“Dragões” – Coletânea – Guia para submissão de contos
Quando anunciamos as primeiras ações para 2012, o Ano do Dragão, trouxemos a coletânea Dragões. Para comemorar esse ano especial, a coletânea sairá em 30 de Novembro de 2012, que é justamente 2 dias depois do terceiro aniversário da Editora Draco.
A ideia da coletânea surgiu em um papo com o Marco Rigobelli, que será o meu co-organizador nesse projeto. Não importa se são dragões ancestrais, dragões que viram gente ou gente que vira dragão, dragões fantasmagóricos, dragões virtuais criados em ciberespaço, dragões que raptam donzelas (mas vai ser difícil fazer algo nesse sentido que não seja batido, então se for por esse caminho é melhor tomar muito cuidado). Estava claro que era uma junção de histórias em que
Os Dragões são os protagonistas.
Após muito pensarmos no assunto, entendemos que a primeira regra é abraçar todos os gêneros possíveis em sua concepção. Se os dragões são famosos por povoar o imaginário de diversas culturas, então deve-se ficar claro que
São válidos dragões inspirados em quaisquer culturas da Terra e de outros universos imaginários de autoria do próprio contista/novelista (Fanfics não são válidos).
Mas como entusiastas de boas narrativas que somos, sabíamos que enfiar bichos mitológicos legais não seria nada se não houver um ótimo desenvolvimento dos personagens e uma clara demonstração da ambientação onde se passa a história. Portanto é necessário um tamanho adequado nos contos, beirando as noveletas com
No mínimo 5000 palavras, máximo 8000 palavras. Ou se preferir, mínimo 30 mil toques, máximo 50 mil toques (favor não confundir, é mais comum do que parece)
Serão 8 histórias que comporão o livro, sendo que eu, Erick Santos Cardoso, participarei com uma história ao lado de 7 autores. Não temos autores convidados, então abrimos oficialmente o recebimento dos contos agora mesmo com o
Fechamento para recebimento de obras será em 31 de Julho de 2012.
Para ter certeza que o seu material será avaliado, envie impreterivelmente até o prazo acima para o e-mail
editoradraco arroba gmail.com com o assunto [DRAGOES - NOME DO AUTOR]
O formato para recebimento é obrigatoriamente
Contos salvos em textos com formatações de itálicos e negritos já aplicados, .RTF ou .DOC
Então que comece a temporada de caça ao último dragão, que despertem bebês petrificados após muitos anos, que surjam na Terra após uma catástrofe e sejam os causadores do apocalipse, que um dragão devorador de dados seja a maior IA já criada por um garoto de 8 anos, que um deus das tempestades venha amar uma devota por quem se apaixonou. São muitas ideias, são muitas possibilidades. Estamos ansiosos para conhecer os Dragões da Literatura Fantástica Brasileira.
Resumo
Coletânea: Dragões
Organizadores: Erick Santos Cardoso e Marco Rigobelli
Conteúdo: Os Dragões são os protagonistas. São válidos dragões inspirados em quaisquer culturas da Terra e de outros universos imaginários de autoria do próprio contista/novelista (Fanfics não são válidos).
Formato: Contos salvos em textos com formatações de itálicos e negritos já aplicados, .RTF ou .DOC
Tamanho: No mínimo 5000 palavras, máximo 8000 palavras. Ou se preferir, mínimo 30 mil toques com espaços, máximo 50 mil toques
Recebimento: 31 de Julho de 2012
Aonde enviar: editoradraco arroba gmail.com com o assunto [DRAGOES - NOME DO AUTOR]
Resultados: 20 de Setembro de 2012
Lançamento: 30 de Novembro de 2012
Esse é o #AnodoDragao na @EditoraDraco.
O Brasil Fantástico está chegando
Primeira parceria entre o Clube dos Leitores de Ficção Científica – CLFC e a Editora Draco, a coletânea, Brasil Fantástico – Lendas de um país sobrenatural, anunciará o nome dos contos selecionados no dia 15 de junho. Foi um total de 84 submissões com contos de temáticas das mais variadas sempre envolvendo personagens da mitologia brasileira e suas influências da África e de Portugal. Participaram autores de vários estados do Brasil. Além disso, vieram submissões de outros países como Estados Unidos, Portugal e Cabo Verde.
Os organizadores são: o presidente do CLFC, Clinton Davisson, e a jornalista Grazielle De Marco. A última coletânea lançada pelo Clube foi em 2005, intitulada 20 Voltas ao Redor do Sol, para comemorar os 20 anos de fundação da entidade.
A capa é obra de Osmarco Valladão, indicado duas vezes ao troféu HQ Mix, que já fez parceria de sucesso com Clinton Davisson ao desenhar a capa de Hegemonia – O Herdeiro de Basten, já apontada pela crítica especializada como uma das mais bonitas da ficção científica nacional.
Segundo Clinton, o objetivo da coletânea é mostrar uma nova perspectiva das lendas do folclore nacional enfatizando o lado mais assustador dessa mitologia que é única. “O sucesso fora do país das histórias do norte-americano, Christopher Kastensmidt, baseado em figuras do Brasil, mostrou que nossa mitologia tem tudo para deslanchar. O saci, por exemplo, pode ser hoje visto como uma figura simpática, amiga do Pedrinho do Sitio do Pica-pau Amarelo, da obra maravilhosa de Monteiro Lobato. Mas por isso mesmo ele ficou estigmatizado como um monstrinho sem sal. Está na hora de lembrar que o saci nasceu como uma história de terror que assustou crianças durante mais de 300 anos no Brasil”, lembra Clinton, que elogiou a qualidade dos contos recebidos e afirmou que a selecionar os dez vencedores está sendo um grande desafio.
Já a jornalista Grazielle de Marco, é leitora assídua de livros de fantasia e ficção científica e ressalta o vasto caminho a ser explorado pela fantasia nacional levando em conta as diversas possibilidades que a mitologia brasileira, africana e portuguesa apresentam. “Eu já morei em Portugal e sei, por exemplo, que a Cuca, é uma história de terror lusitana, conhecida como A Coca, que migrou para Brasil. Apesar das recentes iniciativas de algumas editoras, o folclore nacional ainda é pouco explorado”, destaca.
Os organizadores também têm planos para fazer um filme curta metragem que servirá de divulgação para a obra. “Temos o roteiro, temos uma produtora de vídeo nos apoiando e temos a história certa. Mas vamos esperar a seleção final porque, até lá, todo o nosso foco está voltando a cumprir o prazo pré-estabelecido de entregar os dez contos selecionados”, explica Clinton.
O anúncio dos 10 contos selecionados será no próximo dia 15 de junho.
