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Flávio Medeiros Jr. fala sobre o romance Homens e Monstros – A Guerra Fria Vitoriana

capa_homensmonstros-bxO autor Flávio Medeiros nos contou um pouco mais sobre o seu novo livro, sobre ingleses, astecas e boas doses de steampunk e divulgou um trechinho da história.

Aproveite!

1) Sobre o que fala o livro Homens e Monstros – A Guerra Fria Vitoriana?

É um romance fix-up, composto de seis noveletas e um conto, ambientados no universo ficcional de história alternativa da “Guerra Fria Vitoriana”, que criei quando escrevi a noveleta “Os Primeiros Aztecas na Lua” (antologia “Vaporpunk”) e o conto “Por Um Fio” (antologia “Steampunk”), que ficou em segundo lugar no Prêmio Hydra e foi publicado nos EUA. Nesse universo o Império Asteca não foi destruído, e sim anexado ao Império Britânico, de forma que as Américas foram conquistadas e povoadas pelos ingleses, aliados aos indígenas. Como reação a essa expansão ameaçadora, a França estabelece um sólido império continental na Europa e essas duas potências dão início a uma guerra fria em plena Era Vitoriana, no fim do século XIX. Cada história do livro funciona como uma peça de um quebra-cabeça. Um evento apenas mencionado em um texto pode ser acompanhado com detalhes em outro; o personagem que morre em uma história vai ser melhor conhecido em outra. Um evento trágico, o afundamento do navio de passageiros “Príncipe de Gales” ao largo do Mediterrâneo, vai repercutir nas vidas de personagens em diferentes histórias. Todas são narradas em primeira pessoa por diferentes personagens, em diversos lugares desse mundo: França, Inglaterra, África, Confederação Argentina, e no coração do Império Azteca, passando pelos Estados Unidos e por Nova Albion, as duas grandes nações em que se divide a América do Norte nesse universo ficcional.

2) Você trouxe boas influências e referências de autores como Jules Verne, Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Herbert George Wells. Fale-nos mais sobre isso.

A própria concepção desse universo alternativo surgiu de um fato que dizem ser histórico: teria sido perguntado a Jules Verne, já em idade avançada, o que pensava da obra do jovem H.G.Wells. Ele teria respondido: “Esse homem é um mentiroso. Enquanto eu aplico a ciência, ele a inventa.” O que fiz, então, foi eleger Verne como Ministro da Ciência do Império Francês, e Wells como ocupante do cargo correspondente em Londres. Nas aventuras relatadas no livro, os agentes dos serviços secretos de cada potência, assim como muitos personagens secundários e até algumas situações, são os mesmos já vistos nas obras desses grandes autores citados, como o Almirante Nemo, Axel Lidenbrock, Auguste Dupin ou Prendick e Montgomery, de “A Ilha do Doutor Moreau”. A verdade é que, para escrever cada história, tive que ler ou reler uma média de dois ou três livros desses autores clássicos, para “reviver” a ambientação e transportá-la para outro contexto, numa linguagem mais contemporânea. No fim do livro fiz uma lista dos romances e contos que tiveram influência nas histórias, e além desses que você citou estão nomes como Jack London, Robert Stevenson, Robert Howard e o argentino Leopoldo Lugones. Constam obras relativamente pouco conhecidas, como “A Jangada” de Verne, “Os Dias do Cometa” de Wells, e “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. Citei este último porque, embora seja bem conhecido por leitores mais antigos, é um dos grandes livros praticamente desconhecidos pelas gerações mais jovens. Confesso que um dos objetivos que eu gostaria muito de alcançar com esse livro é o de estimular os leitores, principalmente os mais jovens, a conhecerem as obras originais em que me inspirei, e que foram determinantes na construção do amor pela literatura que desenvolvi desde a infância.

3) O que você contaria aos leitores que estão prestes a conhecer as histórias alternativas narradas no romance?

