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Terra Morta – relatos de sobrevivência a um apocalipse zumbi: Escrevendo “A obsessão de Vitória”, Tiago Toy
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Terra Morta – relatos de sobrevivência a um apocalipse zumbi: Escrevendo “Pra fazer sabão é que não é”, Tiago Toy

Ela continuava estirada na cozinha. Sua respiração saía pesada. O roupão de seda cor de marfim estava manchado de sangue, cuspido pelo padrasto. Examinou-a artificialmente e não viu ferimentos. Graças a Buda! Apoiando sua cabeça na perna, Ricardo a chamou, sussurrando. Devagar, ela abriu os olhos. Havia algo errado com eles. Ao redor da esclera os vasos sanguíneos estouraram, dando um desconfortável tom avermelhado ao olhar. Chamou-a novamente, perguntando se ela se sentia bem, e afastou os longos cabelos negros, descobrindo o ombro. Uma dentada fora prensada ali. Ricardo estacou. Imóvel, a assistiu se levantar com dificuldade, a respiração custosa. De costas, ela permaneceu sentada no chão, alheia ao filho à beira de um colapso logo atrás. Ricardo alcançou o cepo e o trouxe para si.

 

— Desculpa — disse.

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Ricardo é aquele personagem que surge na história e faz o leitor se perguntar: “Como esse pentelho sobreviveu por tanto tempo sozinho?”. Encontrando Tiago e Daniela no penúltimo dia dos sobreviventes na cidade de Jaboticabal (Terra Morta: Fuga), o japinha é/era o otaku que trazia um pouco de equilíbrio na tensa relação do pequeno grupo.

Ricardo foi inserido na história lá pelo final de 2008, e eu não pretendia muito com ele, mas uma de suas escolhas foi fundamental para um desenlace que permitiu a fuga dos personagens e a quebra do gelo entre ele e Daniela. Nunca o vi como um otaku, no sentido claro da palavra, mas os leitores o pintaram assim pelas descrições dadas, como gostar de J-Pop e todas aquelas parafernálias orientais — além de ser japonês. Fisicamente foi inspirado em um menino que eu sempre via na faculdade na época, bastante popular e com pinta de riquinho.

Não me lembro de já terem questionado diretamente a pergunta acima, sobre como ele conseguiu sobreviver, mas é uma incógnita que eu mesmo me perguntava. Sim, eu criei a história e os personagens, mas nem por isso sei de tudo o que se esconde no passado ou que está reservado no futuro de cada um deles. Cada autor funciona de um jeito.

Como planejava ter pelo menos um conto com um dos personagens principais de TM: Fuga, vi nesta incógnita uma ótima oportunidade. Não somente contar como ele cuidou de si mesmo, mas como cuidou de sua mãe, a “moradora do porão”, quais motivos o levaram a tomar sua última decisão, e como a executou. Quem lê TM: Fuga e não conhece todos os detalhes por trás dos “bastidores” pode pensar que houve ali um grande buraco, mas que, ao ler “Pra fazer sabão é que não é”, vai repensar esta opinião.

O conto é um presente aos leitores mais saudosistas, levando-os de volta à origem do incidente, Jaboticabal, e mostrando algumas cenas da história original por outro ponto de vista. Permitiu-me também trabalhar o personagem mais profundamente, o que senti falta em TM: Fuga, onde ele parecia apenas um menino comum. Inicialmente o é: gosta de passar horas jogando Counter Strike (esta paixão me inspirei em meu irmão, que, quando tinha a mesma idade de Ricardo, adorava jogos de computador), é inocente e está enjoado da culinária extremamente adocicada da mãe. O que o faz mudar é a dramática experiência pela qual é obrigado a passar: após sua mãe ser infectada pelo padrasto, e o menino não encontrar alternativa senão enfrentá-lo em um desfecho mortal, Ricardo decide mantê-la no porão até que alguém traga a cura.

Por incontáveis vezes li comentários de pirralhos em fóruns virtuais dizendo em Caps Lock que, caso o apocalipse zumbi realmente acontecesse, não pensariam duas vezes e sairiam metendo bala na cabeça de todo mundo. Pobres, pois não devem raciocinar que, em meio à fedorenta massa de canibais, estão seus entes queridos, até mesmo suas mães. Honestamente, eu não teria coragem nem em um milhão de anos de matar minha mãe caso ela fosse infectada. A escolha de Ricardo é a minha escolha. Aposto que é a escolha de muitos.

Outra realidade é aceitar que nem todos teriam bolas para matar. Zumbis em filmes, jogos e livros são uma coisa; na vida real é (seria) bem diferente. Um dos pontos que gosto de cutucar nos meus escritos é este, tanto que Tiago, o protagonista de Terra Morta, dificilmente enfrenta os infectados cara a cara, exceto quando não há alternativa. Por isso — e estamos falando de um menino —, após concluir que a mãe não se interessa mais pelos mesmos alimentos de antes, e preocupado que ela fique doente (!), Ricardo escolhe outra forma de alimentá-la. É tão difícil quanto matar um humano (para mim é, pois evito até pisar em formiga para não sentir remorso), mas é um sacrifício que um filho está disposto a fazer.

Além de explorar a destruição da inocência infantil, há algumas descrições que limitam o espaço nobre — periferia, em uma sutil crítica à divisão de classes, e também aproveitei uma determinada deixa para alfinetar religiosos alienados. Se há algo que me irrita mais do que um zumbi tentando morder minha bunda é alguém que se acha o dono da verdade universal.

O conto foi concebido para agradar a todos — mas acredito que o novo cardápio da mãe-infectada vai deixá-los revoltados. Será que Ricardo passará a ser visto de outro jeito? Terá sido merecido o seu fim em TM: Fuga?

Alguém poderá julgá-lo?

Terra Morta: relatos de sobrevivência ao apocalipse zumbi

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