[Top 5] Antonio Luiz M.C. Costa
Em Crônicas de Atlântida – O tabuleiro dos deuses, romance de estreia de Antonio Luiz M. C. Costa, editor e colunista na revista Carta Capital, os deuses começaram mais uma partida de um jogo milenar secreto no qual o mundo fantástico de Kishar é o tabuleiro e os heróis humanos seus peões. Mas até eles serão surpreendidos com o desenrolar dos acontecimentos, pois novos jogadores se intrometem para mudar as regras e virar a mesa, enquanto as peças se rebelam e querem decidir seus próprios destinos.
Baseada em diversas fontes, como os escritos de Platão e referências esotéricas, a reconstrução da lendária Atlântida é de um detalhamento impressionante, e a viagem do leitor enquanto acompanha as descobertas da sensual xamã Tiakat, do idealista guerreiro Sistu e da exótica e talentosa Tjurmyen será inesquecível.
Para esse triângulo amoroso, a fantástica capital e seus segredos será uma rede que os envolverá nas mais altas intrigas em um mundo no qual a magia, a religião e a ciência andam de mãos dadas. A capital de Atlântida será o palco de um conflito em que uma era será decidida, mas que pode significar o fim de um legado de desenvolvimento nunca atingido entre todas as raças humanoides.
“Se quiserem entender os nativos, terão de ficar atentos, pois eles falam com seus sotaques nativos, não na língua dos âncoras da tevê. Precisarão desembarcar em solos estranhos e achar o caminho com os próprios pés. Em compensação, serão recebidos por deuses e ninfas e conhecerão grandes vates e bardos. Caso se atrevam, terão a oportunidade de partilhar o leito com tórridas ou tórridos amantes. Mas com uma coisa não precisam se preocupar: não se perderão em quimeras nebulosas, em devaneios insinceros. Esta caixa contém meia dúzia de pílulas meio vermelhas, meio azuis, para se ver realidades com os olhos da fantasia”. Sim! Não encontramos palavras melhores que estas para descrever o convidado deste Top 5: Antonio Luiz M.C. Costa, autor do romance Crônicas de Atlândida – O Tabuleiro dos Deuses e da antologia Eclipse ao Pôr do Sol, que você pode encontrar aqui e aqui. Vamos lá, então.
1. A Teosofia, e como obras mais representativas, O Homem: donde e como veio, e para onde vai?, de Annie Besant e C. W. Leadbeater e Atlântida e Lemúria, Continentes Desaparecidos, de W. Scott-Elliot
Foi o interesse da minha avó materna por teosofia que primeiro despertou minha curiosidade sobre Atlântida. Os pormenores bizarros que esses livros dão sobre a vida, a tecnologia e as raças do continente desaparecido, supostamente desvendados por clarividentes, deram carne e sangue ao cenário e foram quase sempre aproveitados, embora eu tenha mudado nomes étnicos para evitar mal-entendidos sobre povos da história real.
Claro que eu tomei a liberdade de subverter o racismo do discurso teosófico, que descreve uma hierarquia racial estrita para justificar o colonialismo, a conquista e extinção dos povos de pele escura, o antissemitismo e a supremacia da “quinta raça”, a “ariana”. Fiz o mesmo com o tom de moralismo hipócrita, bem vitoriano, desses textos, que ora elogiam a sobriedade e austeridade, ora imaginam o luxo mais desmedido e as orgias mais bestiais de civilizações decadentes com um fascínio mal disfarçado pelo tom de censura.
Também usei o diálogo Crítias, de Platão, para reconstituir a geografia de Atlântida, a topografia da capital e alguns aspectos de seu governo, mas o cenário é na maior parte inspirado por uma teosofia virada do avesso.
Draco: e o Brasil, não tem nada a ver com a sua Atlântida?
Têm traços em comum, mas não foi preciso forçar a mão. Apenas aproveitei a concepção teosófica da Atlântida como uma terra na maior parte tropical (os mapas de Scott-Elliot põem sua capital está quase na linha do Equador) e multirracial, habitada por povos de diferentes cores de pele que convivem e se misturam, à parte os conflitos e preconceitos que às vezes os dividem.
O resultado acabou sendo uma civilização exótica, mas com muitos pontos em contato com o Brasil. Com alguns detalhes que são compatíveis com a tradição esotérica e podem soar por aqui como uma inversão irônica da realidade: o povo dominante e imperialista, o senzar (“tolteca” para os teósofos) é semelhante ao nosso povo conquistado e humilhado, o indígena; os negros tlavatli têm um estatuto intermediário e os brancos são uma minoria pouco importante. Serviu muito bem aos meus propósitos de criar uma história interessante para um leitor brasileiro e que, mesmo sendo fantasia, faça pensar também sobre o mundo que o cerca.
2. Romances e contos romanos, orientais e africanos
Procurei referências e inspiração em obras como O Asno de Ouro, de Apuleio, o Satyricon de Petrônio, As Mil e Uma Noites do folclore árabe e uma coletânea publicada em castelhano como Cuentos Amorosos Chinos que é seleção de uma antologia chinesa do século XVII conhecida como Xingshi hengyan (“Contos para despertar o mundo”), além de contos orais da tradição iorubá (caso alguém não tenha notado, Tiakat é inspirada em Iansã).
Além de um recurso que usei várias vezes – o de contar histórias dentro da história – esses textos oferecem modelos autênticos de sociedades pagãs civilizadas e urbanas nas quais a magia é aceita como um fato da vida. Não são cristãs nem anticristãs: a conversa nelas é completamente outra. Há honra, há vergonha, mas a culpa sequer se coloca. São contos e romances e não sagas e epopeias: apesar da presença do fantástico e da magia, contam histórias da vida num contexto social realista.
Não são heróis que matam monstros em ermos selvagens, impõe a lei e a justiça a uma terra sem paz ou cultura. Seus protagonistas vivem uma sociedade muito diferente da nossa, mas civilizada, urbana e complexa, precisam de comida, sexo e dinheiro, mas sem deixar de ter paixões e ideais. São frequentemente picarescos e sua trajetória lhes exige mais frequentemente burlar leis e normas do que desafiá-las de peito aberto ou fazê-las cumprir. Como Aladin ou Sinbad, podem se tornar heroicos ou poderosos, mas não sem fazer muitas coisas tolas e dar vexames pelo caminho.
Draco: e por que esses textos e não os das lendas medievais?
Quando me propus escrever um romance de alta fantasia, um de meus objetivos era ultrapassar os limites das versões idealizadas da Idade Média anglo-saxã que dominam a literatura de fantasia britânica e estadunidense e seus imitadores. Ou seja, J. R. R. Tolkien, George R. R. Martin e assim por diante. “Idealistas” ou “realistas”, criei birra de heróis cujo valor supremo é defender o Western way of life (dos Westerlings ou de Westeros) contra os bárbaros invasores que virão do Norte, do Sul ou do Oriente.
