Brasil Fantástico: Escrevendo “A mula do cavaleiro neerlandês”, A. Z. Cordenonsi
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Brasil Fantástico: Escrevendo “A bruxa e o boitatá”, Vivian Cristina Ferreira
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Brasil Fantástico: Escrevendo “Entre conspirações e monstros mitológicos”, João Rogaciano

– Uma cerveja! – Ordenei, voltando-me e dando um murro no balcão. Arrependi-me, de imediato, pois o mesmo estava seboso e parte dessa imundície veio agarrada à minha mão.

O dono da estalagem atirou com um copo muito sebento para junto de mim.

– Num copo minimamente limpo, estalajadeiro! – Acrescentei num rugido, antes que se atrevesse a deitar a minha bebida naquele imundo recipiente.

O homem por detrás do balcão olhou-me desconfiado. Retribui-lhe o olhar. Trocou de copo e serviu-me bruscamente. Ficou à espera do pagamento.

Puxava eu da bolsa das moedas, quando soou uma voz por trás de mim:

– Você não será porventura D. Leopoldo Cid?

(…)

– Senhor, – começou – sou dama de companhia da esposa de D. Nunes de Sá, o qual necessita dos seus préstimos como investigador.

– Temo não estar à altura de tão famoso Senhor – respondi, galantemente, mordiscando uma palha. Recordava-me de ter ouvido falar desse homem, o qual geria uma das maiores e afamadas casas vinícolas de produção de Vinho Madeira.

– Mas, é mesmo necessário! – Exclamou a jovem. – O Senhor tem a casa assombrada! Pelo Cavalum!

– Curioso! Nunca ouvi falar de uma casa vinícola assombrada! E pensei que o Cavalum estava preso nas grutas!

(…)

– É, claro! – Anuiu a minha companheira, olhando-me interrogativamente.

– Então, se o bicho da lenda está preso, logo não pode ser ele a causar o pânico no centro vinícola, pois não?!

– Temos uma empregada, que veio do Brasil, e que afirma que a casa está assombrada não pelo Cavalum, mas por um ser terrífico, conhecido como Boi Tatá!

– Um boi, um touro?! – Inquiri, intrigado. – Como aqueles das touradas?

– Não! – Esclareceu a jovem. – O Boi Tatá é uma espécie de uma grande cobra que sobreviveu a um dilúvio e habitou muitos séculos na escuridão. Por isso, vê mal de dia, mas ficou com uns grandes olhos que vêem muito bem de noite… que é quando aproveita para caçar!

– Não me diga que a vossa empregada viu os olhos malignos desse terrifico ser! – Escarneci, procurando irritar a bela jovem.

A jovem demandou, indignada:

– Ora… Afinal, vai ajudar-nos ou não?

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Quando surgiu o desafio de escrever algo que fosse passível de ser selecionado para a coletânea “Brasil Fantástico”, tentei criar algo inovador e inesperado.

Como o regulamento estipulava que a ação se passasse no Brasil ou em algum local lusófono, coloquei a trama a acontecer na bela Ilha da Madeira. Peguei em duas lendas distintas: a lenda Madeirense do Cavalum e a lenda Brasileira do Boitatá e criei um mistério numa vinícola local.

Como protagonista, coloquei um investigador privado com uns modos extremamente rudes e arrogantes – que, confesso, foram inspirados em grande parte pelos policiais da autoria de Raymond Chandler, mais propriamente pelo seu herói, Philip Marlowe – mas com uma diferença: a ação do meu conto ocorre em 1889!

Depois, foi necessário investigar dados fidedignos sobre a região da Madeira naquela época. Pesquisei também diversos fatos da produção vinícola (casas que asseguravam a produção, castas de uvas produzidas, zonas da ilha onde essa produção ocorria). Também foi necessário integrar toda a ação do conto na realidade europeia e na conjuntura mundial, para que não fossem mencionados personagens desadequadamente e/ou fora de sua época.

Mas todo este enorme trabalho de escrita – investigação – escrita – investigação – reescrita… valeu a pena: o meu conto foi selecionado e integrado neste belo livro, de capa e conteúdo realmente fantástico.

Espero que gostem do meu conto “Entre conspirações e monstros mitológicos” e se divirtam tanto a lê-lo, como eu me diverti a escrevê-lo.

Quer ler esse e outros contos da coletânea Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural Acesse: editoradraco.com/2013/06/15/brasil-fantastico-lendas-de-um-pais-sobrenatural/ e garanta o seu exemplar!

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