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Brasil Fantástico: Escrevendo “A Copa dos Mitos”, Christopher Kastensmidt

– Pena que não temos mitologia legal como essa aqui no Brasil – disse o primeiro.

 

– E quanto ao Boitatá? – perguntou uma terceira voz.

 

– O quê? – perguntou o segundo garoto em tom de zombaria. – Aquelas paradas quando se vestem de boi e ficam zanzando na rua?

 

– Não, isso é Bumba Meu Boi! O Boitatá é uma serpente gigante com olhos de fogo. Ele é muito maneiro!

 

– Chaaaato – disse o primeiro menino. – Jörmungandr é uma serpente venenosa tão grande que envolve o mundo inteiro.

 

– E a Mula sem cabeça? – perguntou o terceiro garoto, exasperado. – Ela é legal, não é?

 

– Isso nem chega a ser um monstro – disse o garoto em segundo lugar – é só uma aberração! Thor a esmagaria com uma martelada junto com seu Bumba-Tatá.

 

– Na boa… – disse o primeiro menino. – Nossa mitologia é uma merda!

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Trabalho com elementos do folclore brasileiro na minha ficção há anos. Nas minhas histórias de aventura, costumo inserir o folclore dentro do contexto da narrativa. “A Copa dos Mitos”, porém, é uma abordagem diferente. Neste caso, o contexto é o folclore.

A inspiração deste conto foi o Nerdcast #232, um episódio sobre monstros e dragões. Perto do final do podcast, os participantes começaram a tirar sarro do folclore nacional (basta escutar dos 47m37s aos 50m33s). Do grupo, apenas o Eduardo Spohr defendeu as criaturas brasileiras.

Piadas à parte (e têm umas boas ali), o problema é que muitas pessoas realmente acreditam que o folclore brasileiro seja de alguma forma inferior. A verdade é: folclore não é uma competição. Não existe folclore “melhor” que outro. Cada país tem seu folclore, que, de certa forma, faz parte da sua identidade. Sendo o Brasil uma convergência de muitos povos, não há como não possuir um folclore riquíssimo e inédito. O folclore brasileiro junta e mistura mitos de pelos menos três continentes.

As histórias da minha série A Bandeira do Elefante e da Arara já foram publicadas em cinco países e, muitas vezes os estrangeiros me perguntam: “De onde tirou a ideia para este tal de Saci-Pererê? Esta criatura é um espetáculo!”. Esta frase causaria espanto em qualquer brasileiro, acostumado a ouvir falar do Saci-Pererê desde os primeiros anos da infância. Para as pessoas de fora, porém, a Mula-sem-cabeça é tão fascinante quanto um hipogrifo para a criançada daqui.

Por isso, qualquer conversa de folclore “inferior” para mim não passa de um grande besteirol. Ao mesmo tempo, são as discussões mais loucas que nos trazem as melhores ideias. Toda esta discussão de mitos “legais” e “ruins” me fez pensar: “e se fosse uma competição mesmo?”.

Assim nasceu “A Copa dos Mitos”, uma história que criei para zombar daquele sentimento de inferioridade, virá-lo de cabeça para baixo. Da mesma forma que as crianças fazem perguntas do tipo: “e se tivesse uma luta entre Super-Homem e o Hulk, quem ganharia?”, eu botei Thor e Boitatá na arena para deixar que eles nos mostrassem o resultado.

As reações dos leitores a este conto têm sido muito positivas e várias pessoas já me perguntaram se eu não queira continuar esta história, contá-la até o final. Afinal, “A Copa dos Mitos” conta apenas uma rodada desta copa mitológica. A resposta é sim! Ao escrever a palavra “FIM” no final do conto, já tive a intenção de contar toda a história do Tiago e Ruivo em um romance infantojuvenil.

E prometo: essa Copa ainda não acabou!

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