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Depois do Fim: Escrevendo “O Dono do Cinturão Caminha entre Gigantes”, Cirilo S. Lemos

luchador

O campeão está tonto, a torcida está enlouquecida, o árbitro de repente está sobre ele, impedindo-o de continuar a martelar o homem caído, acabou, acabou, Demolidor Jr. venceu, o Pesadelo está acabado. As energias se renovam sabe-se lá como, ele salta sobre a grade, acena para a plateia que veio vê-lo lutar contra outro homem bom, alguém que não vai ter Amparo. O corner está ali, comemorando junto com ele, treinadores de boxe, jiu-jitsu, wrestling, tudo, o cinturão dourado e prateado da Liga Definitiva Oeste é preso à sua cintura, seu braço é erguido.

 

O mundo inteiro volta a se mover em ritmo normal para Tito Nogueira, o Demolidor Jr, quando ele sai da arena onde é rei.

 

Nas velhas gravações de vídeo, guardadas como um tesouro, essa parte costumava ser diferente. O corredor era eterno, formado por pequenas explosões de som e imagem. Em cada uma delas, centenas de rostos tomados pelo frenesi, centenas de braços se agitando, serpentes alimentadas pelo álcool e pela euforia, tentando tocar, sentir, tomar um boné, um gorro, um toque de punho, qualquer coisa que servisse de lembrança do momento em que, tal qual um Moisés a atravessar o mar fendido, o campeão percorria a trilha no meio da multidão, deixando para trás a jaula onde derramara seu sangue e seu suor em sacrifício ao deus do espetáculo.

 

Mas isso fora antes. Hoje Demolidor Jr., portador do cinturão, caminha por um ginásio empoeirado e imerso no fedor de urina, iluminado por um holofote pequeno. A plateia, que antes chegava aos milhares, agora mal passa de duas ou três centenas de indivíduos espremidos nas arquibancadas do que fora uma quadra escolar. Eles gritaram, aplaudiram, vaiaram; os ecos se espalharam pelo espaço, reverberando pelo encanamento gotejante, ricocheteando nos ladrilhos, transformando a quadra no palco do maior combate que o Arquipélago já viu.

O apocalipse maia estava ameaçando nossa existência quando recebi o convite de Eric Novello para participar da coletânea Depois do Fim. A ideia era um livro cheio de histórias sobre a vida das pessoas depois que o mundo acaba. Eu disse “sim” imediatamente, porque não se deve dizer “não” a um cara que mexe com exorcismos e blues, e fui esboçar um conto. Aprendi uma lição.

O fim do mundo não é fácil de nenhuma maneira que a gente tente enxergá-lo.

Não tanto pelos prédios desabando sobre sua cabeça (bom, isso também), mas porque o mundo — nosso mundo — vai muito além da paisagem ao nosso redor. Ele é feito das pessoas que amamos, das coisas que gostamos, da vida que levamos. É possível ver o fim do mundo várias vezes na vida sem que uma única torre caia ou meteoro rasgue o céu.

O Dono do Cinturão caminha entre Gigantes é sobre isso. Muitas vezes perder o que torna você você pode ser muito mais doloroso que os continentes se partindo ou a realidade se apagando. O que se deixa para trás conta. É isso que sente Demolidor Jr., um luchador mascarado ganhando a vida em Arquipélago, a realidade consensual B construída depois que alguma coisa destruiu a original. Apesar dos mutantes geneticamente alterados, guerras contra seres extradimensionais e máscaras coloridas, esta é uma história sobre perder outro tipo de mundo.

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0 Comments

  1. @CiriloSL disse:

    Obrigado por ter lido e pensado sobre o conto. Fico feliz, e você levantou uma questão interessante. É um conto que lida com poucos personagens num espaço limitado, e eles não são pessoas muito boas. Eram homens que tratavam as mulheres como mercadoria. Inclusive o Demolidor Jr é um sujeito meio egoísta. A história segue o ponto de vista dele, e aparece as opiniões dele naquele contexto. Mas aproveitando o ensejo, já que gostou do conto, talvez você goste de En-hedu-ana, a protagonista de outro conto saindo agora (Space Opera 3).

  2. Luciana Martins disse:

    Adorei este conto. Gostei de toda a idéia de realidades destruídas serem substituídas por realidades criadas. O lance de não haver mais sonhos também foi uma ótima sacada.
    Gostei muito da relação entre Demolidor Jr e seu companheiro. Muito sensível e bonito. Idéias muito criativas e bem amarradas! Parabéns ao autor!

    Só teve uma coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha…

    Pq com todos os personagens homens odiosos que cercam demolidor jr, ele se lembra de dar nomes feios apenas às mulheres? Não que essas personagens tenham alguma importância no conto (não tem nenhuma) mas mesmo assim, só aparecem em conjunto com adjetivos como puta, vadia e vagabunda. Õ_Ó
    Então, me senti meio mal, com personagens femininas inexpressivas, e que só aparecem para serem xingadas e julgadas.

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