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Guia de sexo terrestre para a alienígena solteira

Em sua essência mais fundamental, o tema recorrente do sexo com extra-humanos — quer sob forma de alienígenas, máquinas ou monstros sobrenaturais — representa o amálgama de temor e desejo pelo outro, pelo diferente.  Medo e atração pelo extra-humano constituiriam, então, manifestações subliminares do desejo, nem sempre consciente, de experimentar os prazeres e os riscos inerentes à capacidade sexual sobre-humana.  É possível traçar uma analogia dessa fusão contraditória de medo e desejo com a curiosidade estereotipada e permeada de temor que o colonizador europeu nutria em relação às práticas sexuais dos nativos de outras terras e culturas e, sobretudo, às práticas sexuais com os referidos nativos.

No que concerne especificamente aos relacionamentos sexuais e afetivos entre humanos e alienígenas, embora o tema não seja novo, constitui um dos filões mais fecundos da ficção científica atual, tanto em sua expressão literária quanto na cinematográfica.

Muito já foi escrito e filmado nas últimas seis décadas, desde 1953, ano em que Philip José Farmer publicou “The Lovers” na revista Starling Stories. [1] . Considerado um marco pioneiro, a novela exibe um humano oriundo de uma sociedade teocrática do futuro copulando prazerosa e desavergonhadamente com uma alienígena muito mais gostosa do que a mulher ideal.

Hoje o tema do sexo com alienígenas já não é mais tabu e Farmer não está mais sozinho nesse subgênero da FC Erótica.  Contudo, segundo muitos estudiosos, até hoje ninguém conseguiu superar o velho mestre, quer na diversidade de morfologias, comportamentos e relacionamentos abordados, quer na ousadia e qualidade literária dos enredos.

Tabus à parte, cinema e literatura vêm encarando o sexo alienígena sob ópticas distintas.  Algumas das diferenças de tratamento existentes entre as duas mídias apresentam aspectos curiosos.  Nos filmes, por exemplo, é quase sempre o alienígena que cobiça a humana, raramente o contrário.  É provável que esta predileção cinematográfica seja fruto de uma tradição herdada da própria literatura.  Uma tendência já antevista nas capas, mas não nos enredos, dos antigos science-fiction pulp magazines, onde, não raro, apareciam belas mocinhas em trajes sumários, supostamente futuristas, debatendo-se em pânico, ora nas manoplas de robôs descontrolados, ora nos tentáculos lascivos de monstros alienígenas salivando de más intenções.  É claro que essas capas funcionavam como chamariz para atrair leitores neófitos, não correspondendo em absoluto aos enredos dos contos impressos no papel barato (o tal pulp) do interior das revistas.  Recurso mercadológico que hoje em dia não hesitaríamos em classificar como propaganda enganosa.  Mera artimanha para vender mais revistas a um público composto essencialmente por adolescentes do sexo masculino.

É interessante questionar o motivo de uma pretensa maior aceitação, por parte do público consumidor de filmes de FC, da idéia de machos alienígenas sequiosos para se relacionar com humanas, em relação ao conceito oposto: humanos copulando com fêmeas alienígenas.

Talvez não se trate de mero chauvinismo do cinema de FC, desde as produções B da década de 1950 até hoje.  Para além da influência das capas provocantes das pulp magazines, é provável que a origem dessa fixação cinematográfica no macho alienígena resida no estabelecimento de um paralelo entre fato histórico e especulação futurista: a transposição de uma cadeia de eventos do passado para tramas que pretendem retratar um futuro mais ou menos remoto.  Porque, não obstante o fenômeno E.T. — O Extraterrestre, a intelligentzia de Hollywood ainda representa a maioria dos alienígenas como criaturas brutais, munidas de tecnologia superior, talvez até de certo senso de honra, mas inteiramente desprovidas dos valores éticos que, supostamente, constituiriam marca registrada exclusiva dos seres humanos.  O alienígena desempenharia então um papel essencialmente análogo ao do conquistador europeu no Novo Mundo.  Como bem sabemos, eram os homens europeus que, via de regra, aliciavam ameríndias e polinésias.  Sempre questionei a veracidade de boa parte dos relatos sobre peles-vermelhas raptando mulheres caras-pálidas.  Se duvidar, não passam de tramas inventadas em Hollywood.  Ou, na melhor das hipóteses, caso tais raptos tenham ocorrido na realidade — afinal, como o estudioso Dee Brown bem colocou em seu Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, há pouquíssimos casos documentados — o número de ocorrências foi bastante exagerado.  Ademais, trata-se de prática cultural aprendida com os próprios europeus, à semelhança do escalpo, da utilização de armas de fogo e da domesticação de cavalos.

Já na expressão literária da FC, onde há liberdade para o desenvolvimento de um maior número de subtemáticas, o clichê cinematográfico (alien) boy meets (human) girl não é o tipo de enredo dominante dentro da temática do sexo alienígena, muito embora a seleção de contos em algumas antologias eróticas pareça indicar o contrário.

Nas duas mídias há relacionamentos explícitos, onde o ato sexual é de fato consumado, bem como relacionamentos platônicos, onde o desenlace óbvio é vedado ao leitor/espectador, ora por motivos estilísticos, porém, mais comumente, devido a pudores equivocados de caráter autoral ou editorial.

Em termos de sexo interespecífico, há as relações com parceiros que classificamos como alienígenas propriamente ditos, e aquelas consumadas com terrígenas, isto é, personagens pertencentes a espécies racionais não humanas de origem terrestre.

 

Sexo com Alienígenas Propriamente Ditos

Num certo sentido, o cinema tem mostrado habitualmente menos pudor do que alguns autores de FC literária, no que diz respeito à relação sexo-afetiva entre humanos e alienígenas.  Afinal, nos filmes há bem poucos casos de relacionamento platônico.  Em contrapartida, o cinema demonstra mais chauvinismo do que a palavra impressa.  Além da predileção supracitada de projetar machos alienígenas copulando com humanas não raro ávidas (mas não o contrário), os enredos são em sua maioria pouco convincentes e, em geral, coalhados de preconceitos sexistas.

A síndrome do macho alienígena irresistível não constitui fenômeno cinematográfico recente.  No filme B I Married a Monster from Outer Space (1958), uma noivinha norte-americana típica dos anos 50 (i.e, virgem) descobre que seu futuro marido foi substituído por um alienígena às vésperas do casamento.  A criatura pretende fecundá-la à força, sob pretexto da necessidade de repovoar seu mundo com a prole oriunda daquela e de outras uniões do gênero.  Trata-se de um exemplo clássico da falácia do acasalamento interespecífico, tese que advoga a possibilidade da geração de uma prole advinda da cópula entre indivíduos de espécies muito mais diferentes do que, digamos, ornitorrincos e begônias.

Não custa lembrar que, em termos concretos, um alienígena hipotético seria fruto de bilhões de anos de evolução numa biosfera distinta da nossa.  Com toda a probabilidade, em termos genéticos e moleculares — porque agora estamos falando em gerar prole e não apenas em copular — nós humanos guardamos semelhanças maiores com os vegetais, cogumelos ou protozoários da Terra do que com uma criatura humanóide alienígena.  O fato é que, mesmo com auxílio de técnicas de engenharia genética muito mais sofisticadas do que as disponíveis num futuro previsível, o êxito na geração de uma prole híbrida oriunda do cruzamento entre humanos e alienígenas é um bocado mais difícil de obter do que a presença do híbrido Sr. Spock no passadiço da Enterprise quer nos fazer supor.

No filme O Homem que Caiu na Terra (1976), o protagonista é um alien humanoide bígamo: abandonou fêmea e prole em seu mundo desértico, para pular a cerca na Terra com uma jovem humana.  No entanto, o personagem vivido pelo eclético David Bowie não nutre o menor interesse procriativo; prazer é o que conta.  Estamos diante de turismo sexual em âmbito interestelar.

Já em ambas as versões da série televisiva V – A Batalha Final (1983 e 2009), em mais um péssimo exemplo da falácia citada, um alienígena reptiliano fecunda uma humana e dessa união nascem duas crianças híbridas (versão de 1983).  Pior é que este nem foi o furo mais grave do roteiro.

