram assim os shinobitas.

O resto acabou se construindo quase sozinho. Não escapei de fazer uma boa pesquisa, é claro, mas eu sabia o que precisava buscar, e podia me controlar. Brinquei, experimentei, criei. Sonhei com a história algumas vezes, pois ia dormir pensando nela todas as noites. Eu estava empolgado novamente. Foram necessárias algumas poucas modificações depois da leitura crítica da Olivia Maia e de minha companheira Amanda, mais para ajustes de coerência e acerto do terceiro ato. Quando finalmente o dei por terminado, fiquei muito satisfeito com o resultado. Como há muito tempo não me sentia. Eu tinha provado a mim mesmo que ainda conseguia, que poderia empreender essa jornada. Apenas por conta disso, Eduardo Kasse e Erick Sama têm minha eterna gratidão.

E foi assim que “A Sombra na Cerejeira” surgiu.

E eu ressurgi. Foi uma experiência revigorante. Depois dela fui capaz de retornar ao livro-nêmesis e enfrentá-lo com novo vigor. Ainda é uma batalha em progresso, mas novamente tenho forças para realizá-lo da maneira como ele merece. Com paciência, perseverança e precisão.

Tal qual um verdadeiro samurai.

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