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Mais um Top 5 na área. Quem conversa com a gente dessa vez é o jornalista e escritor Carlos Orsi. Entre seus diversos trabalhos estão As Dez Torres de Sangue e Guerra Justa. Overdose? Não, senhor!

Vamos lá, então.

As Dez Torres de Sangue

1– Empate: Edgar Allan Poe e Jorge Luis Borges

Se existem contos perfeitos, O Barril de Amontillado e A Biblioteca de Babel estão no topo da lista. Releio-os pelo menos uma vez ao ano, só para ver como ainda sou precário. Sinto um fascínio enorme pelos “pseudofactuais” de Borges, seus ensaios sobre autores inexistentes e livros nunca escritos. Quanto a Poe, ele não só estabeleceu a ligação umbilical entre terror, ciência e fantasia na literatura – ligação a que sempre tento fazer jus – como foi o inventor do “conto de raciocínio”, que ao lado da história de aventura é o meu gênero (subgênero? metagênero?) favorito, e do conto de investigação criminal. Que é o que nos leva ao segundo nome da lista.

Borges

2– Arthur Conan Doyle

Sir Arthur é o Mestre, com “m” maiúsculo. Numa analogia com o Dr. Estranho da Marvel, para mim ele é o Narrador Supremo. Mesmo quando estava se esforçando conscientemente para ser Sério e Profundo, como nos romances medievais de Sir Nigel, o simples prazer de fazer a história fluir é notável. Quando se soltava, como nas histórias de terror nas aventuras de Sherlock Holmes, o sabor, a ironia subentendida, o ritmo são insuperáveis. Se Poe inventou a fórmula do mistério curto narrado pelo amigo menos inteligente do detetive, foi  Conan Doyle quem a levou à perfeição. E, como narrador, ele supera o pioneiro americano: uma cena como a do desenlace da Aventura da Faixa Malhada, por exemplo, não fica devendo nada ao desmoronamento da Casa de Usher. E seu Watson é um personagem muito mais vivo, e interessante, que o amigo sem nome de Dupin e, claro, que as caricaturas apresentadas pelo cinema. Ah, sim: Conan Doyle não é só Sherlock Holmes! aquela lista de contos perfeitos certamente pode incluir seu clássico de ficção científica protolovecraftiana, O Horror nas Alturas.

Conan Doyle

3 – Empate: Robert E. Howard e Karl Edward Wagner

Howard escreveu muito, e para ganhar dinheiro e ajudar a sustentar a família, o que quer dizer que muito do que ele escreveu é meio capenga, mas quando ele acertava, era sublime, épico, bíblico. O melhor que produziu sobre o Rei Kull e Conan, por exemplo, têm o escopo dramático e a elegância das melhores narrativas do Velho Testamento, só que em batida “hard boiled”. Seus contos sobre boxe e os de aventuras no Oriente também são maravilhosos. Howard também era um ótimo humorista: suas histórias sobre o marinheiro Steve Costigan, um idiota de bom coração, mas imbatível numa briga, são de rolar de rir. Melhor que Groo. Numa linha mais dramática e, até, psicológica, as aventuras do cavaleiro cruzado Cormac Fitzgeoffrey são a mais crua desmistificação das Cruzadas e, falando em contos perfeitos, O Fogo de Assurbanipal – uma aventura “contemporânea” (do autor) passada no Oriente Médio – é mais um para a lista.

Karl Edward Wagner, por sua vez, é um autor menos conhecido, mas para mim é o maior nome da Fantasia pós-Howard. Sua principal criação, Kane, o espadachim imortal, mistura o mito bíblico da expulsão do Éden ao niilismo lovecraftiano, numa combinação poderosa. Kane é um anti-heroi, muitas vezes um vilão trágico dentro das próprias aventuras, e é um personagem que eu adoraria ter criado.

Kane, de Karl Edward Wagner

Draco: e de Fantasia é isso? Nada de Tolkien, Moorcock, Martin…?

Poderia acrescentar o Fritz Leiber à minha lista de fantasistas favoritos, mas faz um tempo que não releio nada dele. Quanto ao Tolkien, li O Senhor dos Anéis na época em que saiu a tradução da Martins Fontes, acho que no século passado, achei legal e tal, mas nunca senti vontade de retornar aos livros. Todos os autores que estou citando neste “Top 5” são gente que releio com frequência, e ele certamente não se qualifica. Cá entre nós (e todos os demais leitores deste blog) sempre achei esse negócio de “raças” de Fantasia de uma babaquice atroz. Sei que é comum tirar sarro de quem reclama de racismo na fantasia, mas a ideia por trás das raças – de que há diferentes “tipos” de gente, e que é possível deduzir o “tipo”, incluindo talentos, pendores e traços de caráter, por meio da aparência física de base  hereditária – é racista, e pronto.

De Michael Moorcock eu gosto muito, mas muito mesmo, do Oswald Bastable, um personagem que viaja entre passados alternativos da Terra, geralmente com uma forte pegada steampunk. Em segundo lugar vem o Kane de Marte Antigo. O Elric, sinceramente, acho meio maçante. Martin? Não li. Talvez leia. Mas a fila é grande, o tempo é curto e a prioridade, ao menos por ora, é baixa.

