Futebol: Escrevendo “O Último Jogo: Crianças e Bichos Papões”, Rodrigo van Kampen
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Futebol: Escrevendo “Nos gramados em cinzas da Arena do Abismo”, Marco Rigobelli
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Futebol: Escrevendo “Jogo puro”, Diego Matioli

­Tudo encenação ­ a voz melodiosa lhe pegou de surpresa. Quando olhou para o lado, se deparou com Beatriz Hatch, como que saída do pôster do seu quarto. Perfeita demais para uma mulher de quase quarenta anos. ­ Eles nem conseguem ficar bêbados de verdade.

 

Uma profusão de perguntas surgiu na mente do rapaz, mas a afirmação dela lhe instigara:

 

­Por que não?

 

­Chame do que quiser, depois que eles te sugam só resta a consciência dentro de uma casca vazia. É como assistir sua própria vida de uma vitrine na rua.

 

­Mas… ­ Jefferson acabara de cair de quatro no meio da pista de dança. ­ Se eles são assim, por que fingem? Ainda mais uns com os outros.

 

­Escolher o que a vitrine mostra é a única diversão que sobrou.

disputa

Quando comecei a trabalhar em “Jogo Puro”, era uma história totalmente diferente. Se chamava “O Rei da rua” e tratava do mesmo Reinaldo que protagoniza a história final, mas ainda na adolescência, obcecado pelo campeonato interclasses da sua escola. A inspiração veio da minha experiência dando aulas em uma escola de um bairro periférico da cidade em que eu moro, um lugar em que o futebol é realmente a única luz na vida de alguns. Através do fogo nos olhos de meus alunos, aprendi a respeitar esse jogo que, logo entendi, servia de contraponto às calamidades da vida privada deles.

Eu de fato tive alguns alunos que jogam profissionalmente em times pequenos, mas são a franca minoria em contrapartida as dúzias de fanáticos que ambicionavam se tornar o próximo Neymar. Esse fato me intrigou profundamente. Afinal, como alguém vira jogador de futebol? E o que acontece com alguém que dedica a vida a isso mas não vai para a copa? Ser um bom jogador pode lhe garantir status na escola, mas o que sobra quando acaba o terceiro ano do ensino médio? “O Rei da rua” tinha como objetivo explorar essas questões – e incluir evocações satânicas e outras coisinhas mais no processo.

Embora esses ainda sejam assuntos com os quais quero flertar um dia, um adolescente que não sabe o que quer da vida não me pareceu uma premissa tão atraente pro momento e a ideia de vender a alma pelo sucesso soava demasiada moralista. Então eu comecei a acrescentar “e se..”s na minha história e ver onde isso me levava: “e se ele já tivesse alcançado o sucesso e continuasse não sabendo direito o que quer?”, “E se vender a alma fosse algo público e não conclusivamente ruim?”, “E se as já tênues linhas entre religião e futebol fossem fragilizadas?”.

Futebol: história fantásticas de glória, paixão e vitórias é uma antologia sobre esse jogo que é paixão nacional, mas do que se fala quando se fala de futebol? Quando se escolhe dedicar a vida ao esporte, ou a qualquer outra coisa, paga-se com dúvidas, das que assombram para o resto da vida. Não são as resoluções que me importam, no entanto, mas o caminho até elas. Reinaldo vive uma ansiedade comum: o medo fazer as escolhas erradas e se arrepender depois. Isso pode estagnar qualquer um, mas a verdade é que cedo ou tarde somos empurrados para a beira do penhasco e forçados a decidir se pulamos ou não. “Jogo Puro” é isso, o desfiladeiro emocional de um jovem adulto tentando entender seu lugar no mundo entre um jogo e outro.

Essas ansiedades são parte da minha vida, e creio que da vida de muitos outros. Quase tão comum quanto a paixão por futebol, praticamente.

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