A solução ideal para o dilema da F.A.I. foi apresentada pela primeira vez no cinema em Starman (1982): uma criatura alienígena energética engravida uma humana, após encarnar no clone do finado marido da moça, engendrado a partir do DNA extraído de um fio de cabelo do de cujus, encontrado numa fresta do assoalho.

Uma exceção notável à mítica do macho alienígena irresistível é a híbrida humana-alienígena Sil, do filme A Experiência (1995).  Criada a partir da decodificação de uma transmissão extraterrestre, cujas instruções detalhavam como montar DNA alienígena e fundir esse DNA com o DNA humano, Sil é uma jovem bela e inteligente, uma humana aparentemente normal.  A questão é que as aparências enganam: a híbrida logo revela seu lado monstruoso de fêmea alienígena alucinada para acasalar com um humano a qualquer custo.

No que concerne a literatura de FC, encontramos tanto exemplos de platonismo extremo quanto de sexo explícito, com paradas em todas as estações intermediárias.

No conto “Kyrie” (1960), Poul Anderson nos fala do amor platônico entre uma telepata humana e um alienígena, cuja aparência é a de uma esfera brilhante de plasma complexo que singra o vácuo interestelar.

Na noveleta “Open to Me, My Sister” (1960), ao propor uma das formas de reprodução mais sofisticadas da FC, Farmer consegue manter a tensão erótica no máximo ao colocar juntos num planeta isolado um humano e um alienígena humanóide monossexual, cujos caracteres morfológicos externos são bastante femininos.  Fato raro no corpus da obra do autor: apesar do conteúdo erótico elevado, o affair não decola do estágio platônico.

Também permanece apenas na vontade a relação física entre um humano e um humanóide bissexual em sua fase feminina no romance A Mão Esquerda da Escuridão (1969), de  Ursula K. Le Guin.  Uma situação ainda mais nebulosa é a do namoro de um jovem oficial humano com a filha atraente de um diplomata tymbrimi, apresentado por David Brin no romance The Uplift War (1987).  Um leitor incauto poderia se perguntar se os dois chegaram a transar ou não.  Bem, depende do que se entende por relação sexual.  O autor deixa claro que não houve penetração, a própria tymbrimi se confessa fisicamente incapaz de satisfazer seu parceiro neste pormenor.  Contudo, copular, transar, fazer amor é bem mais do que isso, certo?  De qualquer modo, pinta um tremendo clima de tensão sexual entre os dois.

*     *     *

 

Na zoologia do mundo real, a cópula entre mamíferos de espécies distintas ocorre apenas em situações-limite bastante específicas, como, por exemplo, quando dois animais de espécies diferentes são mantidos juntos por longos períodos em cativeiro.  É o que ocorre geralmente nos zoológicos e circos de alguns países, onde nascem, por exemplo, tigões e ligres, híbridos oriundos do cruzamento entre tigres e leões.  Os etólogos afirmam que esse comportamento é fruto da síndrome de abstinência sexual.[2]

Há algum tempo, os autores de FC começaram a arbitrar este exato padrão de comportamento também para as criaturas racionais, humanas e alienígenas, apresentadas em seus enredos.  Embora não exista mais o escrúpulo de se abordar a cópula humano-alienígena em termos explícitos, na maioria das vezes, o intercurso só se torna palatável quando o(a) humano(a) e a(o) alienígena estão juntos e isolados dos demais indivíduos de suas respectivas espécies.  É a situação que apresento no romance A Guardiã da Memória (2011).  Confinada durante meses a fio no camarote exíguo de uma embarcação alienígena, com apenas um centauro da espécie dos renatos por companhia, a operativa humana Clara acaba colocando seus preconceitos especistas de lado e se apaixonando pelo quadrúpede, não obstante o clima de inimizade reinante entre centauroides e humanoides tanto em Ahapooka, planeta que ambos habitam quanto Via Láctea afora.

Contudo, a atenuante do confinamento involuntário, nem sempre pode ser alegada como desculpa.  Há enredos em que o alienígena mimetiza um ser humano e copula com o(a) ingênuo(a), que se deixa iludir, bem ao estilo do me-engana-que-eu-gosto.  É o que Robert Silverberg nos mostra em sua noveleta “The Soul-Painter and the Shapeshifter”, publicado em sua coletânea Majipoor Chronicles (1981), onde um pintor anímico humano é ludibriado por uma metamorfa, fêmea da espécie racional autóctone do planeta Majipoor, cujos membros possuem a habilidade de mimetizar a forma exterior humana.  Ambos se apaixonam e decidem viver juntos.  A felicidade perdura até que o humano é forçado a encarar momentaneamente a aparência real de sua amada.  Depois disso, as coisas jamais voltam a ser as mesmas e eles acabam se separando.  Na noveleta “Shelob” (2002) de Sacha Ramos, a fêmea alienígena emprega um engodo superficialmente análogo ao inventado pela metamorfa de Silverberg para envolver seu parceiro humano, com resultados muito mais satisfatórios, mas igualmente inesperados.

Em sua obra seminal, Farmer já se havia deparado com a falácia da procriação interespecífica e idealizado a solução mais elegante e genial de toda a FC erótica.  Em Os Amantes do Ano 3050, os frutos resultantes da união do humano crescido numa sociedade teocrática brutal com a alienígena lalitha são literalmente a “carinha do papai”, embora não contenham uma única molécula de material genético humano.

Na noveleta “Mother” (1953), Farmer volta a abordar o tema do relacionamento sexual humano-alienígena.  Apesar de não haver intercurso, a relação é ainda mais íntima e mais estranha do que tudo que a FC já exibira anteriormente: um humano é mantido prisioneiro no interior de uma criatura racional semelhante a um útero gigante.  Curiosamente, a situação não desagrada o protagonista, em absoluto.  Muito ao contrário.  Complexo de Édipo elevado à enésima potência.  O fato é que, rompendo a membrana de um órgão interno da criatura hospedeira, o humano libera o material genético do macho daquela espécie alienígena, ali guardado, possibilitando a fecundação dos óvulos da fêmea que o abrigava.

Em seu romance A História É Outra (1961) Fritz Leiber nos mostra uma humana sexualmente envolvida com um lunar, criatura racional multitentacular de 230 centímetros de altura e 25 Kg de massa, que teria habitado a Lua bilhões de anos atrás.  A jovem parece não ter queixas, pois, segundo ela, o alienígena é extremamente suave e habilidoso com os tentáculos.  Não descarto a possibilidade de que existam ecos remotos inconscientes deste mesmo argumento elogioso nas ações de Clara, protagonista de A Guardiã da Memória.

Mais conhecido como antigo editor da Asimov’s, o autor de ficção científica Gardner Dozois propôs em seu Strangers (1974) um enredo algo similar ao Amantes do Ano 3050 de Farmer.  A coincidência, contudo, limita-se ao destino reservado às amantes alienígenas, em virtude da ignorância de seus parceiros humanos, pois o status da humanidade ante os alienígenas em questão é bem distintos nos dois romances.  A espécie da alienígena gostosa proposta por Dozois evoluiu a partir de vertebrados homeotérmicos semiaquáticos e não insetoides, como a lalitha de Farmer.

Uma terceira variação dentro do tema de humanos enamorados por alienígenas apetitosas é a novela “The Color of Neanderthal Eyes” (1990) da James Tiptree, Jr.  A autora (em verdade, Alice Sheldon, que escreve aqui sob pseudônimo masculino) relata o affair de um telepata humano com uma fêmea alienígena de uma espécie anfíbia que evoluiu a partir dos peixes teleósteos.  Tiptree também incide na F.A.I. e, ao contrário de Farmer e Dozois, falha miseravelmente em superar a falácia com uma solução brilhante.  Quanto aos neandertais do título, mero engodo.  Os Homo sapiens neandertalensis não dão as caras na novela.

Na ficção científica brasileira, quem de fato mete o pé na jaca da falácia supracitada é Dinah Silveira de Queiroz na noveleta “Eles Herdarão a Terra” (1960), onde um alienígena humanoide com poderes telepáticos atuando na Terra como batedor para pavimentar a futura invasão, rapta uma jovem humana para fins procriativos bem debaixo das fuças do irmão dela, que trabalha como vigia do farol de uma ilha isolada.  É bem possível que a autora tenha se inspirado no filme B daquela época, I Married a Monster from Outer Space.