Não me sinto obrigado a escrever sobre o Brasil, mas me parece bobo obcecar-se pelo passado de uma ilha sem relação direta com meu passado quando o mundo é mil vezes maior e muitas vezes mais antigo. Não cresci visitando castelos e ouvindo histórias sobre Artur e a Távola Redonda. Se quiser escrever sobre a Idade Média europeia, preciso pesquisar. Então, por que não pesquisar sobre outras civilizações e tentar fazer algo mais original? Digamos que este é um romance de fantasia para a era dos BRICS. De europeu (à parte os gregos e romanos antigos) só tem a alusão à Revolução Francesa, à Queda da Bastilha e às bandeiras tricolores.
Também porque decidi deixar de lado, ao menos nessa obra, a rixa entre paganismo e cristianismo. É uma história que contada com criatividade e sem preconceitos pode ser interessante – como, por exemplo, em O Inquisidor de Valerio Evangelisti –, mas na literatura de fantasia brasileira frequentemente se torna um clichê repetitivo e maniqueísta, uma briga de torcidas que raramente diz algo além do previsível, quer o autor idealize os cristãos, quer os abomine. Achei que era hora de variar e falar de outros conflitos.
3. Xena, a Princesa Guerreira
O seriado para a tevê de Robert Tapert rodado de 1995 a 2001. Do ponto de vista histórico, o seriado da televisão era um samba do grego doido, como diz o Cirilo. Entre outros crimes de lesa-história, pôs Hércules, a Guerra de Troia, o sacrifício de Isaac, Júlio César, o Egito antigo, a Atenas clássica, a dinastia Ming e a derrota dos deuses pagãos na mesma época, junto a nomes modernos (Gabrielle, por exemplo...) e trajes e arquiteturas pseudomedievais numa suposta Grécia mítica. Mas a trajetória meio heroica, meio picaresca de Xena e sua companheira ajudou a moldar a dos meus personagens e também me convenceu de que era possível criar esse tipo de protagonistas e envolvê-los em relações homossexuais e outros relacionamentos heterodoxos sem afugentar o público que eu queria atingir.
Draco: você se refere à ideia de poliamor?
Não quis levantar uma bandeira assim tão específica, mas a liberdade de pensar fora da caixa e inventar maneiras de amar e se relacionar, de escrever outras linhas além das que já foram traçadas antes de nascermos. O importante é a sugestão de buscar prazer e alegria no sexo e no amor, sem se prender aos modelos oficialmente aceitos do casamento monogâmico e da solteirice de relações sem nenhum compromisso, efêmeras e superficiais. Como meus protagonistas lutam por liberdade, igualdade, e fraternidade (não é por acaso que são três), me pareceu natural se expressarem sexualmente em algo parecido com o que hoje se chama poliamor, no século XX foi chamado de amor livre por comunidades alternativas e pensadores como Bertrand Russell e no século XIX era chamado de omnigamia pelo utopista Charles Fourier.
Já a luta dos antagonistas é por uma sociedade hierárquica de senhores e servidores, de super-homens, guardiães a seu serviço e escravos. Isso se expressa sexualmente em sadismo e masoquismo – as coisas reais, não o “sadomasoquismo” lúdico, de mentirinha, que pressupõe consensual, acata limites tácitos e às vezes é reversível. É o ideal anunciado um tanto ironicamente no Zaratustra de Nietzsche e que encontra uma expressão mais literal, erótica e grotesca na série de fantasia Gor, de John Norman.
Uma coisa que me chamou a atenção na Guerra dos Tronos do George R. R. Martin (que só li depois de escrever Crônicas de Atlântida) é que nela parece que só os “maus” têm prazer sexual. Essa assimetria, para mim, soa falsa e desagradável. Na minha história, protagonistas e antagonistas querem viver sua verdade, que não é a moral tradicional atlante. Nesta, a norma é o casamento por interesse arranjado pelas famílias (monogâmico ou bigâmico), combinado com ampla tolerância de relações extraconjugais.
Draco: e de filmes e quadrinhos sobre a própria Atlântida, nada?
Muito pouco. Quase todos se fixam na exploração ou redescoberta da cidade já destruída e isso não me interessava. A exceção é Atlântida, o continente perdido, filme de 1961 de George Pal que se passa nos dias anteriores ao afundamento e reproduz concepções que não se devem à teosofia, mas a certos autores dos EUA (o escritor Ignatius Donnelly e o médium Edgar Cayce, por exemplo) e se tornaram lugar-comum do imaginário sobre essa civilização: o uso de escravos meio-animais e de cristais como fonte de energia.
Draco: e de outros filmes ou quadrinhos?
Para não dizer que o cinema não ajudou em mais nada, usei dele alguns tropos – uma maneira elegante de dizer “clichês”. Por exemplo, a ideia de deuses fazerem do destino dos humanos um jogo de tabuleiro, que é recorrente no cinema e nos quadrinhos desde, pelo menos, Jasão e os Argonautas, filme de Don Chaffey de 1963. Leitores atentos certamente descobrirão outros. De gibis, embora eu tenha lido muitos, não me lembro de ter usado nada. Se houve alguma influência, não foi consciente.
4. Literatura de fantasia
A literatura de fantasia forneceu o quadro em relação ao qual eu quis inovar. Crônicas de Atlântida tem uma dívida para com o clima de exotismo, liberdade e sensualidade da série Barsoom de Edgar Rice Burroughs – e a seus marcianos, nos quais meus “senzares” são em parte inspirados. Imagino Artás, em especial, como parecida a Dejah Thoris em corpo e espírito. Com a dos romances, bem entendido, e não com a do pasteurizado filme da Disney.
Outros elementos – e a concepção de outros povos – vêm da obra de Robert E. Howard, homenageado por meio de um personagem secundário inspirado não em Conan, mas num herói mais antigo e menos conhecido que ele também criou. E se meu livro nada deve à mensagem de O Senhor dos Anéis, deve muito ao método: a proposta de construção de um minucioso mundo ficcional (mundo secundário, diria Tolkien), com sua própria história, geografia, costumes, povos e línguas, embora muito diferente da Terra Média em clima e espírito. E cujos detalhes se estendem para muito além do livro propriamente dito. Aos interessados, convido a visitar e explorar o site Crônicas de Atlântida: a enciclopédia.
Draco: e a chamada “Jornada do Herói”, não teve um papel?
