Blog da Editora Draco
16nov/117

Tradutor, traidor – Uma entrevista com Jorge Candeias, tradutor para português da Guerra dos Tronos

Postado por: Erick Santos Cardoso



Dizem que o tradutor é um traidor, mas para muitos leitores que não se aventuram por outras línguas e conhecem obras em seu idioma original, é também a porta de entrada para um mundo incrível e rico, a literatura estrangeira. Para essa breve entrevista cedida gentilmente por Jorge Candeias, responsável por nada menos que a tradução de Guerra dos Tronos, que chegou ao Brasil impulsionado pelo seriado da HBO e já faz grande sucesso com leitores que não conheciam a obra de Martin antes da localização, ele nos conta sobre o ofício do tradutor e sua relação com o trabalho de ficcionista. Por uma questão de respeito à expressão autoral, não submeti o texto a correção ortográfica para o português brasileiro ou para o acordo firmado, conto com sua compreensão.

 

Como a tradução de literatura fantástica se relaciona com o seu trabalho como ficcionista?

Relaciona-se fortemente e de formas contraditórias. Por um lado, permite-me manter uma atividade constante de escrita, que na maior parte das outras profissões não existiria, e isso tem importância porque, na escrita, como em muitas outras coisas, a prática é fundamental para afinar a técnica. Além disso, a profissão de tradutor obriga-me a ter uma atenção muito particular sobre o modo de funcionamento da língua portuguesa, e isso fez com a use agora bastante melhor do que a usava antes de enveredar por esta profissão. Mas por outro lado, a tradução ocupa-me muito do tempo que antes dedicava à escrita e à leitura. E gasta-me a maior parte de algo a que só consigo chamar "energia linguística". Não tem nada de místico, descansem. Mas comigo acontece que só consigo escrever uma quantidade limitada de texto antes do cansaço se começar a instalar e a qualidade começar a ressentir-se. Posso estar em perfeitas condições para fazer outras coisas, mas estou linguisticamente cansado, e o que sai quando tento escrever não é grande coisa. Como consequência, escrevo hoje menos do que escrevia há seis anos. Mas acho que escrevo melhor.

Julgo que o facto de ter traduzido principalmente literatura fantástica, nas suas várias vertentes (a exceção foi um romance histórico, e esse foi logo o primeiro livro que traduzi; desde então tem sido principalmente fantasia, mas também história alternativa e ficção científica), não tem grande impacto no que disse acima, ou seja, julgo que se me dedicasse à tradução de outros tipos de literatura o resultado seria basicamente o mesmo. Embora o mais certo fosse ter menos prazer naquilo com que ganho a vida.

 

Como é lidar com as suas preferências autorais enquanto tenta traduzir o estilo de cada autor?

Depende de autor para autor. Com o George R. R. Martin é duma simplicidade quase assustadora, porque a minha forma de escrever se encaixa na dele muito bem. Não sei se serão propriamente parecidas (duvido) quando escrevo ficção, mas na tradução não tenho problemas em adaptar-me à voz dele. Ou pelo menos tenho menos problemas do que com outros autores. Entre os que traduzi, o pior, nesse aspecto, foi Frank Herbert. O estilo dele colide de tal modo com o meu que o "Duna" foi o único livro que tive de rever por duas vezes antes de o achar suficientemente decente para o entregar à editora. Levei metade do livro a lutar por encontrar um equilíbrio entre o estilo dele e o meu (é sempre uma questão de equilíbrio, em todas as traduções, mesmo que os leitores raramente se apercebam disso), a lutar por conseguir passar o inglês dele para português duma forma que fosse fiel ao mesmo tempo que não me pusesse os cabelos em pé. As opiniões que fui lendo por aí dizem-me que acabei por conseguir, mas andei preocupado durante uns tempos.

Mas o pior, mesmo, é quando não gostamos do que estamos a traduzir. Aí há que fazer das tripas coração e tentar fazer o melhor trabalho possível, enquanto vamos resmungando com os nossos botões sobre a porcaria que aquilo é. Fazer coisas menos agradáveis calha a todos, em todas as profissões, e os tradutores, como é óbvio, não estão imunes. Comigo, aconteceu no início da carreira, quando andei a traduzir contos do Robert E. Howard. Espada e feitiçaria, Conan e Solomon Kane, do melhor do velho pulp, talvez, mas velho pulp na mesma. Não gosto nada daquilo. Mas fez-se, e se fosse preciso voltar-se-ia a fazer.