Em “Última Estrela” (1976), Fausto Cunha brinda o leitor com a realização de uma fantasia masculina clássica: após uma sessão de sexo animada com sua cientista-chefe, o comandante de uma nave de pesquisas humana desperta de madrugada e se percebe recebendo sexo oral.  Na manhã seguinte descobre que a amante humana não teve nada a ver com a felação.  A dose de prazer misterioso fora concedida por uma capelliana, fêmea humanoide de um metro de altura, nativa do planeta explorado pelos humanos.

Silverberg apresenta outro relacionamento interespecífico em Majipoor Chronicles.  No conto “Thesme and the Ghayrog”, o autor inverte a situação sexual mostrada em “The Soul-Painter and the Shapeshifter”.  Agora é Thesme, uma jovem chegada à contracultura que divide sua cabana e sua vida com um ghayrog, bípede racional homeotérmico ovíparo, de aspecto exterior reptiliano.  A aproximação inicial se dá por conta de um acidente sofrido pelo alienígena, que o deixa entrevado.  A humana lhe presta os primeiros socorros e, sem alternativa, abriga o ghayrog na cabana.  Como uma coisa leva à outra, os dois acabam se tornando amantes.  Surpresa, Thesme descobre que, conquanto metódica, a cópula com o alienígena é mais prazerosa e gratificante do que a maioria das experiências com seus amantes humanos anteriores.

Resumo da ópera: o sexo interespecífico pode constituir uma experiência muito excitante e agradável.  Em teoria.

E na prática?

Será que pintaria atração sexual — mecanismo em geral inspirado mais por atributos meramente físicos do que por qualquer outra coisa — entre criaturas tão distintas quanto humanos e alienígenas?

Se querem um palpite, provavelmente, não.

Neste sentido, a resposta perspicaz do ghayrog a uma questão desse tipo levantada por Thesme é emblemática:

 

“Você é humana. Como é que eu posso sentir desejo por um ser humano?  Você é tão diferente de mim, Thesme.”

 

No entanto, mais preocupada com desempenho do que com aparências, a hiponga extraía muito prazer da relação.  Até o dia em que aparece uma fêmea ghayrog e… bem, compre a coletânea e leia a história!

*     *     *

 

Não obstante o consenso relativo de que, sob condições normais, a maioria dos seres humanos não sentiria atração sexual por alienígenas, é de todo provável que pelo menos alguns humanos sentiriam.  Afinal, ao longo de sua animada história sexual, nossa espécie se notabilizou por comportamentos desviantes.  Portanto, é de se supor que pelo menos alguns indivíduos apreciassem copular, eventual ou preferencialmente, com parceiros alienígenas.

De fato, a vertente literária da ficção científica expressou diversas vezes essa predileção hipotética.

Além disso, independente de nossos preconceitos e preferências sexuais, pode haver alienígenas dispostos copular conosco.  Alienígenas tão persuasivos quanto os oankalis criados por Octavia E. Butler em sua trilogia Xenogenesis: Dawn (1987), Adulthood Rites (1988) e Imago (1989).  Esses alienígenas humanoides exercem a pior forma possível de dominação sobre os últimos resquícios da espécie humana.  Após salvar as vidas dos últimos sobreviventes do holocausto nuclear e ambiental terrestre, os oankalis transformam esse punhado de humanos em parceiros sexuais compulsórios e fontes de material genético para a produção de híbridos humano-alienígenas.  Mestres consumados da engenharia genética, ao longo de milhões de anos de história os oankalis se viciaram em misturar suas características com as de diversas espécies racionais alienígenas vassalas e, ao dominarem as biologias de suas presas, os oankalis exercem atração irresistível para transformá-las em parceiros, fundindo seus descendentes com os deles.  Afinal de contas, quem controla os ciclos metabólicos e hormonais de um indivíduo, controla os impulsos sexuais desse indivíduo e, quem controla a sexualidade de uma pessoa, faz dela gato e sapato.  É exatamente este tipo de poder que os oankalis exercem sob seus amantes humanos.

No entanto, nem todos os alienígenas xenofílicos querem nos absorver tão inteiramente quanto os oankalis de Butler.  Por exemplo, em “None of the Above” (1993) de Bernadette Bosky, eles só desejam ter prazer conosco.  A protagonista é uma humana de classe média convidada para uma suruba na casa de uma amiga rica.  Até aí, tudo bem.  Só que ela não esperava ser oferecida como iguaria principal aos convidados de honra Hiyo, espécie alienígena que se divide em dois sexos que pouco tem a ver com os nossos.

A xenofilia não constitui uma predileção exclusivamente alienígena.  Também há humanos que apreciam essa fruta.  Em “And I Woke and Found me Here on the Cold Hill’s Side” (1971), James Tiptree, Jr. fala de um humano xenofílico que abandona família, emprego e tudo mais para se dedicar ao amor e ao sexo com alienígenas de diversas espécies.  Meu protagonista em “A Melhor Diversão da Cidade” (2002) não faz uma opção tão radical.  Trata-se de um humano que serve a bordo de um barco fluvial de tripulação poliespecífica.  O tipo de sujeito que aprecia desfrutar de uma alienígena em cada porto.  Até o dia em que se depara com uma calífaga, a estonteante Tee’lak e tem com ela a melhor noite de amor de sua vida, só que as consequências não são lá muito agradáveis.

Há ocasiões em que a xenofilia acomete um humano involuntariamente, como ocorre com a protagonista humana de “The Tattooist” (1996) de Susan Wade.  A jovem é contratada por um alienígena para tatuar seu membro, de modo a torná-lo semelhante a um pênis humano.  Após certa hesitação, ante a paga avultada, resolve assumir a tarefa como desafio.  Como afirma o velho ditado, “há pessoas que só estão à espera de um pretexto.”  Enfim, o cerce do conto trata da dificuldade deliciosa que avassala a tatuadora: cada vez que toca o órgão do sujeito, ela é acometida por um orgasmo violentíssimo.  Assim, também, não há quem resista…

Voltando aos alienígenas xenofílicos, em The Image of the Beast (1968) e Blown (1969) Philip José Farmer apresenta um grupo de entidades pretensamente sobrenaturais que adora praticar sexo com humanos.  No primeiro romance, os alienígenas metamorfos se exibem travestidos de vampiros, lobisomens, lâmias e outros monstros.  Já no segundo, o detetive humano que protagoniza os dois trabalhos desvenda a natureza alienígena das criaturas.  Aliás, numa das primeiras cenas do segundo romance, o pobre detetive participa de uma das cópulas mais ousadas da ficção científica erótica.  Ao fim de uma transa prazerosa com uma metamorfa irresistível, nosso herói acaba sodomizado por uma robusta criatura serpentiforme que emerge da vagina da parceira.  Mais de quarenta anos atrás, o velho sátiro da FC erótica já estava em sua melhor forma.

Relações homossexuais entre parceiros humanos e alienígenas constituem relativa raridade na ficção científica.  Uma explicação plausível para essa escassez talvez resida no fato de que o tabu da xenofilia ser assustador e proibido o bastante para ofuscar o tabu mais brando e prosaico da homossexualidade.  Uma exceção brilhante se dá em Ring of Swords (1993), obra-prima de Eleanor Arnason, que exibe o relacionamento homossexual entre um ex-operativo humano e um alienígena humanoide de uma espécie militarista, os hwarhath.  Após sua captura pelo inimigo alienígena, um linguista da agência de inteligência humana é submetido a períodos prolongados de tortura, mas acaba por se tornar amante do comandante do esforço de guerra hwarhath, membro de uma cultura alienígena que classifica a heterossexualidade como perversão sexual, mal e mal tolerada para fins estritamente reprodutivos.  Para leitores que apreciam FC de cunho sociológico e antropológico, como a escrita por Ursula K. Le Guin, os trabalhos de Arnason constituem um prato cheio.  Ring of Swords é um dos dois melhores romances da autora, segundo vários estudiosos, trata-se do romance de FC que apresenta a sociedade e cultura alienígenas mais consistentes em termos psicológicos e comportamentais da história do gênero.