Está presente como modelo implícito contra o qual os protagonistas se rebelam e que acabam por reformular à sua maneira. Se há algo que está ficando cansativo na literatura de fantasia é a obsessão por tentar repetir o sucesso de Guerra nas Estrelas usando ao pé da letra o modelo de Joseph Campbell, ou pior, o de Cristopher Vogler, como se fosse um miojo ao qual você só acrescenta água e tempero. Para cada oficina sobre a “jornada do escritor”, para cada livro que recicla e mastiga de novo esse bagaço espremido, provavelmente há algumas centenas de autores iniciantes iludidos que entediam os editores com o eterno retorno do mesmo livro mal escrito.
5. Literatura moderna...
...e com isso quero dizer uma maneira de contar histórias a partir do ponto de vista dos protagonistas e enfatizar o caráter parcial e relativo da experiência humana, comum em toda a literatura contemporânea, mas especialmente o modernismo, com seu interesse pelo progresso e pelos movimentos sociais e históricos em grande escala, sem desdenhar a importância dos sonhos, das utopias, dos mitos e do inconsciente na construção da realidade, como mostraram, por exemplo, James Joyce, Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Mário de Andrade e Guimarães Rosa, para citar alguns dos meus favoritos. Não que eu tenha tentado imitar seus estilos: nessa obra, escrevi da maneira mais simples e direta que pude.
Se houve uma influência particularmente importante, foi a de Bertolt Brecht. Claro que Crônicas de Atlântida não é teatro épico, mas pede uma perspectiva crítica. Procura dar a consciência de que a realidade é construída, poderia ser diferente daquilo que o leitor conhece como normal e rotineiro e pode ser transformada em maior ou menor grau, conforme as circunstâncias.
Não chegou a se atrever às chocantes técnicas brechtianas de estranhamento – tais como o personagem que suspende a ação e se dirige diretamente ao espectador, lembrando-o de que é uma peça –, mas procurou efeitos semelhantes por meios mais sutis. Imerge o leitor num mundo estranho, com sua própria linguagem e costumes e o faz acompanhar personagens criados com concepções morais bem peculiares, que acentuam a relatividade dos valores. Os próprios personagens contam e ouvem histórias e discutem sua verdade, para lembrar que esta é mais uma.
Evitei cenas catárticas de fúria e vingança e desenlaces emotivos que instigariam a suspender o senso crítico. Vez por outra, os personagens refletem, com certo senso de ironia e paródia, sobre seu próprio papel e a trama na qual estão envolvidos, embora eu tenha procurado fazer isso de maneira a parecer compatível com o contexto e não quebrar a suspensão da descrença. Veem os fatos com objetividade, raramente se exaltam, não pretendem ser santos nem paladinos, recorrem a concessões e expedientes dúbios quando convém a seus objetivos e, assim que podem, fogem do papel de salvadores e chamam o povo a fazer sua parte para que também eles possam ser felizes à sua maneira, como o Galileu da peça de Brecht.
Draco: e autores contemporâneos de fantasia, como China Miéville?
Em termos de influência, não. Li o Perdido Street Station quando meu romance já estava pronto. Mas tanto ele quanto eu quisemos criar alternativas à fantasia idealista, conservadora e de fundo religioso de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis e temos pontos de vista marxistas, o que resultou em algumas analogias na forma e no conteúdo. Também ele recorre a uma imersão total numa realidade alternativa, presta especial atenção no cenário social, e recorre ao estranhamento e à ironia. Mas o cenário dele é enfumaçado, sombrio e pessimista, enquanto o meu é tropical, ensolarado e esperançoso. Ele se esforçou por impressionar, assustar e comover com os horrores deste mundo e eu por fazer pensar em como ele poderia ser transformado.
Draco: qual, exatamente, o papel do marxismo na sua história?
Minha visão do mundo real certamente teve reflexos sobre a concepção do mundo imaginário – por exemplo, na importância das relações e conflitos de classes, no papel da ideologia, da coletividade e dos indivíduos, no caráter contraditório e incerto da realidade –, mas não tive a intenção de criar uma obra marxista. O mundo de Crônicas de Atlântida não é o do materialismo histórico, pois nele os deuses e o sobrenatural realmente existem e não tem a perspectiva de uma revolução comunista, pois não é capitalista.
O que tem é o questionamento das bases da sociedade, do poder e da ideologia, sejam quais forem e até mesmo no além, sem impor respostas além das inspiradas pela fantasia. Não se pretende mais do que fazer o leitor começar a se perguntar sobre o que sempre lhe pareceu evidente. Fora isso, há uma piscada de olho para o leitor que já leu alguma coisa de Marx e outra para quem já ouviu falar de Paulo Freire.
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No que restou dos Estados Unidos de um futuro dominado pelos BRICs, um ex-presidiário necessitado de dinheiro aceita fazer um serviço arriscado para uma organização extremista e se envolve numa intriga perigosa, na qual intervêm as forças especiais comandadas por um certo capitão Ramiro.
Além de Crônicas de Atlântida e Eclipse ao Pôr do Sol, Antonio Luiz M.C. Costa também escreveu Brazil Reloaded, noveleta que você pode adquirir na Amazon por apenas $0,99. Conheça esse e outros Contos do Dragão clicando aqui.
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Antonio Luiz M. C. Costa sempre gostou de literatura em geral e de fantasia e ficção científica em especial, mas formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e trabalhou como analista de investimentos e assessor econômico-financeiro antes de reencontrar sua vocação na escrita, no jornalismo e na ficção. Hoje escreve sobre a realidade na revista CartaCapital e sobre a imaginação em outras partes, além de colaborar com os meios a seu alcance para o desenvolvimento da ficção especulativa no Brasil.
O Dragão e a Maçã
Lá no começo do ano chegamos à Amazon e lançamos a coleção Contos do Dragão. Mais sobre esse nostálgico momento aqui.
Agora, enquanto a Apple não chega ao Brasil por conta das negociações e adaptação à nossa realidade fiscal, é com orgulho que anunciamos que a Draco já é parceira da Maçã (ou como diria JJ, Áppuruuuu).
Por enquanto estamos com 12 títulos disponíveis em iBookstores internacionais no iTunes: Estados Unidos, Canadá, Portugal, Espanha, Inglaterra, Itália e muitos outros países completam 32 lojas que fazem parte desse lançamento. As lojas da América Latina, incluindo o Brasil, ainda passam por homologação. Logo que estivermos disponíveis nessas regiões, assim como nos continentes asiático (alô, brasileiros no Japão!) e africano, avisaremos por aqui.
Você que é brasileiro, português ou quer ler literatura fantástica em nossa querida língua pátria, só precisa ter conta no iTunes nos países acima para poder baixar agora mesmo os primeiros títulos para leitura no aplicativo iBooks para iPhone, iPad, iPod Touch e todos e quaisquer dispositivos que venham a utilizar o iOS.
