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Bate papo com Zé Wellington sobre a HQ "Quem Matou João Ninguém?"

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O Raphael Fernandes, editor de quadrinhos da Draco – e de uma série de outros projetos legais -, conversou com o Zé Wellington sobre a graphic novel criada por ele e por Wagner Nogueira, e ilustrada por Wagner de Souza, Cloves Rodrigues, Ed Silva, Alex Lei e Rob Lean.

Vamos lá?

Qual foi o processo de criação de “Quem Matou João Ninguém?”?

Longo, demorado e cheio de percalços. Ou seja: dentro dos padrões de qualquer história em quadrinhos nacional. Em 2005 conheci o Wagner Nogueira num evento. Algumas semanas depois ele me ligou apresentando um personagem que ele tinha criado e algumas sequencias de roteiro que ele tinha imaginado. A ideia era que eu completasse a história e trabalhasse o roteiro para que ele pudesse desenhar. Trabalhei nos conceitos dele e mandei de volta. Ele simplesmente ODIOU e mandou um e-mail dizendo que eu tinha entendido errado a proposta. Eu e ele nos afastamos do projeto depois disso. Retomamos tudo em 2009 ou 2010, depois que ele me ligou dizendo que queria muito fazer esta história. Alinhamos os conceitos e em 2011 tínhamos a primeira versão do roteiro. Coincidentemente a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará abriu seu Edital de Incentivo às Artes neste período e resolvemos tentar inscrever o projeto. Foi uma surpresa grande termos sido selecionados, afinal nunca tínhamos ganhado nenhuma seleção do tipo. Infelizmente, por conta de burocracia, só recebemos os recursos em 2013 (dois anos depois) e o Wagner não tinha mais disponibilidade para desenhar por conta de outros trabalhos. Tivemos então que recorrer aos desenhistas Wagner de Souza, Cloves Rodrigues e Ed Silva, este último contando com o apoio do Alex Lei e do Ed Silva na artefinal. Mesmo com o prazo apertado os caras entregaram um trabalho de altíssimo nível. Com relação à escolha da editora, quando fui selecionado para o primeiro volume da Imaginários em Quadrinhos, o Erick Sama já tinha deixado aberta a porta para publicar outros trabalhos com a Draco. Eu não conhecia casa melhor no Brasil para esta história.

Podemos considerar seu personagem um super-herói brasileiro?

A maior parte dos super-heróis brasileiros segue os estereótipos norte-americanos. E isso nem sempre é ruim. Conheço um punhado de autores que conseguem fazer este tipo de história funcionar, como o Rafael Tavares, o Lorde Lobo e muitos outros. Mas aqueles que imaginarem Quem Matou João Ninguém? como uma história de super-heróis podem se decepcionar. Na primeira vez que o Wagner me falou do projeto, ele realmente se tratava de uma história do gênero, mas, conforme fomos trabalhando nos detalhes, o foco começou a sair do herói. No final nos pareceu mais interessante falar sobre a relação de amizade (e traição) entre quatro garotos que vivem sempre na iminência do contato com o tráfico de drogas. A riqueza de cenários e personagens de uma comunidade pobre tipicamente brasileira se sobressaiu a qualquer estereótipo. Mesmo assim, leitores de quadrinhos de super-heróis vão poder curtir de uma forma diferente o álbum, que é cheio de easter eggs, já que o personagem principal é fã deste tipo de história.

Conte-nos como foi a seleção dos desenhistas para o projeto.

O primeiro desenhista convidado foi o Cloves Rodrigues. Na época em que fui editor de quadrinhos de uma editora cearense me deparei com o trabalho dele. Infelizmente a editora acabou antes que eu pudesse publicá-lo. Me senti na obrigação de convidá-lo para este projeto como forma de compensá-lo e também para que mais pessoas conhecessem a arte incrível dele. Já o Wagner de Souza foi um amigo que fiz na época do fórum da Central de Quadrinhos. Nos adicionamos no Facebook e eu ficava só paquerando a arte dele em outros projetos e aguardando o projeto ideal para convidá-lo. O Ed Silva foi uma indicação do Alex Lei, quando mandamos um e-mail para ele pedindo uma indicação. O Ed enviou uns testes e achamos legal essa pegada meio “mangá brasileiro” do traço dele para um segmento específico da HQ.

Você acredita que existe alguma dificuldade em fazer quadrinhos fora do sudeste brasileiro?

Em 2011, quando cheguei no meu primeiro FIQ, considerado o maior evento de quadrinhos do Brasil, uma das coisas que me chamou a atenção foi a integração entre os artistas presentes, a maioria deles do sudeste ou do sul do país. Eles conversavam como já se conhecessem há muito tempo. Mesmo os artistas nordestinos mais conhecidos demoraram um pouco para se aclimatar. Muito se fala de internet e de como ela aproxima o artista de qualquer público do mundo. Eu concordo em parte, mas estar fora do eixo Sul-Sudeste é um complicador, já que a maioria das editoras e eventos estão bem distantes de nós. E se tem algo que aprendi nesse tempo de quadrinhos é que não existe nada como contato cara a cara.

O que nossos leitores podem esperar desse álbum?

Uma história autoral, acima de tudo, mas com algum “fan service”. Ao mesmo tempo em que nos preocupamos em criar pontos de reflexão na história, eu e Wagner gostamos de uma boa história de ação. Mas não bastava ser um John Woo, tinha que ser pelo menos um Guy Ritchie, saca?

Quais são suas maiores influências literárias?

Eu particularmente gosto muito do trabalho do Rubem Fonseca. É a pegada que eu tento imprimir nos meus textos. Gosto muito também da forma como os textos do Machado de Assis dialogam com o leitor (tem um pouco disso em Quem Matou João Ninguém?). O rei Stephen King também é referência. Gosto ainda do trabalho em prosa e quadrinhos do Neil Gaiman. E se eu for citar quadrinistas a lista vai ficar mais extensa, com nomes como Grant Morrison, Mark Millar, Robert Kirkman e Garth Ennis, mas sempre encabeçados pelo mago supremo Alan Moore. Um outro autor de qual eu não me distancio é o Charlie Kauffman, roteirista de filmes como Quero Ser John Malkovich e Adaptação.

Já está pensando em qual será a próxima HQ?

Entre os vários projetos que tenho em andamento, dois devem ficar prontos no curto prazo. O primeiro é NovaHope, uma ficção científica influenciada por Isaac Asimov, atualmente sendo publicada semanalmente no site Cultura de Quadrinhos. O outro é um faroeste steampunk chamado provisoriamente de Steam Ladies, onde estou descarregando todas as minhas referências de cinema western (que também usei em Quem Matou João Ninguém?). Há ainda em fase bem inicial uma história que mistura cangaço e ficção científica e uma distopia que usa elementos do futebol. O que disso vai virar realidade, só o tempo dirá. E os desenhistas que me acompanham nessas jornadas.

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Raphael Fernandes
Raphael Fernandes
é o editor de quadrinhos da Draco.

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