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O bonito e o amedrontador

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A escritora e jornalista Clara Madrigano  – escritora e jornalista, finalista premiada pelo concurso de roteiros do produtor da BBC John Yorke, além de ser alérgica a gatos (ela quer que todos saibam) – nos contou mais sobre as suas histórias publicadas nos Contos do Dragão.

Vamos lá!

Especial Natalino

Porque o que é belo também pode nos dar medo; às vezes. Foi com isso em mente que concebi minha primeira novela, “Especial Natalino,” usando como pano de fundo aquela que sempre foi minha comemoração predileta do ano: o Natal. Não em honra ao nascimento de alguém, mas porque havia comida aos montes nas mesas e brinquedos que me esperavam debaixo da árvore. Natal sempre me passou uma ideia cálida: Natal me foi vendido pela Coca-Cola e por incontáveis filmes em que animais ou crianças salvavam a véspera. Natal era neve, mesmo no calor infernal de onde quer que eu estivesse, Rio, São Paulo ou Blumenau. Era chocolate quente e biscoitos. Só não era peru e presunto: porque não gosto de peru e nem de presunto.

“Especial Natalino” não é apenas sobre o Natal (é claro). É também sobre família, um dos pontos mais alto ou baixo de qualquer celebração de fim de ano. É sobre três irmãos e suas conexões e decepções e lealdades.

Enquanto seus irmão falavam, Cheryl observava o céu claro. Sentiu algo escalar suas pernas: um inseto. Deu um tapa na própria pele sem pensar muito a respeito, e quando ergueu a mão viu os restos de um mosquito, as asas amassadas, as pernas arrancadas e o sangue, sangue que não sabia se era dela (torceu para não ser). Ela limpou a mão na grama, fazendo uma careta de nojo. Poderia andar até o lago e lavar as mãos, sentia e necessidade daquilo, mas sentia também uma preguiça gigantesca, o calor e a barriga pesada. Haviam acabado de voltar da Miss Mabel’s Wonderful Pies. Brooke levara-os até lá, em seu novo carro, um usado que conseguira arrancar de um ferro-velho com desconto. O carro balançava e fazia um barulho curioso, como se alguma peça estivesse solta, mas Cheryl não quis comentar nada, disposta a não estragar o momento. Brooke estava indo embora, para a faculdade. Eram os últimos momentos que passavam juntos. Na Miss Mabel’s, Cheryl comera torta de chocolate, tomara milk-shake de Oreos, tudo por conta de Brooke. Agora sentia-se pesada, achando que consumira mais do que uma garota de oito anos conseguia suportar. Colocava a mão na barriga e resmungava.

É fácil enxergar as coisas boas dos momentos que supostamente seriam bons. É igualmente fácil imaginar o que poderia dar errado neles; e são tantas opções. Eu me arranjei com aquela que mais me agradava. Não era para ser uma história feliz, algo que a novela te conta. Mas era para ser uma história significativa; sobre o terror que cai sobre as pessoas, sim, mas também sobre as pessoas em si, e as pequenas crueldades que podemos fazer um com o outro, sem que monstros sejam necessários.

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A toca das fadas (que não são boas)

Monstros infestam minha imaginação. Eu os enxergo até nas figuras mais inofensivas: uma fada, por exemplo. Garotas se fantasiam de fadas e fadas concedem desejos e guiam princesas a seus príncipes. Supostamente. Mas fadas também podem ser gananciosas; podem levar seus dentes embora, ou seus cabelos, ou o que quer que queiram. Fadas podem iludir criancinhas e levá-las para o outro lado. O changeling: a famosa lenda do bebê que é substituído pela cria de uma fada. Existe um potencial amedrontador em criaturas que podem parecer meigas, porque é de onde menos se espera ameaça.

Nós enchemos um pote de mel na cozinha, em silêncio de dois conspiradores. Nós levamos o mel para as fadas, nós o colocamos em uma pequena caixa de madeira e esperamos que a nossa presa viesse. Mas ela nunca veio.

 

Jack ficou bravo.

 

Muito bravo.

 

— Acho que elas sabem — eu disse, mas não escutei resposta nenhuma de Jack, só sua respiração.

Escrevi “A toca da fadas” (que você pode baixar de graça) por essa razão: por nunca ter confiado em fadas, ou duendes e gnomos, ou qualquer ser mágico que faça promessas demais. Há sempre um preço não mencionado atrás dos favores desses coadjuvantes de contos e de mitologia. Seu primogênito; sua voz; ou seu irmão. Há sempre algo de amedrontador naquilo que nos parece belo.

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