É só o começo, em breve ampliaremos o catálogo e todos os draconianos poderão usufruir dessa Maçã não mais proibida. Baixe já uma sample dos títulos para conhecer e participe da promoção do Facebook, ao chegarmos a 2000 curtir, sortearemos 15 promos codes para 15 sortudos que escolherão qual livro querem ler.
A Sombra no Sol - Eric Novello
Dividindo Mel - Iris Figueiredo (link disponível amanhã)
O Baronato de Shoah - A Canção do Silêncio - José Roberto Vieira
O Castelo das Águias - Ana Lúcia Merege
O desejo de Lilith - Ademir Pascale
Selva Brasil - Roberto de Sousa Causo
Este é o #AnodoDragao, sim senhor!
#DracoSpirit
SPACE OPERA: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia Não Muito Distante
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O PROJETO SPACE OPERA
O significado do termo "space opera" já foi comentado neste blog em postagens anteriores. Porém, para aqueles que não se recordam, ou que ainda desconhecem, vale explicar que este subgênero da Ficção Científica destaca-se pelas aventuras espaciais e planetárias, utilizando-se muitas vezes de cenários exóticos e personagens heroicos, em histórias repletas de drama, ação e conflitos pessoais. A expressão foi criada nos anos 1940 nos EUA em analogia às melodramáticas radionovelas da época, então chamadas de “soap operas” (óperas de sabão) devido serem patrocinadas por marcas de sabão em pó. Para nós brasileiros, “space opera” pode ser melhor traduzida como “novela espacial” do que como “ópera espacial”, como muitas vezes é feito.
E falando em aventuras, quem nunca imaginou viajar em uma nave estelar e explorar novos mundos? Ou lutar contra um temido Império Galáctico? Ou destruir implacáveis robôs que tentam exterminar a humanidade? Ou ainda travar uma luta mortal contra um arqui-inimigo usando armas do futuro? E ainda salvar o planeta, ou a galáxia, ou até todo o universo?

Por ocasião do lançamento da primeira antologia brasileira de ficção científica espacial – Space Opera: Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final – em junho de 2011, muito se falou sobre o mais famoso subgênero da Ficção Científica.
Até o lançamento deste livro – que hoje chamamos de “Space Opera I” – parece que esse subgênero havia sido esquecido, renegado pelos fãs de Ficção Científica em favor de outros subgêneros, tais como o steampunk, por exemplo. E com o “boom” de coletâneas lançadas pelas editoras de literatura de gênero no Brasil, trazendo os mais variados temas, questionei-me: “onde estão as boas e velhas aventuras de space opera?”
Alguns de vocês vão dizer que no Brasil não temos tradição científica e tecnológica (que dirá espacial), e que somos um país rural e atrasado, e que nosso sistema educacional e cultural não propiciam a admiração desse tipo de literatura. Vão dizer ainda que enquanto russos e americanos (e agora chineses, e até indianos!) pensam em chegar às estrelas, nós ainda nos preocupamos com agricultura e pecuária, aqui mesmo em terra firme. E, além disso, vão mencionar o preconceito reinante que leva a crer que space opera é coisa para meninos, e que as meninas (já rotuladas por não gostarem de ficção científica), detestam histórias de heróis e vilões em suas naves espaciais, em meio a conflitos políticos, batalhas espaciais, alienígenas, robôs, espionagens, armas e tecnologias do futuro.

Larissa Caruso e Hugo Vera (organizadores)
Tínhamos, portanto que colocar isso a prova, pois eu não acreditava que uma temática que também é sucesso no cinema e na TV não tinha mais espaço na literatura de gênero no Brasil.
Foi assim que apresentei à escritora Larissa Caruso o que eu chamava de “Projeto Space Opera”, durante uma gostosa conversa sobre o tema. Começamos bem, afinal, além de a Larissa ser uma ótima amiga e uma pessoa divertida, ela veio a se tornar minha companheira literária de aventuras intergalácticas.
Com a parceria firmada, iniciamos nossa aventura pelos rumos da space opera clássica. E agora, o destemido herói e a adorável e valente mocinha, unidos para salvar o universo, tinham que inevitavelmente enfrentar um poderoso vilão (o editor), líder máximo de um temido império galáctico (a editora) e que domina opressivamente os cidadãos da galáxia (os leitores).
Na edição de 2010 do Fantasticon – Simpósio de Literatura Fantástica – em São Paulo, Larissa e eu tivemos a oportunidade de encontrar o editor Erick Santos Cardoso, da jovem Editora Draco (Ei! Este é o blog dela, não?), e que se mostrou bastante receptivo à nossa proposta de publicar uma antologia com aventuras espaciais, em uma época onde só se falava em steampunk e vampiros. E assim, partimos em nossa odisseia fantástica.
Ao organizarmos o primeiro livro, Larissa e eu optamos por não abrir submissões públicas de textos. Em primeiro lugar, não tínhamos tempo para avaliar as dezenas de contos que poderiam surgir (nossas atividades profissionais e pessoais impediriam isso), e segundo, pelo fato de que gostaríamos de ter conosco escritores interessantes que tivessem uma real afinidade com o projeto que estávamos desenvolvendo. Assim, convidamos alguns autores que julgamos que pudessem contribuir com a antologia. A fórmula deu certo, e nós a mantivemos na proposta da segunda antologia (que falaremos mais abaixo).
O curioso é que muitos nos perguntaram se haveria possibilidade de abrir submissão pública caso houvesse uma continuação do projeto, isso antes de anunciarmos a vinda de um segundo volume. Houve aqueles que até se ofereceram para participar "do possível segundo livro". Isso nos deu a certeza de que o trabalho realizado foi muito bem visto e admirado, e nos estimulou a continuar. Porém, mal terminamos a organização do Volume DOIS e já há quem volte com os mesmos questionamentos a respeito de submissões públicas para um hipotético terceiro livro. Quem sabe? Mas a princípio, seguimos com o formato que foi bem sucedido, e o projeto se mantém contido nos Volumes UM e DOIS.
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A SPACE OPERA II
Depois da experiência com a primeira antologia, desde a organização dos textos à publicação propriamente dita, seguimos com a divulgação massiva da obra. Dentre outras ações, participamos de diversos eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Paranapiacaba e Macaé, com planos de ainda de visitarmos (ou direi “invadirmos”?) outras cidades do Brasil. Durante nossa odisseia, fomos contatados por leitores (virtualmente e pessoalmente) que elogiaram a iniciativa, dando apoio e nos proporcionando a visibilidade que buscávamos. Enfim, provamos que a space opera ainda estava viva, e a ótima repercussão foi o passaporte que precisávamos para partirmos rumo a uma nova etapa do projeto.
Assim nasceu a proposta do segundo volume – Space Opera: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia Não Muito Distante – que será publicado pela Editora Draco (mais uma vez nos apoiando), cujo lançamento está previsto para agosto.
