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Dragões: Escrevendo “A Conquista da Forja”, Leandro Leme

Se Olaf pudesse levar a língua de um dragão para casa, ou o estômago – qualquer que fosse a parte que concentrasse o fogo – algo em seu peito talvez, enfim, se calasse. E os restos ele colocaria numa pira, nos escombros de gelo e neve, onde um dia ele morou. Ali, onde aprendeu a identificar as estrelas com o pai e atirar o rifle com os tios, e ouviu Isabela tocar sua flauta tantas noites; ali, onde ele viveu antes das cicatrizes. E todos os mortos teriam paz, e de alguma forma, haveria honra.

 

Mas isso não aconteceria. Não existiam mais dragões.

 

O dirigível em que viajavam há três dias agora abria caminho entre as nuvens escuras, rugindo junto com os trovões. Era o primeiro grupo de caçadores de relíquias, mercenários e falidos que gastaram o pouco que ainda tinham para ir até as recém-descobertas ruínas de Forja. Amanhecia e Olaf estava quieto e taciturno desde a madrugada, o que seu parceiro sabia ser – em parte – seu jeito peculiar de buscar concentração; observava a paisagem abaixo deles de onde grossas colunas de fumaça erguiam-se das rachaduras do solo até o céu. A possibilidade de caminhar sob Forja havia mexido com ele, mais do que admitisse.

 

Na poltrona ao lado, o professor folheava a caderneta de folhas puídas. Corria os olhos pelas anotações e pelas gravuras desenhadas por alguém de talento e que dedicara tempo ao nanquim, pois aqueles não eram traços rápidos. Eram meticulosos, com variação de espessuras e ricos em detalhes. Ele havia escrito as próprias anotações em papéis avulsos e os anexado entre as páginas com o intuito de preservar o pequeno volume. Dos desenhos que ilustravam o suposto relato do escriba, o professor costumava se demorar mais naquele que exibia em detalhes a porta dupla selada com a cabeça do dragão – supostamente a entrada de Forja.

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Desde que Maria José Dupré me levou à Ilha Perdida, cerca de trinta anos atrás, eu nunca mais voltei ao mesmo mundo do qual parti.

Minha cartografia interna passou a ser pontuada por cavernas antigas, templos incrustados em montanhas, cidades esquecidas. Foi no horizonte dessa terra incógnita que surgiu Forja.

Quando comecei a entender o que poderia ser A Conquista de Forja, percebi que olhava na mesma direção em que Conan escalava a Torre do Elefante, Doc Savage entrava em um templo Asteca e Buck Rogers descobria um outro tempo.

Não seria uma legítima aventura pulp, mas traria uma fagulha desse espírito.

Procurei nos empoeirados alfarrábios as aventuras dos velhos livros-jogos, aqueles que escolhíamos o rumo da história, como A Cidadela do Caos e O Feiticeiro da Montanha de Fogo. Tendo jogado RPG por muitos anos, quis trazer também um pouco da essência das aventuras que criávamos. Se a proposta era escrever sobre dragões, eu faria uma dungeon.

Paradoxalmente a isso, na vida pessoal eu ainda processava uma série de experiências difíceis, e foi inevitável isso não sombrear as cores vivas dessas referências.

Olaf, apesar de um típico herói mesomorfo na abordagem de Keleman e Campbell, não veio como um especialista marcial, mas um explorador. Seu trabalho seria a externalização de suas questões e densidade emocional.

Entendi que a narração o acompanharia, trazendo um recorte de sua história de vida e relacionando isso ao evento da Conquista de Forja. Quando tudo fez sentido para mim, fiquei satisfeito. Eureka!

No entanto, pensei que estava ali uma história potencialmente bacana, mas que talvez não tivesse plena aderência à proposta da Draco. O elemento crucial – o dragão – não estava posicionado da forma que, no meu entendimento das regras, deveria estar.

Resolvi me comprometer com essa visão, assumindo os riscos de ser desclassificado. No fim, fiquei muito feliz com a evolução do processo.

Geralmente escrevo ouvindo música. Isso me ajuda a encontrar a atmosfera do texto e também no set up de uma cena. No caso de A Conquista de Forja deixei os fones de lado porque eu já tinha uma melodia em mente, embora ainda incompleta.

Resolvi ir para os instrumentos e desenvolver a música, que acabei gravando efetivamente depois de alguns meses e agora vocês podem conhecer aqui. Tem cerca de três minutos e inspirações de Basil Poledouris (Conan), Hans Zimmer (Inception) e Don Davis (Matrix).

Espero que vocês se divirtam. Para mim foi catártico.

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Você pode baixar o conto em formato e-book na sua loja preferida, acesse a hotpage: http://editoradraco.com/2013/01/02/dragoes-a-conquista-da-forja-leandro-leme/

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