Dentre os autores lusófonos, Adriana Simon parece ter sido a única a exibir cópulas entre humanos e alienígena com elementos homossexuais, em seu conto ousado, “Dainara” (2002).

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A insinuação de estupro iminente é velha conhecida dos fãs que tiveram algum contato com as ilustrações das capas dos magazines de ficção científica desde a década de 1920 até o início dos anos 50.  No que se pese que, nos textos em si, a FC daquela época pré-farmeriana era ingênua demais para abordar temáticas sexuais de qualquer natureza, que se dirá do estupro de seres humanos por alienígenas.  No entanto, os tempos mudaram e os costumes evoluíram ou, segundo os conservadores, degeneraram.  De um modo ou de outro, as coisas jamais voltaram a ser as mesmas, desde que Farmer publicou sua novela seminal (nos dois sentidos), inaugurando o subgênero da FC erótica.

Tabus derrubados, hoje em dia o tema do estupro é tratado sem maiores escrúpulos, a ponto de a abordagem convencional deste tema já se ter tornado lugar-comum na FC erótica.  Por isso, o que chama atenção agora é justamente a sutileza do tratamento não-convencional, como acontece no conto de Pat Cadigan, “Roadside Rescue” (1985).  O propósito da história é nos convencer de que os conceitos de sexo em geral e estupro em particular, são bem mais abrangentes do que supõe nossa vã sexologia.  Cadigan advoga brilhantemente em favor da tese de que cumpre considerar estupro qualquer ato sexual não consentido, mesmo quando não reconhecido como tal.

No entanto, a percepção de Cadigan constitui paradigma recente.  Quem milita no gênero há mais tempo sabe que as coisas nem sempre foram assim.  Uma visão mais indulgente do estupro é apresentada por uma autora veterana, Anne McCaffrey, em “The Thorns of Barevi” (1970), onde, após ser capturada como escrava por mercenários alienígenas, uma humana consegue escapar e começa a se relacionar com um fugitivo da espécie de seus antigos captores.  Estuprada, acaba desfrutando a experiência.  Numa época de correção política extremada, este é o tipo de ficção científica que autoras atuais, como Cadigan, feministas engajadas ou não, provavelmente não escreveriam.

Harlan Ellison vale-se do humor ferino para contar a história de Fim do Mundo mais divertida dos últimos tempos, “How’s the Night Life on Cissalda?” (1977).  O conto começa quando um crononauta humano regressa de uma viagem tempo-dimensional em estado de êxtase sexual, firmemente “engatado” numa alienígena de aparência hedionda.  Em questão de dias, a Terra é invadida, por assim dizer, pelos cissaldianos, criaturas bissexuais extremamente versáteis em termos eróticos, cujo único objetivo é proporcionar prazer físico à humanidade.  Não é preciso muito esforço para imaginar que, em termos individuais, o sexo compulsivo e compulsório logo deixa de constituir prazer para se tornar uma autêntica tortura.  Já em termos globais, a obsessão generalizada por sexo xenofílico representa o fim da vida humana na Terra.  A situação não é tão inverossímil quanto parece.  Trata-se antes da transposição bem-humorada e divertida para o universo humano, das experiências de superestimulação dos centros de prazer do cérebro, realizadas em animais de laboratório desde a década de 1960.  Um dos aspectos mais hilários desse conto é examinar as intimidades sexuais das figuras famosas do cenário norte-americano e internacional, pessoas que o leitor normalmente não imaginaria fazendo sexo, muito menos em estado de êxtase compulsivo.

Se Ellison propõe o Fim do Mundo como resultado das relações sexuais com alienígenas, Roberta Lannes aborda a mesma questão de um ponto de vista diametralmente oposto no conto “Saving the World at the New Moon Motel” (1990).  O título já diz tudo.  A trama não poderia começar de forma mais clichê: batedor alienígena dentro de bar típico de cidadezinha do Meio Oeste americano.  Ele estuda nossa cultura em busca de pontos fracos que irão facilitar a futura invasão.  No afã de aprender algo de útil sobre a sexualidade humana, acaba de envolvendo com uma esposa corpulenta e mal amada, que acabou de ser passada para trás pelo marido.  A mulher se revela verdadeiramente insaciável e, como era de se esperar, derruba o batedor alienígena.  Moral da história: nada como uma boa dose de ninfomania para salvar a Terra da maneira mais sui generis possível.

Neste ponto de nossa jornada, cumpre firmar um compromisso ético solene.  Considerando que há alienígenas e alienígenas, uma vez comprovado que determinado operativo atuando sob disfarce na Terra não nutre intenção malévola contra a humanidade, a atitude mais ética e correta consiste em alertá-los quanto ao fato de que doses excessivas de sexo e paixão com uma humana ávida podem conduzir suas missões ao malogro completo.  Um operativo que incide nesse tipo de erro é o crustaceoide inteligente que protagoniza “The Reality Trip” (1970), de Robert Silverberg.  Atuando sob disfarce humano, ao experimentar os prazeres da cópula com humanas, o agente em questão permite inadvertidamente que uma poetisa terrestre se apaixone por ele, colocando toda sua missão de observação a perder.  Já o humanoide telepata que atuava na Terra em segredo, no conto “Mulher Terrestre” (1967) de Reginald Bretnor, executa uma pesquisa de campo em nosso planeta sobre as relações sexuais entre humanos para determinar se é possível existir amor verdadeiro sem comunhão telepática.  Daí, para o cientista de moral ilibada degustar uma de suas cobaias é um pulo…

Em “J.C. on the Dude Ranch” (1979), Farmer teve a audácia de misturar xenofilia aos ícones venerandos do western e da religião.  Um extraterrestre parecido com Tom Mix — com a ligeira (mas, de modo algum, pequena) diferença de possuir dois pênis gigantescos e uma auréola angelical — rastreia um fora-da-lei de sua própria espécie no Oeste Americano de meados do século XX.  Graças ao auxílio involuntário de uma cinquentona ninfomaníaca, que conduz o malfeitor à completa exaustão sexual[3], nosso herói consegue capturá-lo, levando-o preso para o mundo natal de ambos.

Larry Niven não livra a cara do Super-Homem no conto humorístico “Man of Steel, Woman of Kleenex” (1971).  Escrito sob forma de artigo de especulação científica, o trabalho reúne um conjunto de divagações sobre os resultados prováveis da cópula de Lois Lane com o kriptoniano Kal-El, que também atende pela alcunha de “Super-Homem”.  O que seria de Ms. Lane, de Metrópolis e do Mundo Livre, caso Super-Homem cedesse aos encantos de sua grande paixão?  Niven tenta responder a esta e outras perguntas correlatas, partindo de uns poucos pressupostos lógicos.  Embora o conto de Niven constitua diversão garantida, terrivelmente mais plausível e, portanto, nem um pouco engraçado e, ainda assim ou talvez por isto, excelente, é a especulação elaborada por Fábio Fernandes em “A Paixão Segundo S.H.” (2002), uma homenagem para lá de marota a Clarice Lispector.

Há ocasiões extremas em que paixões impossíveis levam os amantes ao desespero, sentimento que, não raro, resulta num pacto de morte.  É o que acontece no relacionamento entre um astronauta humano náufrago num planeta hostil e uma bela humanóide anfíbia nativa do oceano interno daquele mundo, apresentado por Laurence Yep no conto “Looking-Glass Sea” (1972).  A história possui o encanto e a pungência dos grandes amores impossíveis. Incapazes de sequer se tocarem fora de seus trajes espaciais, mas intimamente ligados por um vínculo telepático profundo, os dois amantes decidem sacrificar as próprias existências em prol de um breve momento de intimidade.  Assim, emergem de seus trajes e se reúnem num mesmo ambiente, não obstante o fato de que a mistura atmosférica que cada um deles respira ser letal para o parceiro.[4]

 

Sexo com Terrígenas Extra-Humanos

Em muitos enredos, o relacionamento sexo-afetivo interespecífico não é do tipo humano-alienígena.  Ao contrário, em vez de extraterreno, o parceiro é terrígena, ou seja, uma criatura inteligente não-humana que teria evoluído em nosso planeta.