A “Space Opera II” traz novamente um time de escritores nacionais. São eles: Carlos Orsi, Fábio Fernandes, Lidia Zuin, Marcelo Augusto Galvão, Octavio Aragão, Roberto de Sousa Causo e Tibor Moricz, que junto aos organizadores Hugo Vera e Larissa Caruso embarcaram nessa nova jornada. O prefácio desta vez está a cargo do mestre Gerson Lodi-Ribeiro.
Enquanto no primeiro livro apresentamos uma seleção de sete noveletas e dois contos, neste segundo volume trazemos sete noveletas e duas novelas. Em vista disso, o segundo livro será mais encorpado que o anterior. Enquanto no primeiro atingimos a marca de 272 páginas, a “Space Opera II” avança além das 320 páginas!
Os textos, em formato de noveletas e novelas (ao invés de contos), trazem mais aventura e mais diversão para os fãs e leitores deste delicioso subgênero, indo de acordo com a percepção de que os leitores de literatura fantástica pedem narrativas mais longas, que permitam um melhor desenvolvimento das tramas e que propiciem uma exploração maior dos personagens.
Sendo assim, acomodem-se em seus assentos e prendam seus cintos de segurança. Preparem-se! A nave Space Opera partirá para uma nova jornada!
SINOPSES DAS HISTÓRIAS
No vácuo você pode ouvir o espaço gritar
(Carlos Orsi)
Explorando uma misteriosa relíquia deixada pelos deuses que povoaram a Via-Láctea bilhões de anos antes de a vida surgir na Terra, os tripulantes da nave Beldurgabe acreditam ter transcendido as paixões e os preconceitos de seus ancestrais humanos – uma convicção que será duramente testada.
Inferno de Dantès
(Marcelo Augusto Galvão)
Guerras são travadas entre dois governos interestelares pela posse de artefatos tecnológicos de uma poderosa civilização alienígena já extinta. Para recuperá-los, homens, mulheres e animais geneticamente alterados se juntam ao Corpo de Fuzileiros Xenocientistas. Dantès Mercuria era um soldado exemplar, até o dia em que se viu condenado a passar o resto da vida na prisão por um crime que não cometeu. Mas a chance de voltar à ativa surge ao ser convocado para uma missão, onde ele lidará com os perigos de um mundo inóspito e a desconfiança de seus antigos colegas, enquanto tenta salvar a galáxia.
Jowjow, Jungermaid e a Deusa de Luz
(Tibor Moricz)
Um mercenário caçador de recompensas e uma linda guerreira Towaneh partem em resgate da lendária Deusa de Luz, junto a um cavalo cujas capacidades ultrapassam expectativas, em uma aventura de tirar o fôlego em meio a um planeta cheio de perigos.
Viva Muito, Morra Jovem
(Lidia Zuin)
Matka e Tsar, mãe e filha exiladas do planeta Kapuyt, encontraram em Kremíkkov um novo lar para recomeçar suas vidas, após terem sobrevivido a um ataque contra seu mundo natal. Ardilosa, Matka se envolve com um grupo de mafiosos nativos, proprietários de casas noturnas e bares na periferia da capital. Rejeitada pela mãe, Tsar acaba se unindo a Nikki, uma jovem kremíkkoviana que levará sua nova amiga à grandes aventuras na noite da baixa Kale-Hisa. (Uma noveleta spacepunk, inspirada no universo ficcional de "As Filhas de Cassiopeia", de Hugo Vera)
Tudo por Causa Dela
(Larissa Caruso)
A vida de Alvhert mudou desde a chegada de Dana. O covarde recluso tornou-se um perigoso procurado que vive da venda de tecnologias proibidas e serviços ilícitos. Mas isto foi só uma consequência infeliz na vida de um ex-desconhecido. As notícias sobre a misteriosa mulher capaz criar caos por onde passa logo se espalharam pela galáxia. Agora, todos querem Dana. Para manter sua amada em segurança, Alvhert está disposto a fazer qualquer coisa. Tudo por causa dela...
Obliterati
(Fábio Fernandes)
A guerra contra os misteriosos Obliterati, cuja evidente vantagem tecnológica empreende ataques impiedosos contra a humanidade, leva os sobreviventes da espécie humana a se ocultarem nos chamados "Refúgios", espalhados pelo Braço de Órion, na vã tentativa de sobreviverem e se recuperarem. Em meio aos seus conflitos sociais e culturais, humanos e pós-humanos buscam um modo eficiente de contra-atacar, na esperança de colocar um fim ao terror imposto na galáxia.
A Alma de um Mundo
(Roberto de Sousa Causo)
Jonas Peregrino está cansado da guerra, mas é trazido ao centro de uma zona de conflito pelos alienígenas do Povo de Riv, em missão suicida de resgate de um grupo de refugiados alienígenas das garras de uma organização paramilitar humana composta exclusivamente de ciborgues. Para salvar-se e aos outros, Peregrino terá de encarar o que jaz no núcleo de um planeta gigante em formação.
As Filhas de Cassiopeia: A Ofensiva Draconiana
(Hugo Vera)
Em meio a uma disputa territorial, Vlasdávia é cedido pela Liga Interestelar ao Império Draconiano após a assinatura do Tratado de Tau Ceti. Obrigados a se retirarem do planeta, os colonos humanos se recusam a abandoná-lo. O prazo está se esgotando e a ofensiva draconiana deve ser evitada. Para isso, Anilleya, uma das sete sacerdotisas do lendário Templo de Cassiopeia, é enviada àquele mundo com a missão de convencer seus habitantes a cumprir os termos do Tratado, na tentativa de evitar uma guerra entre as duas maiores potências da galáxia. Paralelo a isso, o agente Burk Marconi, durante uma minuciosa investigação, entra em contato com Myrvina, uma jovem órfã que traz consigo um segredo milenar que poderá ser fatal à paz galáctica.
Rainha das Estrelas: Dias de Sangue na Área Vermelha
(Octávio Aragão)
Daqui a dois mil anos a Terra estará extinta, mas não a humanidade. Países lançaram-se ao espaço e colonizaram planetas, transformando-os em herdeiros de suas culturas nacionais e regionais. Em Veracroce, o clã dos Delenda governa Ryoh, um dos países mais ricos, desde que podem recordar. Mas a casa real está prestes a sofrer um ataque. A revolução se aproxima, criando laços inesperados entre militares, contrabandistas e a seita das Monjas Rubras, herdeiras de um terror ancestral. Reunidos pela necessidade, a tripulação do cargueiro pirata Rainha das Estrelas tenta sobreviver, enquanto o mundo que conhecem entra em colapso. (Novela baseada em personagens e situações do universo ficcional criado por Osmarco Valladão)

Draco Parceiros – Resultado do sorteio de Maio
Olá, Parceiros! Já se passou um terço do ano do Dragão e ainda temos muitas novidades. Estamos empolgados com as opiniões e participações de vocês nesse programa de divulgação.