Numa noite de quarta-feira anos atrás, num dos debates filosóficos semanais que eu tinha com um grande amigo num bar de Belo Horizonte, ele colocou a seguinte questão: “Qual o sentido da existência dos códigos de ética na guerra? O objetivo da guerra não é matar, eliminar, subjugar seu oponente? A barbárie e a agressividade não são a base da guerra? Nesse caso, um código de ética não acaba sendo uma hipocrisia?” O tempo passou, amadureci a questão e esse livro, no fundo, é exatamente sobre isso. O que nos caracteriza como humanos? Como uma situação de guerra altera isso? O que muda e o que resta de civilizados, éticos e nobres em nós mesmos, quando a guerra eclode ao nosso redor? Interrompido um período de paz, o que passa a ser admissível, e o que não é aceitável de jeito nenhum? Como os homens são levados à guerra, e como podem sair dela? No brasão desenhado pelo Erick Santos a meu pedido, para simbolizar todo o universo alternativo da Guerra Fria Vitoriana, estão as inscrições em latim “Jus ad bellum” e “Jus in bello”. Se você pesquisar essas citações no Google, vai entender exatamente do que trata o livro.

4) Você poderia nos dar um trecho interessante do livro?

Da noveleta “Homens e Monstros”, que empresta seu nome ao livro:

Chaney já fazia menção de se afastar, mas hesitou e retornou por um instante.

– Escute bem o que lhe diz este soldado de vários fronts, Cabo Enfield: por mais paradoxal que pareça, a guerra é uma das experiências mais democráticas que podem se abater sobre a espécie humana, seja ela aberta e franca, como ocorre no alto mar e nas fronteiras, seja ela cínica e hipócrita, como ocorre entre nossos gabinetes secretos e seus correspondentes nos corredores institucionais franceses. Democrática, sim, pois dá a visão mais brutal, mais eloquente e aguda da desgraça humana, tanto ao camponês miserável como o “indivíduo zero” do Golfo do México, quanto a um cientista emérito como aquele pobre diabo ali adiante – disse, fazendo um gesto de cabeça na direção do homem da mesa em frente, que acabava de derrubar a garrafa de uísque, derramando o resto de seu conteúdo sobre a toalha de linho. – A guerra cria a necessidade, que faz evoluírem em ritmo alucinante as teorias filosóficas e sociológicas, a tecnologia de transportes, de comunicações, os avanços da engenharia e da medicina, tudo isso impulsionado por uma das necessidades mais básicas do homem: a sobrevivência. Assim é que os vaidosos filósofos, cientistas e intelectuais curvam suas cabeças sob o jugo do selvagem que existe dentro de cada ser humano, rugindo furioso à espera de uma oportunidade para emergir e subjugar seu semelhante. As atrocidades se repetem dia após dia, com tal frequência que o ser humano se acostuma com sua presença familiar e, para sua tragédia, deixa de sentir a indignação que exige a suposta nobreza original de sua alma. Vê aqueles distintos senhores ali adiante? – falou, fazendo um gesto sutil com a cabeça em direção ao grupo de Fogg – Dois deles são proprietários de grandes fundições em Londres, cujos negócios sofreram um duro golpe no recente episódio de “dumping” promovido por aquele célebre industrial prussiano. Faz poucos dias os ouvi discutindo, e o mais estarrecedor era que falavam a sério, sobre como seria benéfica para suas atividades comerciais a deflagração de uma guerra total contra a França.

– Eles certamente nunca estiveram no front como nós, Capitão. Não sabem do que estão falando…

– Por certo que não. No entanto, meu caro, por mais aviltantes que possam ser tais ideias aos ouvidos dos homens de bom senso, aqueles que as estão sugerindo são os seres que têm efetivamente, em suas mãos, o poder para colocá-las em prática. Homens se convertem facilmente em monstros, Enfield, e caminham sobre a linha fina que tem, de um lado, o progresso das civilizações, e do outro, a própria destruição. Por isso volto a lhe dizer, como oficial superior de outras batalhas e como amigo: tenha muito cuidado! A guerra transforma as pessoas. Não deixe que elas te surpreendam.

Chaney parou de falar para recuperar o fôlego. Sua fisionomia voltou a suavizar-se e ele disse, com um sorriso sincero:

– Agora, se me dá licença… Não é uma boa ideia deixar o Ministro Phileas Fogg esperando além da conta.

Quer saber mais? Acesse: http://editoradraco.com/2013/09/09/homens-e-monstros-a-guerra-fria-vitoriana-flavio-medeiros-jr/

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