Este tipo de relação remonta aos tempos idos de King Kong (1933), mais tarde refilmado em 1976 e 2005.  O envolvimento entre a protagonista humana e o supergorila de doze metros de altura estava fadado ao platonismo por questão de impossibilidade anatômica.

Também platônica foi a relação retratada em O Monstro da Lagoa Negra (1954), onde um humanóide anfíbio de aspecto vagamente reptiliano desenvolve atração intensa por uma bela humana em trajes de banho.  Apesar dos arroubos pungentes da criatura ousada para seduzir sua amada, o relacionamento não sai do zero a zero.  Ainda assim, a cena da jovem de maiô nadando na lagoa, com a criatura vogando submersa abaixo dela, tornou-se antológica.

Farmer repetiria o platonismo de “Open to me, My Sister”, agora sem alta tensão erótica, em The Stone God Awakens (1970), romance em que o protagonista humano desperta de um período de vinte milhões de anos em animação suspensa sob forma de estátua de pedra, descobrindo que é considerado um deus pelas nações de diversas espécies terrígenas que sucederam a humanidade no domínio da Terra.  Na tentativa de descobrir se outros humanos sobreviveram, acaba liderando a unificação de diversas espécies e nações desse futuro remoto.  Eis que nesse cenário pouco idílico, uma fêmea wufea atraente se enamora pelo deus.  No entanto, como a paixão dessa felinoide bípede sensual não é correspondida pelo humano, o affair estaciona na fase platônica.

Platônico também é o amor do golfinho pela cientista humana no conto despretensioso “Ismael Apaixonado” (1970) de Silverberg.[5]  Não obstante a aparência repugnante da fêmea humana (bastante atraente pelos padrões de sua própria espécie, diga-se de passagem), perdido de amor, o pobre cetáceo logra até mesmo se sentir fisicamente atraído pelo objeto de sua paixão.  Após um gesto heroico, ele acaba passando dos limites e “dando um amasso” na garota.  Para seu desalento, não é correspondido.  A bela cientista humana pretende que eles permaneçam “apenas bons amigos”.

Sem restrições desta ordem, Harry Harrison exibe um humano mesolítico copulando com a líder de uma espécie de dinossauros racionais, as Yilanè, em A Oeste do Éden (1984), belo romance de história natural alternativa que propõe como ponto de divergência a sobrevivência dos dinossauros até os dias atuais.  Quando as Yilanè cruzam o Atlântico a bordo de seus gigantescos ictiossauros simbiontes para descobrir a América, deparam-se com um Novo Mundo repleto de homeotérmicos peludos, inclusive uma curiosa forma bípede semi-inteligente.  Nas Yilanè, somente as fêmeas são plenamente racionais e são os machos que ficam “grávidos”.  Como as demais Yilanè adultas, a governante Vaintè está plenamente acostumada a utilizar os machos de sua própria espécie como objetos de prazer.  Assim, não nutre grandes escrúpulos ao usar e abusar daquela estranha forma de mamífero bípede semirracional.  Para ela, a prática assume contornos antes zoofílicos do que xenofílicos.  Deleite proibido que cumpre manter oculto de suas semelhantes.  O melhor é que Vaintè descobre que copular com um humano é mais prazeroso do que um macho de sua própria espécie, pois, ao contrário dos machos Yilanè, criaturas de sangue frio, o amante humano — como todo bom homeotérmico que se preza — está sempre “quentinho”.  Mais tarde, esse mesmo humano se torna peça fundamental na resistência de seu povo contra as Yilanè.  Curiosamente, embora passe a nutrir ódio visceral pelas dinossauras racionais, seus padrões de beleza física e atração sexual ainda se mostram associados à estética da espécie de sua ex-amante.

Há um elemento em comum entre anfíbios humanóides, dinossauras racionais e golfinhos que se mostram propensos praticar sexo interespecífico conosco: esses amantes em potencial não são primatas.

No entanto, hoje em dia as melhores cotações do mercado de sexo interespecífico terrígena são as dos primatas, mais particularmente, dos hominídeos e dos macacos antropóides.

Como sempre, Farmer abriu caminho na arrancada atual.  Em The Magic Labyrinth (1980), quarto romance de seu genial universo ficcional do Mundo d’O Rio, as proporções anatômicas avantajadas de Joe Miller — um exemplar da espécie Titanthropus clemensi (aparentemente um megantropo) aculturado por humanos — são capazes de humilhar as dos maiores astros da indústria pornô, como tais, são bastante apreciadas por diversas mulheres de nossa própria espécie, embora, verdade seja dita, o bem dotado em questão prime antes pela pujança física invejável do que pelo carisma ou fulgor intelectual.

Segundo as últimas intrigas circulando no Reino Encantado da FC Erótica, outro hominídeo fóssil convidado a participar de relações sexuais interespecíficas com seus primos humanos foi o Homo habilis.  Criado por Michael Bishop no romance Ancient of Days (1985), o espécime em questão, membro desgarrado de uma tribo perdida de habilinos que vai parar no sul dos E.U.A., revela-se muito mais inteligente do que supõe nossa vã antropologia.  Tanto é que aprende a falar inglês com facilidade, passa a utilizar artefatos típicos da civilização moderna e a conviver entre os humanos de igual para igual.  A artista que o auxilia ao longo de seu processo de aprendizagem e socialização termina se apaixonando por ele.  O ponto mais interessante desse romance original é que a história toda é narrada do ponto de vista do ex-marido da artista, que ainda se sente apaixonado e se vê preterido por ela em favor do pré-humano.

Megantropos e habilinos são considerados pré-humanos.  Contudo, o que dizer dos neandertais?

Há certo consenso entre os paleoantropólogos quanto ao fato de que os neandertais eram racionais.  Pelo menos, eles possuíam cérebros tão grandes ou maiores do que os dos humanos modernos.  Será que essa similaridade relativa conosco faria deles parceiros terrígenas ideais?  Não necessariamente.  Porque, se por um lado, também é consenso que, em alguma época remota da pré-história, ocorreram cópulas entre neandertais e humanos anatomicamente modernos, por outro lado, a revelação científica recente da presença de genes neandertais no DNA dos humanos modernos derruba a tese até então estabelecida de que nós e os neandertais constituiríamos espécies distintas de um mesmo gênero taxonômico: Homo sapiens e Homo neandertalensis.  Ora, se nosso genoma abriga genes neandertais, em alguma época do passado, nossos ancestrais acasalaram com neandertais e geraram prole fértil.  Os neandertais também são nossos antepassados e, de fato, constituem uma mera variedade da espécie humana, Homo sapiens neandertalensis, ao passo que nós, humanos anatomicamente modernos, somos Homo sapiens sapiens.

Tais verdades científicas ainda não eram conhecidas quando o canadense Robert J. Sawyer publicou sua instigante trilogia de história natural alternativa, The Neanderthal Parallax: Hominids (2002), Humans (2003) e Hybrids (2003).  Numa linha histórica alternativa, neandertais cientificamente avançados e ecologicamente conscientes erigem uma cultura tecnológica global inteiramente ateísta, de baixa densidade demográfica, que jamais inventou a agricultura.  Ao longo da trilogia, Sawyer desenvolve uma abordagem leve e sutil, coalhada de tiradas perspicazes e comentários bem-humorados sobre feminismo, sexualidade humana, ecologia, preservação do meio ambiente, desenvolvimento sustentável, demografia, política, religião e outras questões relevantes para o leitor moderno, seja esse sapiens ou neandertalensis.

