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#ContosdoDragão: Ficções desencontradas, por Fernando Salvaterra

As histórias que envolvem viagens a universos paralelos se conhecem. Sabemos, mesmo que não nos demos conta, que todas aquelas fantasias e ficções científicas que sugerem, abordam e transbordam realidades alternativas fazem parte de um mesmo mega-cenário — um cenário monstruoso, de criação coletiva, que arremata todos os gêneros, todas as mídias, todos os autores. Esse mega-cenário, esse verdadeiro universo paralelo ao nosso, feito de palavras e imagens, é tão velho quanto a humanidade que o alimenta. Ele nasce continuamente em todas as direções, desde os primeiros xamãs atravessando mundos alucinatórios, nomeando espíritos antropomórficos, passando pelos paraísos, reinos dos céus, tártaros e olimpos, englobando os crossovers entre panteões de terras vizinhas, até as modernas teorias cosmológicas do multiverso.

Se é infinita a variação de universos, é necessário que todas as ficções sejam irmãs, pois estão todas previstas nesta variação. Principalmente as histórias em que a membrana entre os mundos é vislumbrada, agredida ou rompida. Se isso é colocar obras primas de qualidade inquestionável ao lado de gaguejos inábeis em formas de enredo, basta lembrar que o infinito também requer o tédio, o constrangimento, a inconsistência e o improvável e ninguém é obrigado — nem consegue — engolir cada pedaço da eternidade.

Dito isso, poderia dizer que meus dois contos publicados na Contos do Dragão pela editora Draco co-existem por acidente. Não é o caso. Por incrível que pareça, os escrevi com essas ideias em mente, e as diferenças entre os dois são integrantes e conversam entre si.

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Em O Jardim Cosmogônico, habitantes de um mundo abarrotado de deuses e carente de literatura encontram um universo paralelo contrário ao seu e passam a traficar suas ficções, iniciando a revolução contra uma ordem opressora.

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Em Saída de Emergência no Fim do Mundo, a revolução não vem das pessoas, mas do colapso das realidades. No primeiro conto, os protagonistas se transformam com a literatura. No segundo, o protagonista coleciona palavras cruzadas e não vê no jogo de sinais nada mais que um passatempo. Num conto, personagens com ideais em ebulição lutam contra o status quo em mundos fantásticos. Noutro, um protagonista obtuso e mesquinho foge da derradeira mudança, resgatando as pequenas diferenças entre universos semelhantes e mundanos.

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Botão antigo com um dragão em relevo

Há mais entre os dois contos, é claro. Para trilhar o caminho entre eles, eu escrevi outros, em gêneros e mundos diversos. Espero ter a oportunidade de percorrer essa escada de degraus dessemelhantes com a companhia de quem se interessar, muito em breve.

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