 

O que considerou mais prazeroso na tradução de uma série como "Game of Thrones - A Guerra dos Tronos"? E o que considerou mais difícil e problemático?

O que me tem dado mais prazer na tradução das Crónicas de Gelo e Fogo têm sido duas coisas.

Por um lado, os diálogos. Arranjar equivalentes em português para os trocadilhos, as ironias, os discursos deturpados de algumas personagens, tudo isso, é um desafio constante mas ao mesmo tempo dá-me um gozo enorme. Tanto quanto, suponho, deu ao Martin escrevê-los. Sim, que tenho a certeza de que o Martin se diverte que nem um nababo a escrever as Crónicas. Embora às vezes também lhe doa, certamente.

Por outro lado, há capítulos inteiros que adoro pela pura qualidade do texto, pela forma como o Martin nos vai levando ao longo das páginas quase como se dançasse connosco. Esses capítulos são os meus preferidos, e são das coisas que mais prazer me tem dado traduzir. E ler.

Quanto às dificuldades, também são principalmente duas.

Por um lado, os poemas. Traduzir poesia é inerentemente complicado, coisa para tradutores especializados, algo que eu não sou. Por isso, sempre que me aparece um poema à frente, em especial dos poemas que normalmente surgem nas Crónicas, quase todos letras de canções, já sei que me esperam horas de trabalho para pouco avanço. Porque procuro sempre fazer com que poema que rime e tenha métrica no original continue a rimar e a ter métrica na tradução. Se é uma canção, se é para cantar, deve conseguir-se cantar também em português. Isso é muito, muito complicado porque a estrutura das duas línguas é suficientemente diferente para exigir adaptações. Mas é trabalho que também tem as suas compensações. Quando li, no fórum da editora Saída de Emergência, uma leitora a dizer que até arranjou uma música para trautear a canção do urso e da donzela, fiz um sorriso de orelha a orelha e larguei um "YES!" de missão cumprida.

Por outro lado, são as cenas navais e as de ação (e das navais de ação, então, nem se fala). As navais porque a gíria náutica é muito peculiar e não há cena passada em navios que não exija perder bastante tempo a investigar o que raio significa a palavra X e como diabo se diz aquilo em português. Sim, costuma haver resmungos. As de ação porque a língua inglesa é mais rica do que a nossa na terminologia ligada à pancadaria, e muitas vezes é desafiante arranjar equivalentes em português, em especial se as cenas são longas e há que evitar as repetições.

 

Em uma época em que traduções amadoras surgem na internet como uma opção para trabalhos que demoram a ser localizados, como você vê a importância do trabalho do tradutor "oficial"?

É fundamental. Se me permitem a analogia, a diferença entre uma tradução de internet e uma tradução a sério é a diferença que há entre um daqueles vídeos que se encontram no youtube filmados com telemóveis em concertos e os vídeos oficiais das canções. Há, e haverá sempre, quem consuma alegremente os _bootlegs_, mas quem tem alguma exigência foge deles como diabo da cruz.

Claro, a analogia é imperfeita. Porque a profissão tem maus tradutores, maus adaptadores de traduções, etc. Sempre os teve, como bem sabem os leitores da coleção Argonauta, e continua a tê-los. O aparecimento do fenómeno das traduções piratas faz com que não só os profissionais tenham de ter mais brio naquilo que fazem, como as próprias editoras devam estar bastante atentas, por um lado para se tentarem assegurar de que estão a contratar bons tradutores, e não apenas tradutores baratos, e por outro para garantirem a publicação mais rápida possível das obras mais relevantes em português. Nunca poderemos traduzir tudo; os mercados lusófonos pura e simplesmente não têm, nem nunca terão, dimensão para tal (até porque incluem a produção local, e ainda bem). Mas as obras que o público procura devem ser publicadas em português o mais depressa possível.

Até porque o público, se lhe forem dadas boas traduções profissionais, acaba por se aperceber da diferença. Se só lhe for dado lixo, prefere, como é óbvio, o lixo gratuito e rapidamente disponível. Tradutores incapazes de traduzir melhor do que o Google pura e simplesmente deixarão de ter trabalho muito em breve. Mas a diferença entre um livro mal traduzido e um livro bem traduzido é muito grande, e as pessoas apercebem-se disso. Mesmo as pessoas que fazem gala de usar mal a língua e tendem a rejeitar quem a usa bem. Até o gosto dessas se educa, se lhes servirmos pratos bem confecionados. Ninguém está condenado à fast-food.