Em Hominids, após acidente em computador quântico, o físico neandertal Ponter Bobbit vem parar em nossa linha histórica.  Primeiro, ele deve provar que é um neandertal, depois, deve provar que é um cientista e não um cidadão do paleolítico travestido de civilizado, então, precisa se adaptar a seu novo mundo.  Enquanto isto, seu parceiro, o engenheiro Adikor Huld, é acusado do assassínio de Bobbit, sendo portanto proibido de acessar o computador quântico inventado pelos dois, única esperança de trazer seu bem-amado de volta à Terra Neandertal.  Neste ponto convém informar que os neandertais de Sawyer são bissexuais.  Os adultos se comportam como homossexuais durante vinte seis dias por mês, ao passo que nos quatro dias restantes assumem comportamento heterossexual e vida familiar.  Durante os períodos homossexuais, as mulheres neandertais residem nos núcleos urbanos e os homens nas periferias e nas regiões rurais.  Nesse primeiro romance Bobbit estabelece uma relação platônica com Mary Vaughan, geneticista que logra comprovar que ele é um neandertal bona fide.  No fim do romance, os neandertais logram reabrir a passagem entre as duas linhas históricas.

Em Humans, Ponter e Mary consumam seu caso de amor e paixão.  Embora ele pareça razoavelmente bem adaptado a nosso mundo, o mesmo não se dá com Mary, uma heterossexual empedernida em apuros para se adaptar à Terra Neandertal.

Em Hybrids, Mary Vaughan sofre problemas de adaptação conjugal em seu casamento híbrido com Ponter Bobbit.  Radicais norte-americanos engendram um vírus mortífero apenas a neandertais, enquanto o casal interespecífico de pombinhos decide as características genéticas de sua futura filha híbrida com auxílio de um seqüenciador genético inventado pelos neandertais.

No romance de vampirismo científico Fome de Viver (1981), Whitley Strieber propõe a existência de uma espécie de primatas imortais que, de forma análoga aos vampiros do horror, nutrem-se do sangue e da força vital dos humanos, mimetizando-se à semelhança de suas vítimas para melhor usufruí-las.  A trama gira em torno de Miriam Blaylock, uma das últimas sobreviventes dessa espécie e de suas relações predatórias e amorosas com humanos de ambos os sexos, pelos milênios afora, desde o Egito Faraônico até os dias atuais.  Através da transfusão de algumas gotas de seu sangue, essa “vampira darwiniana”[6] logra infectar os humanos que seleciona criteriosamente para amantes, conferindo-lhes uma longevidade de vários séculos, em troca da adoção de seus hábitos alimentares.  A narrativa vai se impregnando com um clima de erotismo crescente, intensificado à medida que a predadora vai exercendo seu magnetismo sexual semi-hipnótico sobre a futura parceira humana.  Strieber publicou posteriormente outro romance nesse mesmo universo ficcional, em que explicita a natureza de seus predadores imortais: A Última Vampira (2001).

*     *     *

 

É chegada a hora de pôr de lado os hominídeos fósseis ou hipotéticos para abordar as relações com os primatas que hoje compartilham a biosfera terrestre com a humanidade.

Antropóides.  Três casos emblemáticos: orangotango; gorila e chimpanzé.

Uma fêmea de orangotango pode ser enquadrada como terrígena, ou ela não passa de um animal?  Depende de até que ponto é possível classificá-la como racional.  Bem, e se além de ser capaz de se comunicar conosco através de uma linguagem de sinais bastante elaborada, a fêmea orangotango em questão for autora de um bestseller de literatura infantil?  Creio que, neste caso, devemos considerá-la terrígena e não um mero animal esperto.  Este é o caso da orangotango seduzida e abusada sexualmente pelo primatologista que ela tinha como figura paterna no conto “Her Furry Face” (1983) de Leigh Kennedy.  Numa história envolvente e bem desenvolvida, a autora pinta um retrato algo caricato da imaturidade emocional de seu protagonista humano.  A trama possui uma pitada inegável de recalque feminista mal situado.  Atravessando uma crise conjugal, o cientista à beira de um ataque de nervos acalenta a possibilidade de uma relação com a pupila símia, relacionamento que idealiza como menos complicado e problemático do que o mantido com a parceira humana.  Da vontade à ação é um pulo.  O mais curioso é que o abuso sexual é documentado pela câmera de outro orangotango, um macho voyeur.  Como diz o ditado, “há gosto para tudo”.

O affair com o gorila nos é trazido por ninguém menos do que o próprio Farmer.  A intimidade sexual de um herói clássico das histórias em quadrinhos é destrinchada sem remorsos.  Agora nem o venerável Tarzan dos Macacos, ídolo de várias gerações de leitores de HQ, escapa à sanha do velho sátiro da FC.  Farmer confessou ter escrito o conto em pauta, “Jungle Rot Kid on the Nod” (1968), para tentar responder como o personagem Tarzan seria se houvesse sido escrito não por Edgar Rice Burroughs, mas por William Burroughs.  Nesse trabalho, o autor aborda en passant o relacionamento homossexual entre Lord Greystoke e um vigoroso gorila.  Uma vez que nosso herói consegue se comunicar com o gorila a ponto de manter um relacionamento estável, o status de terrígena — se não da espécie Gorilla gorilla como um todo, pelo menos desse espécime em particular — está assegurado.  Como era de se esperar em termos de Farmer, Tarzan assume o papel passivo, para indignação dos fãs do herói.  Se serve de consolo aos aficionados pelas histórias de Edgar Rice Burroughs, os primatologistas asseveram que o pênis do gorila é consideravelmente menor do que o análogo humano.  Deste modo, se não a dignidade, pelo menos a integridade física de nosso herói está em princípio assegurada.  De qualquer modo, Farmer logrou conferir conotação deveras maliciosa ao epíteto “Tarzan dos Macacos”.

Decano do fantástico erótico lusófono, André Carneiro também explorou a temática do sexo interespecífico com primatas.  Em seu conto “Meu Nome é Go” (1991), uma cientista empolgada com o êxito na pesquisa para aumentar a inteligência de um gorila, resolve copular com seu objeto de estudo para incrementar ainda mais os resultados.  Tudo em nome da ciência, é claro.  Tamanha abnegação não retarda o processo de regressão que atinge o gorila narrador da história, que registra suas experiências sexuais com a pesquisadora num diário.  Em “Meu Nome é Go”, Carneiro estabelece um diálogo frutífero com a obra-prima de Daniel Keyes, Flowers for Algernon (1966).  No entanto, o tom animado e otimista dos relatórios de progresso ou retrocesso de Go contrastam um bocado com o desalento dos registros escritos de Charlie.  Pois, se para esse último, após galgar os píncaros do intelecto humano, a possibilidade de regredir a um retardo mental ainda mais severo do que o original constitui perspectiva medonha, para Go, a reversão do procedimento que lhe conferiu genialidade implica o regresso à vida de gorila normal, inclusive com a perspectiva antegozada de voltar a acasalar com fêmeas de sua própria espécie.

No início da novela “Surviving” (1986) de Judith Moffett, a trama parece versar apenas sobre a relação lésbica de uma psicóloga especializada em crises de adaptação com sua ex-paciente, uma microbióloga ex-Homo ferus (ser humano criada por animais) que, tendo vivido dos cinco aos treze anos como membro de um bando de chimpanzés selvagens na Tanzânia, foi posteriormente ressocializada à cultura ocidental.  Porém, lá pelo fim dessa novela instigante, descobrimos que a garota foi iniciada sexualmente pelos machos dominantes do bando e que, para ela, sexo de verdade é aquilo que os chimpanzés faziam com ela.  Sem resvalar em momento algum para a vulgaridade, a novela trata de fato do confronto entre a busca da felicidade individual e a compulsão para aceitar o papel que a sociedade tenta impingir a seus membros.  Um belo trabalho.  Porém, de volta ao tema em pauta, os chimpanzés em questão constituiriam parceiros terrígenas?  Definitivamente não.  Neste sentido, Surviving fala apenas de zoofilia e não de xenofilia.

Uma relação humana vs. chimpanzé de diagnóstico mais complexo no que concerne à questão xenofílica é a descrita por Pat Murphy em “Rachel in Love” (1987): gênio recluso transfere a mente de sua filhinha moribunda para o cérebro de uma chimpanzé fêmea.  Quando o pai morre, a menina em corpo de chimpanzé é capturada e levada para um centro de pesquisas primatológicas.  Lá aprende muito mais do que gostaria sobre torturas e indignidades às quais os animais de laboratório são submetidos, mas também descobre o amor na presença máscula de um chimpanzé experiente e carinhoso.

