Terra Morta – relatos de sobrevivência a um apocalipse zumbi: Escrevendo “Pra fazer sabão é que não é”, Tiago Toy
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Terra Morta – relatos de sobrevivência a um apocalipse zumbi: Escrevendo “A obsessão de Vitória”, Tiago Toy

O calendário e relógio foram esquecidos. Os ícones no canto inferior da tela haviam se tornado borrões — o foco estava no centro dela. Ali era o mundo de Vitória. Horas eram deixadas para trás, sem que percebesse, os olhos fixos em um ponto a esmo na luminosidade cegante, os dedos tocando sem precisão as teclas engorduradas. A postura havia mudado. Não andava mais ereta. Se precisava ir ao banheiro, isso quando sentia a necessidade batendo na porta, quase a arrombando, se levantava arrastada e andava às pressas, se apoiando nos móveis empoeirados. Nem era preciso se abaixar para se sentar: estava tão encurvada que bastava descer a calcinha (desistira de vestir calças) e se virar. O vaso sanitário não sabia o que era descarga há semanas; a massa escura e molhada se acumulara até a metade. Já fazia muito em ir até ali perder tempo cagando. Tinha que voltar ao computador. Precisava de curtidas. Ninguém saberia o quão suja estava sua bunda.

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O mais divertido em escrever histórias pós-apocalípticas é a infinidade de possibilidades a se explorar. Muitos se esquecem disso e acabam se limitando ao típico, se contentando em enfiar um bando de sobreviventes insossos dentro de um hotel/fazenda/prisão/prédio/mansão e seguindo a cartilha do “Faça o seu próprio ‘A Noite dos Mortos-Vivos’”.

Não digo que Terra Morta: Fuga é a revolução mor do gênero, seria muita pretensão. Tudo o que sempre quis com a história nascida em um blog era entreter os leitores, além de gostar muito do que fazia. Mas chega um ponto em que a autocrítica soa como uma campainha contínua e o autor se manca que precisa se superar, pensar fora da caixa, ir além.

Como já havia brincado com sobreviventes brisados e “culinária japonesa” nos contos anteriores, ambos trazendo personagens de TM: Fuga, em “A obsessão de Vitória” escolhi deixar tudo de lado e focar em um ambiente, um personagem, uma necessidade. Fisicamente Vitória é inspirada em minha amiga virtual Victoria Asahi Miranda, mas psicologicamente, em cada um de nós que gasta os preciosos minutos de nossas vidas no maldito Facebook.

Como um ex-viciado virtual em processo de desintoxicação, consigo enxergar o quão destrutivo pode ser a mais famosa rede de relacionamentos da atualidade. Perco a conta de quantas vezes me desligo da realidade e acabo descendo aquela linha do tempo em busca de algo que nunca encontro, para em seguida atualizar a página, voltar ao topo e recomeçar o angustiante processo. Só de pensar me dá falta de ar.

Vitória é uma viciada em Facebook. Curtidas são seu oxigênio. Compartilhamentos, sua meta de vida. Comentários, seu sonho de consumo. É como uma poderosa droga, que a deixa extremamente dependente, alheia à vida real, e que a leva a um ponto onde voltar pode ser mais difícil do que se livrar de uma horda de zumbis famintos. Um mal tão dominante que a deixa cega diante do que é realmente preciso para se viver uma vida plena, e a faz tomar decisões sem volta.

Cada palavra foi escolhida para transmitir ao leitor a exata sensação do que é permitir que algo tão irreal tome conta nossa vida, como um viciado comum intensificando sua dependência. A intenção do conto é abrir os olhos de viciados (sim, viciados em Facebook) — alienados, se preferir — que pintam vidas perfeitas em atualizações vazias, que são “educados, felizes, honestos, sinceros, ricos, realizados” e todas as qualidades possíveis que se pode induzir os “amigos” a acreditarem através do perfil, uma vida perfeita e imaginária.

Talvez alguns “facebookianos” sintam por Vitória a vergonha alheia que muitos devem sentir deles próprios, e parem de publicar informações tão úteis, como terem acordado, estarem de mau humor, ou terem acabado de usar o papel higiênico.

Ou, no mínimo, que parem de usar o nome de Clarice Lispector em vão. A pobrezinha agradece.

Terra Morta: relatos de sobrevivência ao apocalipse zumbi

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