 

Agradecemos a Jorge Candeias pela entrevista, para quem se interessar por seu trabalho como escritor, publicou conosco em algumas coletâneas como Imaginários v.2Vaporpunk Dieselpunk

10jul/110

Este é o mundo de Dieselpunk

Postado por: Erick Santos Cardoso



No Fantasticon 2011 teremos dois lançamentos, um é a coletânea Imaginários v. 4, organizada por mim, e a outra é sequência de Vaporpunk, Dieselpunk - arquivos confidenciais de uma bela época. O desafio de criar Dieselpunk, a primeira antologia em língua portuguesa sobre o tema e provavelmente uma das primeiras do mundo, foi desde evoluir a fórmula de Vaporpunk e buscar no retrofuturismo uma ferramenta para a ficção especulativa que pudesse oferecer reflexões e críticas de nossa própria história, até a criação de sua capa, que comento aquiDieselpunk possui uma temática sombria e vai fundo nos problemas e questionamentos da realidade do começo do século XX. O livro está em pré-venda na Livraria Estronho.

Abaixo um pequeno resumo feito pelos próprios autores que fazem Dieselpunk, confira o que vem por aí e comente o que achou.

Carlos Orsi

Fúria do Escorpião Azul

Numa São Paulo assombrada por uma cruel ditadura stalinista, os homens do partido oprimem a população com impunidade... até que a hora em que a gargalhada fúnebre e a vingança certeira do Escorpião Azul faz com que os tiranos voltem a conhecer o medo.

Octavio Aragão

O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado

Munidos com armamento especial, o bando de Virgulino Ferreira e a Coluna Prestes transformam o interior da Bahia no palco de uma batalha que pode influenciar não apenas o Brasil, mas o mundo.

Tibor Moricz

Grande G

A totalitária Smoke City vive dos motores a combustão, da fumaça e do prazer em manter a vizinha Steam City presa ao vapor e às caldeiras. Mas eis que seus cientistas descobrem a energia quântica e ameaçam revolucionar o mundo conhecido. Gigi entra em cena num ambicioso jogo de poder que ameaça as estruturas secularmente estabelecidas da cidade.

Hugo Vera

Impávido Colosso

Guerra! Vivendo uma era de desenvolvimento sem precedentes, o Império do Brasil é atacado. E a solução para o término do conflito poderá estar nas mãos de um jovem empreendedor que corre contra o tempo para colocar em prática seu mais ambicioso projeto.

Gerson Lodi-Ribeiro

País da aviação

No fim do século XIX, os irmãos Wright lutam para convencer o napoleão da Hegemonia Europeia a financiar a invenção do avião numa linha histórica alternativa onde a Marinha Francesa empregou navios a vapor para derrotar a Royal Navy na Batalha de Trafalgar.

Antonio Luiz M. C. Costa 

Ao perdedor, as baratas

Robbert Rip, agente secreto de Nova Amsterdã, tenta interferir na eleição de um candidato que pode mudar os destinos do Brasil de um mundo alternativo, no qual as vidas de conhecidos personagens da história e da literatura tomam rumos insólitos.

Cirilo S. Lemos

Auto do extermínio

É um século novo e terrível. Instabilidades políticas empurram o país para o caos. Após chacinar um grupo de integralistas, Jerônimo Trovão, influenciado pela visão de uma Santa, teme ter escolhido péssimos parceiros de negócios. Agora ele se vê preso numa teia de clones, experimentos militares, ideologias e paranormalidade.

Sid Castro

Cobra de fogo

Após a Era do Vapor, a Belle Époque foi apenas um breve interregno que antecedeu a nova época dos motores a explosão, dos foguetes e da indústria pesada. A veloz locomotiva voadora M'Boitatá, a “Cobra de Fogo”, é a última esperança do Brasil de proteger seus recursos da sanha colonialista das superpotências. Sua tripulação de maquinistas e agentes imperiais corre contra o tempo e veículos rivais poderosos e experientes.

Jorge Candeias

Só a morte te resgata

Nos desertos da Arábia trava-se uma guerra por recursos, opondo os aliados à superpotência tecnológica do tempo, a Confederação Lusitana. Jeferson, lusitano, combate pelos aliados. Mas uma carta vai mudar o curso da sua vida. Esta noveleta é sequela de "Unidade em Chamas", publicada na Vaporpunk.

3jul/118

Cabe mais um aí?