O sexo com terrígenas não é privilégio da FC.  Estão aí os vampiros sedutores, e até mesmo os metamorfos e assombrações, para confirmar a presença da temática nos gêneros do horror e da fantasia.  Só na antologia fantástica erótica Como Era Gostosa a Minha Alienígena! (2002) aparecem três tipos de parceiros sobrenaturais diferentes: uma lobisomem fêmea em “O Ano da Lua” de Simone Saueressig, um súcubo (demônio que assume forma feminina) em “Uma Bem Quente” de Ataíde Tartari, e um espírito descarnado estuprador em “Pequenos Prazeres Inconfessáveis” (1991) de Luís Filipe Silva.  Essas classes mais comuns de entidades sobrenaturais não são, contudo, as únicas a protagonizar histórias de Sedução & Perdição no horror e na fantasia.  Lewis Shiner, por exemplo, no belo conto “Scales” (1990), descreve a relação entre uma lâmia (humanóide serpentiforme) e um professor universitário incauto.  O sujeito larga a esposa e a filhinha, abandona o emprego e se transforma em escravo sexual dos encantos irresistíveis da criatura, reduzindo-se à condição final de farrapo humano.  A esposa, por sua vez, somente a duras penas consegue salvar a filha do casal da fúria homicida da rival ofídia.  Já Kathe Koja e Barry N. Malzberg cometem a perversão de transformar a pura e inocente Cachinhos Dourados em escrava sexual dos Três Ursos em seu “Ursus Triad, Later” (1996), enquanto Roberta Lannes nos mostra em “His Angel” (1996) a relação de um assassino com um anjo.  Serial killer salva anjo com caracteres sexuais femininos e a leva para casa, onde ela o ensina o que é o amor e, depois, o que é perder o amor.

*     *     *

 

Percebe-se claramente que o relacionamento sexo-afetivo interespecífico é um tema que atrai o interesse do apreciador de literatura fantástica.  Experiências no mercado editorial anglo-saxão demonstram que a abordagem desta temática, quando amparada em textos de qualidade, reúne todos os elementos necessários para gerar produtos que constituirão sucessos de vendas.

O motivo deste interesse e, em última análise, da boa aceitação do tema do relacionamento sexual interespecífico, talvez resida no fato de que existe no âmago das relações pessoais íntimas, motivações psicológicas profundas, razões por vezes intensas o bastante para possibilitar (taras e manias à parte), a superação dos obstáculos representados por diferenças morfológicas inicialmente repulsivas e incompatibilidades anatômicas, inicialmente atemorizantes.  Isto, para não mencionar o amor espiritual, tópico vasto o bastante para preencher vários compêndios de referência nos gêneros do horror, ficção científica e fantasia.

 

Trabalhos citados:
Anderson, Poul: “Kyrie”, in Exploradores do Espaço.  Símbolo (1977).  Antologia organizada por Robert Silverberg.
Arnason, Eleanor: Ring of Swords.  Tor Books (1993).
Bishop, Michael: Ancient of Days.  Arbor House (1985).
Bosky, Bernadette: “None of the Above”, in Worlds of Women: Saphic Science Fiction EroticaCirclet Press (1993).  Antologia organizada por Cecilia Tan.
Bretnor, Reginald: “Mulher Terrestre”, in Magazine de Ficção Científica n° 4.  Editora Globo (1970).  Editada por Jeronymo Monteiro.
Brin, David: The Uplift War.  Bantam Books (1987).
Brown, Dee: Enterrem Meu Coração na Curva do Rio.  Melhoramentos (1973).
Butler, Octavia E.: DawnQuestar / Popular Library (1988).
______________: Adulthood Rites.  Popular Library (1989).
______________: Imago.  Gollancz (1990).
Cadigan, Pat: “Roadside Rescue”, in Alien SexRoc Books (1990).  Antologia organizada por Ellen Datlow.
Carneiro, André: “Meu Nome é Go”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!  Ano-Luz (2002).  Antologia organizada por Gerson Lodi-Ribeiro.
Clarke, Arthur C.: 2010, uma Odisseia no Espaço II.  Nova Fronteira (1983).
Cunha, Fausto: “A Última Estrela”, in O Dia da Nuvem.  Vozes (1980).  Coletânea.
Dozois, Gardner: StrangersBerkley Books (1978).
Ellison, Harlan: “How’s the Night Life on Cissalda”, in Alien Sex.
Farmer, Philip José: The Stone God AwakensPanther (1976).
________________: Os Amantes do Ano 3050 (The Lovers). Francisco Alves (1981).
________________: The Magic Labyrinth. Grafton Books (1981).
________________: “Open to me, My Sister”, in Strange Relations.  Granada (1985).  Coletânea.
________________: “Mother”, in Strange Relations.
________________: The Image of the Beast.  Granada (1985).
________________: Blown.  Granada (1985).
________________: “J.C. on the Dude Ranch”, in Riverworld and Other Stories.  Grafton Books (1986).  Coletânea.
________________: “Jungle Rot Kid on the Nod”, in Riverworld and Other Stories.
Fernandes, Fábio: “Paixão Segundo S.H.”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
Harrison, Harry: A Oeste do Éden.  Gradiva (1986).
Kennedy, Leigh: “Her Furry Face”, in Alien Sex.
Keyes, Daniel: Flowers for Algernon.  Easton Press (1995).
Koja, Kathe & Barry N. Malzberg: “Ursus Triad, Later”, in Off-Limits: Tales of Alien Sex.  St. Martin’s Press (1996).  Antologia organizada por Ellen Datlow.
Lannes, Roberta: “Saving the World at the New Moon Motel”, in Alien Sex.
______________: “His Angel”, in Off-Limits: Tales of Alien Sex.
Le Guin, Ursula K.: A Mão Esquerda da Escuridão.  Nova Fronteira (1979).
Leiber, Fritz: A História é Outra (The Big Time).  Expressão e Cultura (1973).
Lodi-Ribeiro, Gerson: “A Melhor Diversão da Cidade”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
_________________: Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.  Ano-Luz (2002).  Organizador.
_________________: A Guardiã da MemóriaDraco (2011).
McCaffrey, Anne: “The Thorns of Barevi”, in The Shape of Sex to Come.  Pan Books (1978).  Antologia organizada por Douglas Hill.
Moffett, Judith: Surviving .  Pulphouse Publishing (1991).
Murphy, Pat: “Rachel in Love”, in Paragons: 12 Science Fiction Writers Ply Their Craft.  St. Martin’s Press (1996).  Antologia organizada por Robin Wilson.
Niven, Larry: “Man of Steel, Woman of Kleenex”, in Alien Sex.
Queiroz, Dinah Silveira: “Eles Herdarão a Terra”, in Eles Herdarão a Terra.  GRD (1960).  Coletânea.
Ramos, Sacha: “Shelob”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
Saueressig, Simone: “O Ano da Lua”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
Sawyer, Robert J.: Hominids.  Tor Books (2002).
_______________: Humans.  Tor Books (2003).
_______________: Hybrids.  Tor Books (2003).
Severo, José Antônio: A Guerra dos CachorrosLP&M (1983).
Shiner, Lewis: “Scales”, in Alien Sex.
Silverberg, Robert: “Ismael Apaixonado”, in Outros Tempos, Outros Mundos (Parsecs and Parables).  Cultrix (1972).  Coletânea.
_______________: “The Soul-Painter and the Shapeshifter”, in Majipoor Chronicles.  Bantam Books (1981).  Coletânea.
_______________: “Thesme and the Ghayrog”, in Majipoor Chronicles.
_______________: “The Reality Trip”, in Off-Limits: Tales of Alien Sex.
Silva, Luís Filipe: “Pequenos Prazeres Inconfessáveis”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
Simon, Adriana: “Dainara”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
Strieber, Whitley: Fome de Viver (The Hunger).  Record (1984).
_______________: A Última Vampira.  Ediouro (2002).
Tartari, Ataíde: “Uma Bem Quente”, in Como Era Gostosa a Minha Alienígena!.
Tiptree, Jr., James: “The Color of Neanderthal Eyes”, in The Color of Neanderthal Eyes (James Tiptree, Jr.) / And Strange at Ectaban the Trees (Michael Bishop).  Tor Double (1990).
_______________: “And I Woke and Found me Here on the Cold Hill’s Side”, in Alien Sex.
Wade, Susan: “The Tattooist”, in Off-Limits: Tales of Alien Sex.
Yep, Lawrence: “Looking-Glass Sea”, in Strange Bedfellows: Sex and Science FictionRandom House (1972).  Antologia organizada por Thomas N, Scortia.
 
