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Brasil Fantástico: Escrevendo “A bruxa e o boitatá”, Vivian Cristina Ferreira

A primeira ou a sétima filha de um casal sem varões nasce bruxa.

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Este foi o pontapé inicial para a criação do conto A bruxa e o Boitatá que, para minha imensa alegria, foi selecionado para a coletânea Brasil Fantástico – Lendas de um País Sobrenatural.

A frase do início é uma forte lenda da Ilha da Magia, que ao contrário do que muitos pensam, não é mágica somente pelas belezas naturais.

Os mais místicos acreditam que Florianópolis está situada num dos pontos de encontro da famosa “Malha do Mundo”, uma rede energética que circunda o planeta, tendo assim a preferência das bruxas.

E esta é só uma das diversas histórias que circulam pela ilha. Desde a invasão açoriana, as bruxas ganharam força, tendo suas peripécias contadas e recontadas, somente durante o dia, é claro.

Dizem os antigos moradores, que as bruxas atacam pescadores, roubam barcos, bailam em tarrafas de pescaria, roubam cavalos e galopam pelos ares. Caçam bebês, animais pequenos e destroem lavouras em crescimento. Transformam-se em mariposas e entram nas casas pelo buraco da fechadura para chupar o sangue de crianças não batizadas. Alguns até já pintaram nas paredes externas das casas uma janela falsa na tentativa de enganá-las, a chamada “janela da bruxa”.

 … Lembrou-se das histórias que ouvira na ilha quando criança, que as bruxas tentavam levar a sétima filha de um casal sem filhos homens para passar-lhe seus segredos. Quando não conseguiam ao nascer, voltavam quando o bebê completava três meses, depois aos três anos, mais tarde tentam aos 13, aos 23, 33 e por aí vai até que consigam arrebatar a pobre alma.

Mas as lendas de Floripa não circulam só em torno das bruxas. Os índios também tiveram importante papel na composição de um universo misterioso e supersticioso para o conto.

Pesquisando a história da ilha, descobri que arqueólogos encontraram vestígios de índios tupis que pescavam em Sambaqui. Existiu uma grande aldeia de índios curandeiros em Cacupé. Viveram aqui também os carijós que executavam seus delinquentes na atual praia de Moçambique, tornando-a maldita pela proliferação de espíritos ruins.

E como uma coisa leva à outra, aí entra o Boitatá, já descrito pelo padre José de Anchieta na Carta de São Vicente em 1560 como “um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os…”.

Mas foi Franklin Cascaes, artista catarinense, pesquisador, ecologista e folclorista, que dedicou parte de sua vida ao registro das tradições, lendas, usos e costumes dos moradores da Ilha de Santa Catarina. Uma de suas histórias diz que um Boitatá circula por Floripa, sempre à meia-noite e só pode ser preso por corda de sino.

Esta grande variedade de histórias, que fazem parte da identidade cultural do município e que como paulistana desconhecia, despertou a vontade de situar meu conto em Florianópolis.  E de vincular o Boitatá, tão conhecido mito brasileiro, às bruxas da ilha, mas em dias atuais, para que todos saibam que mesmo hoje em dia, circulando pelas praias de Floripa ou por suas badaladas festas, podemos nos deparar com belas e cativantes mulheres, talvez representantes do “Círculo da Lua”.

– Bruna, querida! Não seja antipática em sua primeira visita! Deixe-me apresentar sua verdadeira família: o Círculo da Lua! Estas são Rafaela e Manuela, minhas companheiras de lua cheia; Rosa, Rose e Rita, irmãs de lua nova; Darlene, Marlene e Edilene, amantes da lua crescente e suas futuras companheiras de lua minguante: Bárbara e Bia. Com a sua chegada, voltaremos a ter força total para cobrirmos todas as etapas de trabalho.

 

– Trabalho? Que trabalho? O que querem que eu faça?

 

– Acalme-se, Bruna querida! Não trabalhará tantos dias assim, apenas nas noites de sua lua, a minguante, ajudando Bárbara e Bia a manter a vitalidade que todas nós necessitamos para aproveitarmos os prazeres deste belo mundo!

 

– Vitalidade? Como conseguem?

 

– Ora, bobinha! Com vidas! Achou que conseguíssemos com farinha, ovos e leite? …

Espero que isto não seja motivo para deixarem de visitar Florianópolis. E talvez um dia, como eu, sintam um desejo incontrolável de viver na Ilha da Magia, por sua arquitetura, verdes encostas, belas praias e lagos, a simpatia dos manezinhos, das rendeiras (dizem que são bruxas) e excelente gastronomia. Será?

Mas tenham cuidado! As inúmeras pedras da praia de Itaguaçu, na verdade são bruxas castigadas pelo “chefe” por não convidarem o tal demo para a festança que ali costumavam fazer, já que seu cheiro de enxofre afastava todas as “presas”, digo, convidados.

É ver pra crer.

Quer ler esse e outros contos da coletânea Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural Acesse: editoradraco.com/2013/06/15/brasil-fantastico-lendas-de-um-pais-sobrenatural/ e garanta o seu exemplar!

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