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Conheça a Alice e seus olhos de vidro sem sonhos, do livro “Ball Jointed Alice”

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Minha história com a escrita se iniciou com o teatro. O primeiro texto que fiz foi uma pecinha na escola aos sete anos de idade – com direito a figurino de papel crepom e tudo – e, mais tarde, aos 17, fundei com meu melhor amigo uma companhia que atuou por dez anos. Foi nela que meus experimentos com a dramaturgia tiveram espaço, inclusive aquele que mais tarde inspiraria Ball Jointed Alice (mas isso é assunto para outro parágrafo). Em 2010, levei minha paixão pelo gênero dramático para a sétima arte: inscrevi-me no curso de Roteiro da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, o qual concluí no ano seguinte. Entre montagens e curtas-metragens, desenvolveu-se também meu amor pela narrativa e pela poesia. Nessa mesma época, finalizei meu primeiro romance, Conto Noturno da Princesa Borboleta, que ficou entre os seis finalistas do Prêmio SESC de Literatura 2011/2012; e passei a publicar meus textos no blog Alada – o qual seria a futura “casa” de BJA.

Sou uma pessoa cismada com nomes. Quando comecei a escrever Ball Jointed Alice, tudo que eu tinha era um protagonista punk chamado Frank e uma boneca de junta de bola (a famosa BJD) que atendia por Alice. Frank acordava com ressaca, obviamente, e esse era o início da história. Os nomes, sempre eles, ricocheteavam na minha cabeça, assim como as vozes ouvidas nas alucinações da louquinha que Frank conheceu quando viveu em um sanatório.

A louquinha, também chamada Alice, existia dentro de mim fazia tempo. Foi a protagonista de uma peça que escrevi em 2009, montada pela companhia de teatro da qual eu fazia parte, intitulada “Alice – a síndrome”. Tratava-se da minha versão para a narrativa de Lewis Carroll, na qual Alice era uma jovem com distúrbios mentais internada em um hospício, e que enxergava o ambiente degradante onde vivia como um sombrio “País das Maravilhas”. Assim como Frank, nunca superei Alice. Tive que esculpi-la novamente, na forma de uma BJD, e recriar sua história a partir da perspectiva do mais lúcido entre os loucos: o Gato de Cheshire, ou seja, Frank. Uma perspectiva pervertida, cruel, sangrenta e romântica; porém tão nítida que contrapõe a obscuridade dos olhos de vidro e sem sonhos da boneca Alice.

O primeiro capítulo foi publicado sem grandes pretensões no meu blog, Alada, e em alguns sites de fanfiction (Frank é inspirado no guitarrista da banda My Chemical Romance, Frank Iero). Lembro que na época, início de 2011, eu estava no último período do curso de roteiro cinematográfico, o que influenciou bastante no desenvolvimento de BJA. Só sentava para escrever quando as imagens, mesmo as mais irreais e insanas, tornavam-se claras e bem enquadradas na minha tela mental. Logo BJA ganhou leitores dispostos a embarcar na loucura de Frank e seus companheiros de manicômio, a “refazer o caminho” junto com ele, a prantear uma louquinha com a garganta cortada. A história ganhava substância à medida que era contada – ao longo de quase dois anos – e tantos outros nomes se juntavam aos de Frank e Alice.

BJA é uma história sobre lembranças, disfarçada em uma trama de vingança, morte, amor e sexo. É, acima de tudo, sobre a única maneira de combater os fantasmas do passado: a criação. Confesso que quando comecei a escrever, não sabia ao certo para onde estava indo. Mas as lembranças – as de Frank – me mostraram o caminho. Confira abaixo uma breve sinopse do livro, que será lançado pela Editora Draco.

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RE  A  LI  DA  DE.

 

Eis uma palavra maravilhosa inventada por algum retardado que queria foder com a vida dos outros. Não sei por que, nunca fui um admirador da realidade. Eu sequer acreditava que ela existia, havia nomeado meu status quo de universo inconsistente. No meu entorpecimento, ou eu estava doidão ou tendo um orgasmo, qualquer palavra perdia o sentido. Qualquer sentimento também. Mas sim, eu amei Alice. Sem nunca ter tocado nela. Só que Alice morreu. E, por isso, essa história existe.

 

(Ball Jointed Alice)

Quando Frank acorda de ressaca depois de mais uma noitada, ouve uma boneca lhe dar bom dia. É Alice, a ball jointed doll (boneca de junta de bola), esculpida por ele à imagem e semelhança da louquinha de mesmo nome que Frank um dia amou. O cumprimento de Alice é como um chamado de volta para a insanidade experimentada por ele no passado.

Frank então reencontra os antigos companheiros do sanatório de onde fugiu, anos antes: a gothic lolita com distúrbios alimentares Tay, o mestiço que faz o tipo “cara comum” Shin e a determinada sociopata Emi. Comprometidos com um sangrento plano de vingança, eles precisam retornar ao hospital psiquiátrico que lhes massacrou a alma e conduziu Alice ao suicídio, a fim de se despojarem dos últimos traços de humanidade que lhes restaram. Frank se vê novamente na pele do alterego atribuído a ele pela louca Alice, e precisa enfrentar os monstros de seu passado que habitam aquele País das Maravilhas às avessas.

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Tentando enxergar o mundo através dos olhos de vidro e sem sonhos daquela que é o simulacro de sua tragédia, a boneca Alice, Frank percorre uma estrada de lembranças: desde sua traumática infância, passando pela adolescência desvairada, atingindo a insensata idade adulta e sua transformação no Gato de Cheshire para quem “com certeza se chega a algum lugar, desde que se caminhe bastante”. Alice é sua caminhada ininterrupta.

Ball Jointed Alice é uma história que mistura insanidade e fantasia, sem se deixar abandonar pela brutal realidade. Fala sobre a dor das experiências que nos cortam ao meio, nos dividem em dois. Fala, também e principalmente, sobre a morte. Sobre toda a violência, o egoísmo, o amor e o sexo que envolvem a morte. Ball Jointed Alice é uma fábula de destruição e criação.

0 Comments

  1. Ganroe disse:

    Meio mórbido mas criativo. Dá para perceber que é de fato uma obra feita com sentimento.

  2. Carlos Dente disse:

    Muuuuuuuuuuuuuuuito interessante…

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