 
Gerson Lodi-Ribeiro,
Maio 2011.
18 laudas — 8.500 palavras.

[1]. O romance homônimo The Lovers, versão mais encorpada dessa novela, foi lançado no Brasil em 1981 como Os Amantes do Ano 3050.

[2].  No entanto, cumpre frisar que, em algumas espécies, o fenômeno da produção de híbridos ocorre de forma mais ou menos natural, como é o caso dos acasalamentos de jumentos e éguas, produzindo burros e mulas.

[3].  Confirmando seu status de Grande Sátiro do erotismo fantástico, Farmer descreve nesse conto uma das poucas cenas de penetração dupla da literatura de ficção científica.  Em 1983, no romance de horror A Guerra dos Cachorros, o brasileiro José Antônio Severo descreveria outra cena de penetração dupla, embora sem parceiros alienígenas, quando uma repórter televisiva é currada por três policiais.  Em termos de FC brasileira, alienígenas adeptos dessa prática sexual aparecem tanto em “Dainara” quanto no A Guardiã da Memória.

[4].  Uma curiosidade adicional desta história é o fato do autor ter postulado a existência de vida inteligente evoluída no seio de um oceano interior, imerso sob a superfície congelada de um mundo semelhante a Titã ou aos satélites galileanos de Júpiter.  Uma década mais tarde, Arthur C. Clarke empregaria esta mesma idéia no romance 2010: uma Odisséia no Espaço II.

[5].  Na época em que esse conto foi escrito, uma parte da comunidade científica advogava que os golfinhos eram quase ou tão inteligentes quanto os humanos.

[6].  Refiro-me aqui a “vampiros darwinianos” ou “vampiros naturais” em contraposição ao conceito óbvio dos vampiros sobrenaturais.  O vampirismo darwiniano ou científico — mais típico da ficção científica do que do horror — é aquele em que a gênese dessas criaturas hematófagas é explicada à luz das ciências naturais em geral e da evolução pela seleção natural em particular, ou seja, sem o recurso de elementos sobrenaturais.  Neste sentido, considero os vampiros propostos por Strieber darwinianos ou científicos.

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  1. Seu prazer de compreender blog.editoradraco.com. Os artigos acima é realmente extraordinário, e eu realmente gostei de ler o seu blog e os pontos que você expressa. Eu realmente gosto de aparecer de volta mais de uma base comum, posto muito mais dentro do tópico. Obrigado por compartilhar … continue escrevendo!

  2. Gerson disse:

    Oi, Tanko.

    Obrigado pela divulgação!

    Extremamente interessante seus comentários sobre o conteúdo sexual do MASS EFFECT. Quando trabalhei como consultor para a Hoplon discutimos algo a respeito por lá, mas você acrescentou vários detalhes que passaram batidos por mim naquela época.

    Sim, estou torcendo para receber trabalhos de ficção fantástica erótica com conteúdo homoerótico. Uma frustração minha foi que, quando organizei a COMO ERA GOSTOSA A MINHA ALIENÍGENA!, tivemos poucos elementos homoeróticos nos trabalhos aprovados.

  3. Tanko disse:

    Opa, adorei o texto, super compreensivo, uma verdadeira aula para uma semi-analfabeta em literatura de ficção científica como eu. No entanto o assunto me interessa bastante e por isso vou usar o texto como guia.

    De qualquer forma, eu não li muitos livros sobre o assunto, mas assisto a filmes, animações, leio quadrinhos japoneses e jogo video-game e a minha percepção da ficção científica é de que as obras deste gênero são quase sempre machistas.

    Tomo como exemplo o game Mass Effect, que é um ótimo exemplar de Space Opera e reune praticamente todos os clichês de ficção científica espacial (sim, clichês, mas usados da forma certa, é um excelente game). Neste jogo personificamos o comandante Shepard, homem por padrão ou sua versão feminina menos popular. Shepard homem e Shepard mulher têm opções românticas entre os personagens de seus grupos, sendo que a única opção homossexual é para a Shepard mulher.

    Enquanto o Shepard homem tem em suas opções de relacionamentos duas aliens “gostosonas” (Inclusive a representante de uma raça apenas composta por mulheres! pfff), a Shepard mulher pode se relacionar com dois aliens meio humanóides. Um deles apesar do sobretudo negro e o jeito de herói romântico, tem um jeitão de peixe e escamas, com direito a guelras e tudo. O outro é um reptiliano que tem exoesqueleto na cara e, bem, uma voz muito atraente. Isto é, eles conquistam @ jogador@ pela personalidade e não pela aparência.

    Enfim, enquanto as mulheres da ficção científica têm que reviver A Bela e a Fera, os homens podem ficar com a categoria de aliens que convenientemente são “gostosas pintadas de azul”. Afinal, alguém já leu uma ficção científica onde a população alien fosse inteiramente composta de homens lindíssimos? (Ah, já sei, os homens vão torcer o nariz, pois vira chick lit e coisas escritas para mulheres são sempre consideradas inferiores…)

    Após muitos pedidos e súplicas, finalmente a empresa responsável pela franquia (em sua terceira edição), colocará a Shepard mulher nos merchandisings do jogo e aparentemente permitirá relacionamentos homossexuais masculinos.

    Eu compreendo que este material tem grande popularidade entre homens heterossexuais, mas já estava na hora do mercado perceber a fatia de consumidores que andou afugentando.

    Estou espalhando a informação do Erótica Phantástica pois há muitos escritores que frequentam o nosso site. Quem sabe não pinta alguma história homoerótica na coletânea?

  4. Essa eu posso responder pelo Gerson. 🙂

    Não estamos restritos à FC, podemos trabalhar com toda a literatura fantástica, sendo em qualquer subgênero, incluindo a fantasia medieval. Esse post de hoje é só para ilustrarmos melhor o que já vem sendo feito dentro da literatura de FC, um estudo do autor e organizador Gerson L.R., mas não é de nenhuma forma uma tendência obrigatória para a participação da antologia.

    Aguardamos seu texto. 🙂

  5. Di Benedetto disse:

    Cara. Isso não é um post! É uma monografia sobre a história do sexo inter-espécies ao longo da história da FC. Parabéns! o0

    Gostaria apenas de esclarecer uma dúvida, na primeira chamada da antologia (se não me engano) estava escrito que seriam aceitos contos de todo sub-gênero fantástico. (FC, Cyberpunk, Policial e incluindo, se realmente não bebi demais, Fantasia.)

    No entanto em posts mais recentes vejo que claramente o foco tem sido dado para FC. Seriam aceitos portanto, contos de “fantasia medieval”?

    Sinceramente ainda não decidi sobre o que escrever e estou elaborando.

    Mas um amigo meu (que não inventei, ele existe!) também está interessado em mandar um conto. Escreveu um que se passa num universo fantástico e aborda a relação entre humano e humana (ainda que não seja um humano comum, e apareçam elementos místicos bastante bizzaros na narrativa)

    Um conto desse poderia também ser aceito?

    Afinal o título “Erótica Phantástica” parece não contemplar apenas FC.

    • Gerson disse:

      Legal você ter gostado do ensaio, Benedetto.
      A ideia de transformá-lo em post foi do Erick Sama e não minha… 🙂

      Sim, aceitamos submissões de contos de qualquer gênero da literatura fantástica.

  6. Mirna Tonus disse:

    Curioso como a relação explícita humano-alien é aceita até em filmes que povoaram a Sessão da Tarde, como Cocoon. Há alguns outros nesse link http://www.emdianews.com.br/colunas/as-cenas-de-sexo-mais-esquisitas-do-cinemacreedooo-5205.asp
    Abraços.
    Parabéns pelo post.

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