Brasil Fantástico: Escrevendo “Amaldiçoado”, Allan Cutrim
outubro 4, 2013
Brasil Fantástico: Escrevendo “O padre, o doutor e os diabos que os carregaram”, Antonio Luiz M. C. Costa
outubro 8, 2013

Brasil Fantástico: Escrevendo “A voz de Nhanderuvuçú”, Marcelo Jacinto Ribeiro

– Senhores, irei direto ao ponto: nos últimos seis meses nossa cidade tem sido assolada… Não, o termo correto é assombrada, por estranhas aparições e eventos. Mesmo um homem de ciências como eu sente sua fé atingida pelo inexplicável. Dezenas de habitantes juram ter visto criaturas saídas do mundo das lendas, tanto de dia como de noite. Grupos de pescadores descrevem a aparição de bolas de fogo correndo pelos rios, às vezes perseguindo seus barcos, outras apenas vagando pelas margens. Nosso pároco retornou de uma extrema-unção em uma fazenda afastada com os cabelos em pé e balbuciando rezas sem sentido, agarrando a Sagrada Bíblia tão fortemente que não conseguimos arrancá-la de sua mão. Depois de uma semana sofrendo de uma febre mental, ele recobrou a lucidez e contou ter cruzado com um monstro das matas, um anão deformado e grotesco, que o perseguiu da fazenda até os limites da cidade. Somente esses fatos já seriam bizarros, mas explicáveis como um delírio causado pelo calor, ou uma doença das matas, ou até mesmo o uso de álcool em demasia, visto que poucas pessoas os confrontaram. Entretanto… O velho mestre fez uma pausa, aparentemente para beber um pouco de água, mas Wesley notou o forte tremor em suas mãos.

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Quando soube da coletânea fiquei inicialmente desconfiado, quem escreveria FC mesclada com o folclore nacional? E como isso poderia ficar bom? Mesmo anos depois da leitura do Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, texto mítico escrito em 1988 por Ivan Carlos Regina que prega uma ruptura no status da FC brasileira com a FC estrangeira (leia-se americana) ainda estou com um pé atrás (ok, ok, os dois pés) com o conceito de FC AMBIENTADA no Brasil, que o diga usando nosso folclore! FC envolve naves espaciais, aliens, batalhas no espaço, lasers, monstros verdes contras astronautas valentes (estou generalizando, claro que FC não se limita a isso) como isso se encaixa em nossa realidade? Sem chance! Mais por curiosidade do que intenção real de escrever comecei uma pesquisa sobre mitos nacionais, sem pretensões. Apenas para relembrar o que aprendi na escola, durante as aulas de educação artística – é sério!

E foi nesse instante que tomei um baita susto. Aquele folclore bem pobre e simplório da minha infância desapareceu nas névoas da memória para ser substituído por uma mitologia complexa, cheia de criaturas fantástica e principalmente assustadoras. Para quem tinha como principais referências as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo foi um belo choque ver o quanto nossos antepassados temiam a floresta e seus habitantes sombrios. Pombas, entrar no mato de noite era praticamente uma sentença de morte! Curupiras, boitatás, mulas-sem-cabeça, Iaras, botos que assumem a forma humana, todos sedentos por sangue dos incautos humanos que caem em suas garras, todos prontos – não, implorando – para serem usados.

Fui fisgado na hora. Ideias começaram a fervilhar na minha cabeça mais rápido do que conseguia colocar no papel/monitor, meios inusitados de fundir a FC que tanto amo com nossa história, nossa mitologia. Não foi fácil começar, mas depois dos primeiros passos a história praticamente se escreveu sozinha. Consegui alcançar o que tanto desejava, uma história onde as fronteiras entre ciência e sobrenatural se confundem, onde dois mundos se chocam brutalmente, cada um querendo a vitória sobre o outro – pois a vitória significa a sobrevivência. Escondi bem meu ouro e guardei minhas cartas até o final do jogo, para colocá-las na mesa e levar todas as fichas para casa, com um sorriso no rosto. E o melhor de tudo, escrevi FC ambientada no Brasil, com nosso folclore.

Foi uma bela lição sobre o que todo escritor – principalmente o de ficção científica – sempre deve ter em mente: não existem limites para a imaginação. No instante em que colocamos barreiras e fronteiras em nosso trabalho ele se torna menor, limitado, desinteressante. Foi muito bom me assustar com criaturas que eram minhas amigas de brincadeira, foi excelente testar minha capacidade de inventar (o melhor elogio que recebi foi do brilhante ilustrador da coletânea, o grande Osmarco Valadão, que afirmou: pare de usar drogas alucinógenas!), mas o melhor de tudo foi ver que estava enganado, enormemente enganado sobre o que a FC pode ser. Tudo pode e deve ser usado, tudo pode e deve ser tentado, nada como um dia depois do outro!

Agora sinto uma grande satisfação, um sentimento de dever cumprido e claro um gigantesco orgulho por estar nesse belíssimo livro. Meus horizontes estão mais amplos, minha imaginação ganhou novas e melhores asas e de hoje em diante toda vez que ouvir um trovão saberei exatamente do que se trata: é Tupã, o sopro da vida, a voz de Deus, algo para temer e reverenciar.

Quer ler esse e outros contos da coletânea Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural? Acesse: editoradraco.com/2013/06/15/brasil-fantastico-lendas-de-um-pais-sobrenatural/ e garanta o seu exemplar!

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