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As vilãs brasileiras do Cânone

No início do século XX, Sherlock Holmes cruzou espadas, por assim dizer, com duas vilãs do Brasil: Isadora Klein, a notória femme fatale de  “As três empenas”, e Maria Pinto, uma vingativa suicida e aspirante a assassina de  “A ponte de Thor”. Ambas são descritas como mulheres latinas de sangue quente e foram esposas – no caso de Isadora Klein, a viúva – de ricos e poderosos homens vindos de climas mais temperados. Pouca atenção foi dada à origem de seus pares, e às circunstâncias que as levaram primeiro à Inglaterra e, de lá, ao mundo do crime.

Alguns comentaristas criticam Holmes por ter descrito Isadora Klein como “espanhola da gema, do sangue real dos poderosos conquistadores que dominaram Pernambuco durante várias gerações”, observando que Pernambuco foi fundada como colônia portuguesa no século XVI, sendo então conquistada pelos holandeses e governada por eles durante um curto período no século seguinte, até ser novamente recuperada por Portugal. No século XIX, tornou-se parte do Império e, mais tarde, da República do Brasil. Uma história que parece deixar pouco espaço para a formação de uma elite “espanhola da gema”.

Aparências, porém, podem ser enganosas. Houve pelo menos uma poderosa família espanhola na então província, os Torres Galindo, ativa na região desde o século XVII. Um ramo da família Torres Galindo participou da fundação da cidade de Alagoinha, nos anos finais do século XVIII, e teve parte em uma revolta contra o Império brasileiro em 1848. A rebelião foi reprimida, mas a família manteve-se forte. Ainda hoje, o patronímio Galindo impõe respeito no atual estado de Pernambuco.

Não seria demais supor que Isadora Klein foi, de nascimento, Isadora Torres Galindo, talvez a herdeira de uma plantação de cana-de-açúcar e de um engenho em Alagoinha. Tais bens, somados à beleza natural da jovem latina, foram o que certamente atraíram “o idoso rei do açúcar descendente de alemães, Klein”, citado por Holmes.

No momento presumível do casamento, em 1890, o boom da cana-de-açúcar, que havia sustentado a economia do nordeste do Brasil desde a chegada dos primeiros colonos europeus, estava acabado. A região iniciava o doloroso processo de decadência que iria transformá-la, da mais rica, na mais pobre do país.

Talvez por perceber isso, Isadora tenha abraçado a proposta de Klein. Ela queria sair da armadilha; talvez soubesse que o esplendor dos barões do açúcar já não era ouro, mas apenas bijuteria, que o seu paraíso quase feudal nos trópicos tinha ido embora. Os dias de glória estavam trancados, para sempre, no passado.

Desespero pode tê-la motivado, o medo da pobreza, da decadência física e da morte, um horror que só cresce com o passar dos anos e que iria jogá-la em uma busca por juventude, alegria, poder e, talvez até mesmo, amor. O modo com que usou sua recém-descoberta liberdade, após a morte de Klein, e seu poder de sedução para aplacar o desespero e estes medos é agora, naturalmente, parte do Cânone.

Se Isadora Klein era filha de uma elite decrépita, séculos de glória próximos do fim – uma fugitiva de suas próprias raízes e de si mesma – Maria Pinto era o oposto: “filha de um funcionário público em Manaus, ela era muito bonita”. Manaus é a atual capital do estado do Amazonas. De 1850 a 1920, a região amazônica estava no meio de um boom econômico, com base na exploração das seringueiras. Uma cidade construída no meio da floresta, Manaus cresceu e enriqueceu a partir da exportação da borracha. Em 1897 foi aberta lá uma surpreendente casa de ópera, o Teatro Amazonas; Enrico Caruso apresentou-se lá.

Parece que o casamento de Maria Pinto com o americano Neil Gibson foi mais uma questão de paixão do que de desespero e de cálculo, como teria sido a união entre Isadora Torres Galindo e Klein, o rei de açúcar. Se o pai de Maria era um funcionário público de alto escalão, suas perspectivas de permanecer na Amazônia teriam sido muito mais promissoras do que as que ela poderia esperar seguindo um aventureiro norte-americano – ainda mais um que estava buscando ouro onde não havia nada para ser encontrado.

Existe mesmo ouro no norte do Brasil, mas no estado do Pará, não no Amazonas – a distância entre Manaus e Belém, capital do Pará, é superior a 800 milhas, maior que a distância entre Londres e Praga. No entanto, Gibson se tornou um homem rico. Talvez possamos encontrar, aqui, outra explicação para a louca emoção que levou Maria a cometer suicídio e tentativa de assassinato. Poderia não ser apenas ódio, talvez fosse também culpa.

A riqueza da borracha da Amazônia foi inteiramente dependente do monopólio da seringueira Hevea brasilensis. O contrabando de sementes para a Inglaterra e, depois, para a Ásia pôs fim ao boom econômico e condenou a região, uma vez mais, ao papel de uma pobre e quase selvagem floresta. O boom terminou em 1912, mas é bem provável que os primeiros sinais já estivessem presentes por volta de1901 ou 1902.

Registros históricos atribuem o primeiro contrabando de sementes a um inglês, Sir Henry Alexander Wickham, mas ele poderia não ter sido o único (havia, claro, grande interesse no mercado da borracha), ou poderia ter tido um cúmplice. Um americano, talvez. Que, por sua vez, poderia ter tido a ajuda de uma menina brasileira apaixonada, esperançosa e de sangue quente latino?

Pode ser que a explicação do “ouro” para a fortuna de Gibson tenha sido apenas uma cortina de fumaça com o objetivo de proteger a família brasileira de Maria, mas, uma vez que Holmes o reconheceu como “o maior magnata da mineração do ouro no mundo”, é mais provável que o capital obtido a partir de sementes das seringueiras tenha sido usado para comprar minas de ouro, provavelmente na África do Sul.

Assim, Maria Pinto vê que o homem por cujo amor traiu seu país se encontra apaixonado por outra mulher; em cartas de seus parentes no Brasil, ela lê sobre a concorrência da borracha asiática, sobre a pobreza que fica cada vez mais perto de sua família e dos amigos. Ela sente ódio, ela sente culpa. Ela se sente usada e descartada. Seu primeiro impulso deve ter sido o de matar o ingrato Gibson. Mas não, ela pensa: é melhor que ele seja deixado sozinho para sofrer. E assim o plano maquiavélico da Ponte de Thor nasce.

Tradução do original em inglês por Romeu Martins

Este artigo foi publicado no Baker Street Journal, a principal publicação internacional de estudos sobre Sherlock Holmes. Saiu na winter edition de 2010. Graças a ele, Carlos Orsi foi convidado a criar uma sociedade sherlockiana no Brasil e assim, ao lado de Marcelo Augusto Galvão e Octavio Aragão, estabeleceu a Isadora Klein Amateur Mendicant Society, que ainda não realizou sua primeira reunião física, mas há esperanças de conseguir uma data ainda neste ano.

Bibliografia

Hardin, Terri. Theatres and Opera Houses: Masterpieces of Architecture. (New York: Totdri Productions, 1999).

Klinger, Leslie S., ed. The New Annotated Sherlock Holmes, Vol.3. (New York: W.W. Norton, 2006).

Weinstein, Barbara. The Amazon Rubber Boom, 1850-1920. (Stanford, CA: Stanford University Press, 1983).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alagoinha_(Pernambuco).

 

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