Elric, o guerreiro-imperador-bruxo-albino

4– Mickey Spillane

Spillane é ruim. Mas é tão ruim que é bom. Bom? É ótimo. Na série Mike Hammer, especificamente, Spillane cria uma espécie de “realidade alternativa” onde todas as fantasias reacionárias mais grotescas – bandido bom é bandido morto, mulher honesta se mantém virgem até o casamento, todo esquerdista é um salafrário ou um idiota – e que, por obra e arte de seu talento, e da sinceridade que injeta ali, a coisa funciona. Os livros são violentos, misóginos e (em pelo menos um caso, onde o assassino é um travesti que quase consegue seduzir o machão Hammer) homofóbicos, mas o autor não está discursando para o mundo real, fazendo um sermão, como Tolkien, por exemplo: está dialogando, e isso faz diferença. Hammer se apaixona pelo travesti e, ainda que acabe por matá-lo no final, essa vulnerabilidade (para um personagem assim, trata-se de uma tremenda vulnerabilidade) lhe dá uma estatura maior.

Ao contrário de Don Pendleton, o criador de outra série policial extremamente violenta e reacionária, a do Executor, que morreu e uma equipe continuou a escrever os livros sem que os leitores sequer notassem, Spillane tinha um estilo único: Max Allan Collins está editando algumas obras póstumas dele, mas Mike Hammer não se presta a uma franquia. Spillane tinha uma Voz. Como Conan Doyle, era um narrador nato. Imagino que isso é o que realmente me atrai nele.

Hammer no cinema

5– Philip José Farmer

Farmer costuma ser apresentado como o cara que trouxe o sexo para dentro da ficção científica americana, e imagino que isso realmente tenha tido lá sua importância histórica, mas – além do fato de ele ser, assim como todos os demais membros desta lista, um narrador de primeira linha – o que realmente me atrai, em sua obra, são, primeiro, a paixão desbragada pela aventura: Farmer cria mundos que são verdadeiros playgrounds para aventureiros, planetas e, às vezes, universos inteiros que não são nada além de sequências de armadilhas letais. Em segundo lugar, a forma como ele usa essas aventuras, e esses universos, para explorar, de modo muito concreto, questões metafísicas como a dualidade corpo-espírito, a natureza última da realidade, a possibilidade de castigo ou recompensa após a morte… Todos esses problemas ganham forma muito sólida, tecnológica, em seus livros – como no caso da saga do Mundo do Rio – e seus heróis tratam de tentar resolvê-los ao mesmo tempo em que saltam sobre poços sem fundo e duelam com cimitarras.

Série Riverworld, de Farmer

Draco: Essas são questões que você também aborda, algumas vezes.

Acho que os leitores vão ver isso de modo mais claro na coletânea Campo Total, onde há um conto, dedicado ao Farmer, aliás, que explora um pouco a questão da comunicação com os mortos. Quando comecei a escrever ficção científica, minha postura era tentar manter um certo agnosticismo ostensivo na obra, mas de repente reparei que havia proselitismo de todo tipo pululando no que os outros escreviam, de catolicismo conservador a sensibilidade New Age, e pensei, ora bolas, se os outros podem, por que não eu? Muita coisa de Campo Total, e também o meu material que aparece em Fantasias Urbanas e Brinquedos Mortais, reflete isso.

Draco: e esse seu ponto de vista seria…?

O Universo natural é tudo o que existe e está pouco se lixando para nós. Pode chamar de ateísmo cientificista se quiser, não vou me ofender.

Draco: da lista de cinco, só um escritor fortemente identificado com a ficção científica, e o último, ainda por cima. Você não lê mais o gênero?

Eu praticamente parei de ler ficção científica. Meu principal consumo, atualmente, é de não ficção – leio muita coisa de divulgação científica, lógica, mitologia (que é um tipo de ficção, mas enfim…) – seguido por crime e mistério. Fantasia e terror, às vezes. Ficção científica, mesmo, só muito de vez em quando. Isso começou como uma espécie de decisão consciente, depois que vi em algum lugar uma declaração do Bruce Sterling em que ele dizia que tinha começado a escrever coisas realmente interessantes depois de “parar de ler o que os fãs leem” e de começar a ler “o que os escritores leem”.

Depois a decisão virou hábito, e hoje em dia, em termos de fc, o que faço basicamente é acompanhar de longe a produção de alguns autores vivos que me interessam pessoalmente, que são o Greg Egan e o Peter Watts. Blindsight, do Watts, foi o último romance de fc de um autor vivo que realmente me impressionou. Mas, de novo, não ando lendo tantos romances de fc assim.

Carlos Orsi, natural de Jundiaí (SP), é jornalista especializado em cobertura de temas científicos e escritor. Já publicou os volumes de contos Medo, Mistério e Morte (1996) e Tempos de Fúria (2005). Seus trabalhos de ficção aparecem em antologias, revistas e fanzines no Brasil e no exterior. Pela Draco, publicou em Imaginários 1, Vaporpunk, Dieselpunk, Sherlock Holmes: Aventuras Secretas, Guerra Justa e As Dez Torres de Sangue. pode conhecer esses trabalhos clicando aqui.

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