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Super-Heróis: Um bate-papo com Romeu Martins, autor de “Edição de Colecionador”

O haitiano se aproxima do roqueiro, encostando o peito na mesa.

 

– Aposto como para você o vodu é só uma bobagem folclórica, não é mesmo?

 

Por alguma razão, o roqueiro continua sem conseguir soltar sua voz cavernosa nem arruma forças para se levantar daquela cadeira que geme com seu peso. Ele se esparrama diante do estrangeiro enquanto se encharca no próprio suor, que pouco tem a ver com o calor baiano. O visitante magro, quase raquítico, domina a situação.

 

– Como você vai entender a revolução que criou a única república de ex-escravos das Américas? Uma revolta que nasceu nas montanhas, há mais de duzentos anos, quando um porco preto foi sacrificado ao loa que profetizou nosso destino: vocês vão enfrentar e vencer sozinhos Espanha, França, Grã-Bretanha, ele anteviu. E assim foi! Depois disso, fomos isolados por todos os nossos vizinhos, incluindo o Brasil, por medo de inspirarmos outros negros a buscar o fim da escravidão. Thomas Jefferson e Simon Bolívar nos deram as costas, nos traíram com conversas falsas. Como haviam feito antes os hipócritas iluministas franceses que nos atacaram desmentindo seus ideais de liberté, egalité et fraternité. Só que, mesmo isolados, nós vencemos. Você, monsieur, poderia ter aprendido tudo sobre nossa história, poderia ter conversado com o meu povo, enquanto bancava o Bono Vox e promovia o seu “We are the world” na ilha ocupada pelos soldados brasileiros. Mas não se deu ao trabalho. Nem pisou os pés em Port-au-Prince.

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O que você curte nos super-heróis?

O que eu mais gosto são das veredas abertas por autores que exploraram novas possibilidades além da luta do bem e do mal. Não apenas escritores britânicos como Alan Moore, Neil Gaiman e Garth Ennis, mas também quadrinistas de gerações anteriores como Will Eisner, Jim Steranko e Roy Thomas. A possibilidade de explorar esses personagens em diversos cenários, em várias formas de metáforas para as pequenas e as grandes injustiças que ocorrem no mundo.

Como foi para você escrever para uma coletânea sobre super-heróis, mas tendo essa questão da identificação luso-brasileira?

Assim que fiquei sabendo da proposta me interessei imediatamente. A identificação do gênero com autores de literatura fantástica vem de há muito tempo: um dos grandes autores de ficção científica da história, Isaac Asimov, já assinou contos tendo Batman como personagem. George R. R. Martin diz que começou a escrever inspirado pelos personagens da Marvel. Orson Scott Card já escreveu quadrinhos do Homem de Ferro do universo Ultimate. Michael Chabon fez a grande e premiada homenagem aos super-heróis em seu romance As incríveis aventuras de Kavalier e Clay. Entrar para um time desses é um prazer, ainda mais tendo a chance de explorar temáticas que digam respeito à nossa realidade brasileira. Fiquei muito feliz em ser um dos selecionados para compor esse livro.

Das ideias que você poderia ter, por que o Barão Noir?

Meu objetivo com a história do Barão Noir foi a de escrever sobre a relação entre o Brasil e um país ainda mais problemático que o nosso no mesmo continente, o Haiti. Um vizinho nosso com uma história trágica e que passou por todas as diversidades históricas, de tragédias naturais a exploração mais mesquinha das grandes potências, que uma nação poderia enfrentar. E foi bem catártico pensar em uma figura que poderia ajudar a vingar um pouco dessas calamidades acumuladas.

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