Imaginários em Quadrinhos – volume 4 – resultados para a coletânea
setembro 7, 2014
Depois do fim: Escrevendo “O último gole de cerveja”, Eduardo Kasse
setembro 23, 2014

Depois do fim: Escrevendo “Sangue Santo”, Marcelo A. Galvão

cidade-morta

Um grasnido soou acima das árvores. Um urubu planou entre as copas, as asas enormes estendidas, pronto para se fartar no banquete ali embaixo. Guel olhou para os outros cadáveres: nenhum deles levava qualquer objeto valioso como o anel do padre. Em comum, tinham as marcas da morte violenta que se aplacara sobre o grupo – talhos que rasgavam os torsos, dedos decepados e feridas nos antebraços -, sinais típicos de quem tenta se defender dos atacantes.

 

Atacantes como virabichos.

 

A mata na outra margem se mexeu: algo vinha na direção da encruzilhada.

 

Guel engoliu em seco. Com um pulo, se embrenhou entre os arbustos ao lado. De onde estava, conseguiu ver duas figuras grandes saírem para a estrada. Pelo tamanho, não havia dúvida de que eram virabichos. Em silêncio e sem tirar os olhos da encruzilhada, Guel retrocedeu ainda mais no bosque, afastando-se dos monstros passo a passo, o ar ao redor tão frio quanto o seu estômago tomado pelo medo de pisar em algum graveto seco e denunciar sua posição. Quando decidiu que já estava longe o bastante, ele se virou para correr.

 

E se deparou com um virabicho acocorado contra o tronco grosso de uma paineira.

Ficção pós-apocalíptica é um gênero que me atrai há tempos. Talvez este fascínio tenha origem por ter crescido nos anos 1980 e presenciado a Guerra Fria entre EUA e URSS – o finalzinho dela, é verdade, mas não havia jeito de saber na época, não quando a mídia propagava notícias alarmistas (li numa Manchete – alguém ainda se lembra dessa revista? – informando que, no caso de um ataque nuclear, o metrô da Sé serviria como abrigo para quem chegasse a tempo lá, o que não adiantava muito para quem morava no interior, como era meu caso). Isso sem contar filmes como O Dia Seguinte (que traumatizou muita gente mundo afora) ou de um episódio da segunda versão da série Além da Imaginação (até hoje não esqueço a cena final).

Por isto que gostei logo de cara do tema da antologia, que pode ser resumido na pergunta “o que acontece depois do fim?”. Quando recebi o convite do Eric Novello (por coincidência, eu jogava Fallout 3, um dos meus games favoritos e que tem um cenário pós-apocalíptico após um conflito nuclear), meu primeiro pensamento foi escrever uma história que envolvesse sobreviventes de uma guerra atômica… mas o problema é que estamos praticamente no meio da segunda década do século XXI e o zeitgeist é outro, bem como os candidatos para começar um apocalipse: aquecimento global, impacto de meteoros, supervulcões e – o queridinho do mês – uma tempestade solar que, se igual ao “Evento de Carrington”, vai fritar toda a tecnologia da Terra.

Além disso, explorar um cenário estrangeiro (como boa parte das histórias do gênero) não me apetecia na época. Foi então que resolvi escrever em um que conheço, no caso, o Brasil – para ser mais preciso, São Paulo.

Ou o que restou das terras paulistas, revertidas ao estado selvagem após um cataclismo mundial. Um lugar reivindicado por poderosos senhores de terra, assombrado por superstição, seitas místicas e estranhas criaturas conhecidas como virabichos. Onde a lei e ordem são meras lembranças.

E assim nasceu Sangue Santo, um conto no qual Guel Chorasangue, o personagem principal, tenta sobreviver ao caos do dia a dia, sem saber que o fim do mundo está próximo… mais uma vez. Esta foi uma história que gostei muito de escrever, tanto pelo worldbuilding envolvido quanto pela possibilidade de explorar esse aterrorizante mundo novo.

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0 Comentários

  1. Priscila disse:

    * Comprei o livro ontem

  2. Priscila disse:

    Comprei o livro antes e já comecei a ler um pouquinho. Muito bom! <3

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