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…Olhei uma última vez para Fran. Iria dizer boa noite, mesmo que ela não ouvisse, quando senti meu coração quase parar.

 

A boca ficou seca. Sentia minha língua mais parecendo um pedaço de carne podre. Mesmo na escuridão do quarto eu conseguia vê-la.

 

Em cima da Fran. De pés descalços e pisando com muita força na barriga da minha irmã, estava uma velha magra. Tão magra que ficava fácil ver os seus ossos. O cabelo branco e enorme flutuava pra várias direções como se estivesse embaixo da água. Não dava pra ver muito na escuridão do quarto, mas tenho certeza que a velha era muito mais cadavérica que a Dona Silva. E ela estava em cima da Fran, da minha irmã, o meu ponto de equilíbrio naquele lugar. Desse jeito ela não ia conseguir respirar.

 

Estava com medo. Mas seja lá quem fosse, ou como tinha entrado na casa, eu precisava tirar aquilo de cima da Fran.

 

Mas antes que eu pudesse me mover, a velha virou a cabeça pra mim. Não era humana. Ela virou completamente a cabeça, do mesmo jeito que uma coruja faria. Não ouvi o pescoço quebrar. Ela ainda estava lá. Seus olhos estavam vermelhos. Olhou pra mim e sorriu mostrando todos os dentes.

 

Foi mais do que qualquer coisa que já tinha visto. Com certeza não era humana. Chamei por ajuda. Alguém tinha que ser útil ali, pelo menos minha mãe. Talvez não tivesse me traído afinal. Chamei todo mundo que vivia na casa. Tudo o que a velha fez foi gargalhar, a risada era tão aguda, mais parecia uma bruxa. Tive a impressão que a garganta dela ia rasgar, mesmo não enxergando bem, queria que isso acontecesse.

 

Quando todo mundo chegou no quarto, a velha ainda estava saindo pelo teto, do jeito que somente um fantasma faria…

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Quando decidi escrever um conto para a coletânea “Brasil Fantástico” não tinha nenhuma premissa em mente, exceto que queria pesquisar um mito brasileiro cujo qual não se vê normalmente na escola.

Preferi situar a história na época do Brasil colonial, pois me pareceu um período onde o contato direto com indígenas e crenças diversas me daria uma boa margem para escrever não apenas sobre um mito já consumado, mas minha própria versão do início de outros mitos no recém-descoberto “novo mundo”.

Pesquisei sobre o mito da “Pisadeira”, pois me pareceu um dos mais macabros, especialmente para quem tem medo do escuro, ou de dormir sozinho. Como protagonista preferi criar um adolescente em uma família problemática, o tipo de personagem que não diz as coisas que vê, já que ninguém acreditaria nele.

Por fim, utilizei outros mitos como coadjuvantes apenas para colocar mais conflitos no conto e deixar as situações mais interessantes, precisei pesquisar mais sobre algumas crenças indígenas e alguns mitos menos conhecidos, misturei um pouco do que obtive com parte da fantasia que me pareceu adequada.

Fiquei muito feliz do conto ser selecionado para fazer parte de uma coletânea com tantos pontos de vista diferentes da nossa mitologia. Espero que gostem não apenas do meu conto, mas do livro em si como um todo.

Quer ler esse e outros contos da coletânea Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural? Acesse: editoradraco.com/2013/06/15/brasil-fantastico-lendas-de-um-pais-sobrenatural/ e garanta o seu exemplar!

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