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Terra Morta – relatos de sobrevivência a um apocalipse zumbi: Escrevendo “Demônios eu vi lá no parque, demônios por todas as partes”, de Tiago Toy

Primeiro foram as árvores a se tornarem borrões; depois, todo o resto. Michele pensou que desmaiaria, resultado da carga de emoções provocada pelos últimos eventos, mas não era isso. Antes de saírem da trilha já havia notado a fumaça no ar. Cheiro de queimado — e de algo mais. Estavam percorrendo aquele mesmo caminho há longos minutos, e a estranha sensação só fazia aumentar. Sentiu os músculos relaxados, uma vontade repentina de rir e chorar. Sem mencionar a fome; seu estômago roncava. Abriu a boca para chamar Danilo, pedir para descansar, mas os lábios não obedeciam. Quando o rapaz a soltou, Michele deu mais alguns passos desajeitados, a cabeça pesada, e se ajoelhou na grama. Ao sentir o calor, levantou os olhos e foi atingida pelo clarão.

 

O plantio de maconha estava em chamas.

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Escrever uma história paralela a outra não é tão fácil quanto parece. Alguns pensam: “Basta criar um enredo diferente, fazer os caminhos se cruzarem com algum trecho do original, e pronto”. Seguindo este raciocínio, pode-se deixar tantos buracos para trás que o leitor que já conhece o universo de inspiração corre o risco de conquistar apenas um desapontamento amargo.

Para desenvolver “Demônios eu vi lá no parque, demônios por todas as partes” inicialmente pretendia seguir uma sinopse simples: “Grupo de amigos passa o final de semana em um hotel-fazenda e se encontra em meio a um ataque zumbi”. Mas como todo bom escritor sabe que ao longo do caminho as ideias pipocam e as linhas tomam novos rumos, não foi diferente aqui.

O grupo de amigos se transformou em um casal de irmãos e um rapaz, este melhor amigo dele e paixão platônica dela. Em seguida precisava saber o que estavam fazendo lá. Apenas curtindo um final de semana, embora seja comum, é muito vago; por isso decidi que estariam curtindo esportes radicais. Ainda assim parecia raso demais, então, por fim, ela, Michele, estaria ali para enfrentar um grande medo: altura. Por quê?

Havia sido promovida no escritório de advocacia em que trabalhava e, acompanhada pelo chefe, fora visitar seu novo espaço de trabalho em um andar superior do prédio — no 15º, sendo mais exato. Sua mesa ficava ao lado de uma ampla vidraça com vista para o centro de Araraquara. Sentiu as pernas bambas e um embrulho no estômago antes de correr para o banheiro mais próximo — masculino — e vomitar na primeira privada à vista. Mentiu para o chefe ao dizer que havia comido algumas porcarias no almoço. Não podia contar sobre o pavor de altura e que, portanto, precisaria da mesa em outro local. Alcançara um cargo cobiçado, e não começaria com exigências antes mesmo de ter a alteração na carteira profissional.

Como Terra Morta se passa em solo paulista, o conto se desenrolaria em Brotas, cidade interiorana do estado de São Paulo conhecida pelos esportes radicais que oferece, e não muito distante da cidade dos personagens, Araraquara (a mesma de Daniela, por sinal).

Motivações definidas, era preciso dar uma maior profundidade aos outros dois, Pedro Henrique, o irmão, e Danilo. E foi feito — mas isso fica de surpresa para quando tiverem o livro nas mãos. Qual a graça em entregar tudo de uma vez?

Envolvendo um núcleo jovem, achei interessante discutir determinados assuntos, como desrespeito religioso, sexualidade e drogas, esta última com grande importância, pois define as escolhas de um personagem específico.

O título do conto é uma brincadeira com a música Eu Vi Gnomos, do Tihuana, onde há o trecho “Gnomos eu vi lá em marte, gnomos por todas as partes”. Como consta no trecho liberado acima, há um plantio clandestino de maconha nos arredores do parque (uma ideia que tive graças à plantação clandestina em Bates Motel, a série da A&E) e este personagem envolvido com drogas acaba, chapado, enxergando demônios nos infectados. Na verdade ele não é viciado, mas “… Nunca fora careta; já experimentara de tudo — exceto crack —, e se gabava de ter autocontrole suficiente para não se deixar depender de montinhos de pó ou erva moída enrolada em seda.” Já ouviram esta história por aí?

Acredito que todos os temas trabalhados no conto, assim como a atmosfera pré-Terra Morta — inclusive contando com a participação especial de um personagem querido de TM: Fuga — agradarão os leitores, novos e antigos. Os infectados aparecem, em pencas, mas antes disso grande parte do texto dá destaque ao desenvolvimento da relação entre o trio, um misto de inseguranças adolescentes, proteção fraterna, interesses sociais, autoimagem supervalorizada, busca pela identidade, entre outros.

Tenho certeza que todos os leitores se identificarão com pelo menos um dos três.

Terra Morta: relatos de sobrevivência ao apocalipse zumbi

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0 Comments

  1. Fabi Deschamps disse:

    Mais um conto sensacional do Tiago. Os elementos que compõem o conto foram muito bem escolhidos… A peculiaridade (limitação!) física do personagem Pedro deu uma atmosfera tão claustrofóbica ao conto, que é impossível não experimentar uma terrível sensação de pavor ao se imaginar em tal situação. A plantação de maconha clandestina, a brincadeira do copo antes do início dos ataques, a imprevisível e chocante cena anterior à cena final, e, por fim, o telefonema entre Michele e uma personagem de Terra Morta (somente quem ler saberá de quem se trata!) dão o toque final a esse excelente conto.

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