Divulgamos hoje mais um sorteio:
Foram três livros, O Peregrino, Selva Brasil e Guerra Justa!
E os blogues que irão resenhar os nossos livros são
Clube de Jovens Escritores - O Peregrino
Livros, Bobagens e Guloseimas - Guerra Justa
Parabéns, estamos ansiosos para ler as suas impressões sobre esses títulos de nosso catálogo.
Visitem os blogs vencedores e prestigie o trabalho dos nossos parceiros.
Beijos a todos os parceiros e não se preocupem, mês que vem teremos mais um sorteio.
Athena Draco
[Top 5] Rafael Lima
No romance Os Reis do Rio, de Rafael Lima, descubra uma distopia 100% carioca. O ano é 2189. Décadas após um holocausto nuclear,nada de maravilhoso restou na cidade de São Sebastião. A monocromia substituiu a exuberância natural. A insipidez, o charme das ruas. A apatia, a vivacidade dos cariocas. Mas ainda há esperança. Ao menos para William Costa. Quando seu irmão Edu é sequestrado pela Radius, organização soberana da cidade, o mulato deixa seu bairro-caverna para resgatá-lo. Em sua companhia segue Lia, namorada de Edu, e Ulysses, um tiziu implacável. Seu destino: a cidadela de Iraputã, coração da Radius. Lá, respostas que vão além do paradeiro de Edu os aguardam, revelações sobre o passado e o futuro do Rio de Janeiro e até mesmo do terrível mundo que habitam. Samba-dumps, robôs esquizofrênicos, rifles plasmáticos, harpias, caveiras, rádios clandestinas e uma batalha iminente pelas ruínas de um dos cartões-postais mais famosos de todos os tempos. Está preparado? Então seja bem-vindo ao novo Rio.
Os Reis do Rio será lançado em breve pela Editora Draco. Seu autor, Rafael Lima, é o participante da vez no nosso Top 5. Abaixo, ele fala um pouco de seu novo trabalho e lista cinco de suas influências. Sigam-nos os bons:
1 - Capitães da Areia, Jorge Amado.
Rafael Lima - Confesso que esse livro foi um dos poucos obrigatórios na escola que li e gostei. Era diferente dos outros, falava minha língua e seus protagonistas, além da mesma idade, tinham alguns desejos e problemas iguais aos meus (apesar de pertencerem à outra classe social, região e época). Eles se sacaneavam, brigavam e eram companheiros como o Rafael Lima aos quatorze anos e seus amigos. A maior diferença era que o Pedro Bala pegava todo mundo e eu, bem, eu não era o Pedro Bala.
O fato é que "Capitães da Areia" me marcou tanto que, quando o "Os Reis do Rio" começou a germinar, lembrei logo dos garotos abandonados de Salvador e suas aventuras, mesmo tendo lido o livro pela última vez uns dez anos antes.
Draco - Quais outros livros e autores lhe marcaram?
RL - Meu autor favorito é o Gaiman, junto com o Rubem Fonseca. Mas a melhor história é a de Watchmen. Outras obras importantes para mim são "Ensaio sobre a cegueira", "O apanhador no campo de centeio" e "A guerra das salamandras", de Karel Capek.
2 - Fallout 3 e Fallout: New Vegas
RL - Jogos com enredos irretocáveis, para mim, top 5 da última geração de consoles. Uma aula de como se construir um cenário pós-apocalíptico complexo, abrigando uma enormidade de personagens e grupos com histórias, conflitos e aspirações interessantíssimos. Todos muito bem encaixados em um mundo com ar de ficção científica dos anos cinquenta e conectado à nossa época de forma bastante crível. Agradeço a Fallout 3 e Fallout: New Vegas por tantas inspirações para meu Rio de Janeiro do século XXII.
Draco - Geralmente, qual o grau de influência dos jogos de videogame na sua escrita?
RL - Razoável. Hoje, acho que grande parte dos escritores homens com trinta anos ou menos é, de alguma forma, influenciada pelos games. E isso é ótimo.
3 - Tropa de Elite
RL - Um filme que impressiona pelo seu realismo e, sobretudo, "cariocidade". Não foram por acaso suas milhares (milhões?) de cópias ilegais e os 11 milhões de espectadores de sua sequência. Tropa de Elite é tão verossímil que parece ter sido filmado por um cidadão comum que saiu às ruas para registrar a podridão que há décadas domina o poder público e com a qual ele precisa lidar diariamente, com sua paciência e jogo de cintura infinitos. Mas o que mais me serviu para o "Os Reis..." foi mesmo o Capitão Nascimento e seus "caveiras". Heróis ou vilões, os caras simbolizam algo muito importante para os cariocas.
Draco - Na sinopse de “Os Reis do Rio”, há a palavra “caveira”. Tem algo a ver com o filme?
RL - Quem sabe? Dia 10/05 está quase aí.
4 - 21st Century Breakdown, Green Day
RL - Escrevi "Os Reis do Rio" ouvindo esse álbum que, embora não seja tão bom quando "American Idiot", também tem músicas inspiradoras que falam, sobretudo, de amor e revolução. "American Eulogy" é uma delas, com a frase-chiclete "I don't want to live in the modern world".
Draco - O que você tem ouvido?
RL - Basicamente a mesma coisa há alguns anos: Green Day, Coheed And Cambria, U2, Oasis, Pearl Jam...
5 - Final Fantasy VIII
RL - Ok, “Final Fantasy VIII” e “Os Reis do Rio” não têm nada a ver. Mas eu precisava mencionar o jogo, afinal, ele foi o maior responsável por eu colocar no papel a ideia para o meu primeiro romance, "Aura de Asíris - A Batalha de Kayabashi". Sem ele, talvez "Os Reis..." nem existisse! Tudo bem, meio exagerado pensar assim, mas o fato é que tudo nesse jogo é inspirador, sobretudo o roteiro. Final Fantasy VIII merecia estar nessa lista.
Draco – Mas muitos dizem que o melhor Final Fantasy é o VII...
RL - Pois é, pena que eu nunca joguei o VII. Mas se tanta gente diz, não duvido.
Rafael Lima nasceu em 1986. É carioca, publicitário formado pela PUC-Rio e webdesigner. Autor do romance tecnofantástico Aura de Asíris – A Batalha de Kayabashi (2010), participa também da coletânea Fantasias Urbanas (2012). Flamenguista de coração, é fã de ficção especulativa em qualquer mídia. Seus autores favoritos são Alan Moore, Neil Gaiman e Rubem Fonseca. Twitter @raglima site www.osreisdorio.com.