Postado por: Hugo Vera



Em 1982, em uma propaganda de TV para anunciar um famoso desodorante, uma cena interessante aparecia nos televisores dos lares brasileiros: um bondinho lotado, com vários passageiros em pé, e de repente aparecia uma garota para entrar também. De primeiro momento dava-se a impressão que não haveria espaço para ela, mas o bordão musical entoava a seguinte frase: "com Rexona sempre cabe mais um".

O comercial foi atualizado nos anos posteriores. Ainda nos anos 1980, o bordão foi repetido em uma cena com um balão, que também receberia mais um "passageiro", além de outras sequências, como a conhecidíssima (ao menos para quem é antenado em comerciais de TV) cena do elevador lotado. É engraçado que essa cena do elevador marcou tanto que até hoje, ao pegarmos elevador lotado, alguém tira o famoso bordão do fundo da memória e lança um "pode entrar, aqui é igual Rexona, sempre cabe mais um".

Claro que fica evidente que o famoso bordão foi inspirado no não menos famoso ditado popular: “coração de mãe sempre cabe mais um” (alguém duvida dessa frase?)

Trazendo esse bordão para o mundo da literatura fantástica brasileira, em tempos de sucessos internacionais como Crepúsculo, Harry Potter, Game of Thrones e tantos outros, estamos presenciando desde a segunda metade da década passada uma enxurrada de novos lançamentos de autores nacionais, sejam coletâneas quanto romances, a ponto de se questionar se esse crescente boom literário não chegaria a um limite, esgotando suas possibilidades para na sequência encolher, ou se prosseguiria em um crescente sem limites. Porém, não é minha intenção discorrer sobre esse tema, afinal, ele já abordado por outros blogueiros, críticos, especialistas e palpiteiros de plantão.

E no meio dessa "enxurrada" de lançamentos que vem acontecendo nos últimos anos, algumas provocações foram feitas às vésperas do lançamento da antologia Space Opera (organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso) no início deste mês, e que foram mencionadas no bate-papo realizado com os autores presentes no lançamento paulistano do livro. Quem esteve presente deve se recordar.

Uma das provocações mencionadas no bate-papo foi a de que estaríamos remando contra a maré, ao escrevermos histórias de aventuras espaciais, fugindo da "atual tendência" que seria o subgênero steampunk. A resposta bem humorada que dei no momento foi a que nós da Space Opera não "remamos", mas sim "navegamos no espaço"!

A outra provocação foi a de que o lançamento da Space Opera seria uma resposta à onda steampunk. Pura bobagem! Em cima disso, também falei durante o lançamento que não há respostas a serem dadas a ninguém e que não haviam duelos a serem travados, até por que nossas armas são muito melhores do que as da era do vapor! E isso arrancou risos do público presente. (Os chatos de plantão que provavelmente estão lendo estas linhas devem estar no momento pulando das suas cadeiras e apontando a tela dizendo: “A-há! Eu sabia! Existe uma ‘guerrinha’ acontecendo!”... Tolos!)

Em um lançamento de um livro sobre aventuras espaciais, não havia como não brincar com o tema, defendendo nosso lado e vendendo nosso “peixe” obviamente. Mas brincadeiras à parte, esse assunto de “guerra de gênero/subgêneros” ficou na minha mente, afinal, quando decidimos colocar em prática o projeto de organização de uma antologia, tanto eu quanto a Larissa Caruso não pretendíamos de forma alguma “dar respostas” a quem quer que fosse, quanto menos criar “novas tendências”. Apenas queríamos fazer algo bacana, algo que nós curtimos e que os leitores também poderiam curtir.

E em meio a essas provocações, achei interessante que em um momento de expansão da literatura fantástica brasileira novas editoras surgiram, criaram-se novos selos editoriais, surgiram novos autores (que talvez já existissem, mas nunca foi dada a devida importância até então), e tantas outras coisas que vêm acontecendo, vem a turma dos “chatos de plantão” para insinuar possíveis rivalidades no meio.

Não, meus amigos. Não há guerra de subgêneros. Eu pelo menos não vejo assim. Não há concorrência para ver qual é o melhor nem qual vende mais. Não há tendências (talvez "modismos"?). O que há é pura e simplesmente um bando de escritores, desde os veteranos aos mais novatos, que estão buscando seu espaço, querendo apresentar seu trabalho, independente do gênero ou subgênero.

E falando em buscar espaço, a Draco é um exemplo de editora que apoia a literatura fantástica brasileira, independente de sua vertente. E como exemplo disso, cito apenas alguns de seus recentes lançamentos: Vaporpunk (steampunk), Necropolis (dark fantasy), O Baronato de Shoah - A Canção do Silêncio (steam fantasy), O Castelo das Águias (fantasia), Space Opera (space opera/FC soft) e o em breve Dieselpunk (dieselpunk).

Vendo os exemplos que coloquei, a única tendência que vejo é o gosto que essa editora tem por investir na literatura fantástica nacional (Oba! Já era hora de alguém se preocupar com isso!)

Portanto, não há nenhuma briga acontecendo, a não ser aquela que ocorre na cabeça de alguns poucos desocupados que querem ver flame wars entre os colegas do meio, sejam nas redes sociais ou nos bastidores. Mas como diz o velho alerta internético: "Não alimente os trolls"

O fato é que há espaço para todo mundo. E é isso o que importa!

Há espaço para os vampiros, as fadas, os zumbis, as naves espaciais, os dirigíveis à diesel, as máquinas à vapor, os alienígenas, as princesas, as viagens no tempo, os elfos, os ogros, os cowboys e até para os fantasmas. Basta colocar no papel.

A Literatura Fantástica Brasileira, meus amigos, é igual Rexona: sempre cabe mais um!
E o leitor agradece!

27jun/1110

Dieselpunk – reimaginando o passado

Postado por: Erick Santos Cardoso



Quando eu e Gerson, que trouxe a mim a Vaporpunk, acordamos a publicação da Dieselpunk, sabia que a expectativa dos autores e público seria ainda maior por conta do trabalho realizado na capa da coletânea de steampunk. Falei um pouco sobre isso na entrevista que acabou de sair no blog do Romeu Martins, a quem agradeço pelo espaço e divulgação, como sempre. Sendo assim, como toda estética retrofuturista oferece temas que tanto gosto e com grande potencial para criação de imagens, tratei de bolar um detalhado projeto para a realização dessa peça, tentando aprender com os muitos tropeços do processo anterior. Ei-lo.

Detalhado projeto para ilustração em 3D

Quero dizer, pelo menos é assim que eu imaginava. Referências que não me saíam da mente eram o logo da 20th Century Fox e o game Bioshock, além da arquitetura no estilo art decó, pois não imagino uma época de grandes metrópoles sem enfatizar os prédios e a vida nas cidades grandes. No cinema, além do Metropolis de Fritz Lang, me inspirou muito Sky Captain. Vocês podem notar que há um trem no original que não passou para a versão final. Ah, não deu pra ver que era um trem, ali?

20th Century Fox

Arquitetura 'art decó'

Nova Iorque no começo do séc. XX

Bioshock

Sky Captain

Metropolis, Fritz Lang

Como desenhista, gosto sempre de rabiscar alguma coisa para visualizar a ilustração, não importa onde eu vá executá-la. Então esse mesmo rascunho acima ficou em minha mesa por muito tempo, enquanto eu imaginava a hora em que deixaria de  procrastinar e começaria o desafio. É um desafio como proposta como toda ilustração é, mas ainda mais porque meu domínio de ferramentas 3D é muito básico. Por isso comecei pela montagem com uma imagem de São Paulo, de autoria de Luke Chiconi, que durou 4 horas.

São Paulo como todos conhecemos em foto de Luke Chiconi.

São Paulo "dieselpunk", por mim.

Aí, aprendendo com as cabeçadas e presepadas do último episódio em Vaporpunk, era só modelar, mas antes, dei uma passadinha no 2D e desenhei todas as formas para evitar ter que fazê-las em ambiente 3D, pois isso é muito mais chato e pouco produtivo.

Dieselpunk em 2D

Depois foi só aplicar a extrusão e texturas, mas então fiquei em dúvida sobre como colorir a moldura. Na minha cabeça ela tinha que combinar com a cidade, então fiz várias tentativas com tons parecidos, mas não cheguei a um resultado satisfatório. Então lembrei do cinema e do noir, referências que tinha em segundo plano e já diziam tudo: cores neutras que dessem o clima sem brigar com a imagem da cidade, estava decidido. Vejam alguns testes que não passaram:

Começou a misteriosa arte da iluminação, que levou vários e vários renders menores, pois o final demorou 3 horas no meu PC. Foram tantos testes que davam até uma animação, se eu postasse. Mas enfim consegui posicionar as luzes para dar as sombras e clima desejados e mais uma capa estava pronta. Adoraria ler os seus comentários a respeito.

Dieselpunk - capa em versão aberta e final