[Top 5] Jim Anotsu
Todo garoto apaixonado é um pouco ridículo. Esta é a história de Andrew Webley, um garoto muito ridículo.” O livro conta a história de Andrew Webley, um jovem de 19 anos que mora na cidade de Dresbel, um aspirante a escritor, sem rumo na vida e apaixonado pela melhor amiga, uma violinista, há mais de três anos sem ter coragem de se declarar para ela. As coisas começam a mudar quando conhece Ive, a filha mais nova da Morte e ceifadora estagiária. Ela lhe revela que caso encontre os três nomes verdadeiros de um certo gato, poderá fazer qualquer pedido, inclusive o amor da garota que ama. Com a ajuda de Prozy, uma coelha niilista que é alérgica a si própria, a dupla passa a procurar os nomes do gato numa busca que os leva até o mundo das fadas, a Cidade dos Ratos e outros lugares. Mas não estarão sozinhos nessa busca, um feiticeiro e uma fada do fogo estão no encalço da dupla, assim como Rayla, a capitã da Divisão de Investigação Espiritual, e irmã mais velha de Ive. Para saber onde isso termina, só lendo.
Nosso Top 5 continua a todo vapor. Dessa vez, trouxemos Jim Anotsu, o autor de Annabel & Sarah e A Morte é Legal (em breve), para falar um pouco das obras que influenciaram seu trabalho. E ainda revelamos sua identidade no final. Nah, não revelamos, não.
Começando:
1 – Pinkerton, Weezer
Jim Anotsu: Pinkerton é uma das coisas mais lindas da minha vida. Talvez Rivers Cuomo não soubesse que estava criando a melhor obra do Weezer com esse disco. Pinkerton é o segundo disco do Weezer, o follow-up do estrondoso Blue Album. É sujo, direto e meu companheiro de teen angst. O disco ficou famoso por sua trajetória, depois de Rivers ter dado um tempo na banda para se focar nos estudos em Harvard – e se tornar o rejeitado do lugar. O disco em seus curtos 34 minutos funciona como se fosse um diário, passando sobre o drama de nem se importar em se declarar para uma garota por saber que não vai dar em nada ou se apaixonar e descobrir que a garota é lésbica. É possível sentir toda a angústia de Rivers em cada sílaba. O problema é que o disco não foi bem aceito e a crítica o massacrou impiedosamente, fazendo com que nosso esquisito favorito sumisse do mapa e jurasse nunca mais tocar nada desse disco. Bem, os anos se passaram e o revisionismo passou por ali e os fãs descobriram como Pinkerton era uma das obras mais importantes do rock dos anos 90. E uma das pedras fundamentais para se entender o emocore. Sim, meu estilo favorito de música é o emo. Mas nada que inclua franjas horríveis ou calças que nem o Prince usaria. O movimento emo de verdade, que foi do fim dos anos de 1980 até meados de 1990 era formado por bandas como Drive Like Jehu, The Get Up Kids, Mineral e Sunny Day Real State – até que o Jimmy Eat World lançou Bleed American e a coisa explodiu. Bem, Pinkerton é uma obra importante e está para a música adolescente como O Apanhador no Campo de Centeio está para a literatura YA. E para irritar o Cirilo Lemos: toda a música ocidental foi um prelúdio para o Radiohead!
Draco: Tanto em “Annabel & Sarah” quanto em “A Morte é Legal” a música tem grande importância. Como isso se relaciona a escrita?
JA: Eu costumo acreditar que em literatura – que funciona para o leitor em símbolos, semiótica – o gosto musical e literário de um personagem diz muito sobre ele. Annabel, por exemplo, gostava de indie rock do início do século XXI, bandas como The Wombats, Franz Ferdinand, Arctic Monkeys. Já o Andy, no livro novo, ouve apenas emocore de raiz: Rites of Spring, Jawbreaker e coisas assim. E bem, eu gosto de música, assim sendo, eu consigo me divertir escrevendo. Sou um violinista frustrado, mas descobri recentemente que eu sei fazer rap! “A Morte é Legal”, mais do que tudo aquilo que escrevi antes, tem um foco em música maior, visto que temos esses dois jovens que sonham em gravar uma demo e enviar para esse produtor famoso na California.
2 – On The Road, de Jack Kerouac
JA: On The Road foi um divisor de águas para mim. Bem, numa das introduções da edição brasileira diz que Kerouac tirou a literatura do escritório e colocou na rua e eu concordo. Eu passei boa parte da infância e início da adolescência lendo caras velhos que escreviam como velhos – ora, eu amo Pooh, mas a narrativa do Milne é claramente um velho contando histórias para crianças ou – ou velhos que escreviam para velhos – Mario Puzo, Nabokov, Conrad são alguns. Eu li, como muitos outros autores, muita coisa juvenil, Verne, Stevenson – meu autor favorito até hoje, Doyle e Stephen King, mas foi Kerouac quem me mostrou a loucura da juventude sem fantasias. E estava tão perto da minha outra paixão – a música – que foi paixão a primeira vista. Daí foi um salto para todos os outros beats: Ginsberg, Burroughs, Ferlinghetti, Neal e seu primeiro terço. E cada um me levava a mais – Bukowski, Fante, Cèline, Irvine Welsh. E Kerouac me mostrou como se pode fazer música com palavras, essa prosa espontânea! O único autor que depois me causou tanto assombro depois foi Thomas Pynchon – que é influenciado por Kerouac. Ah, Ralph Ellison e seu Homem Invisível também.
Draco: Em “Annabel e Sarah”, Jack Kerouac e o espírito do Road trip são homenageados com uma cidade que se chama Kerouac. Como esse tipo de literatura passa por você?
JA: Eu gosto de road stories, sempre gostei. Tanto que a parte mais legal de Lolita para mim é a parte na estrada.Acho que num livro os personagens estão sempre viajando, seja fisicamente ou dentro deles mesmos. É por isso que eu gosto do tema de busca, de ir atrás de alguma coisa perdida ou secreta, uma metáfora para o que se passa no mundo interior. Tanto que uma das coisas que eu desejei fazer em “Annabel” foi que cada mundo se assemelhasse ao que elas são. E a cidade na qual a trama de “A Morte é Legal” se desenrola funciona da mesma forma.
3 – Shakespeare.
JA: Eu amo esse cara. Eu daria um beijo na boca dele se ele surgisse na minha frente – espero que a minha namorada me perdoe por dizer isso. Muita gente se prende ao fato: Ele é tão velho e deve ser tão chato. Mas, eu acho que ele era o Quentin Tarantino daquela época. O que ele faz em Hamlet ou A Tempestade é coisa de gênio. Shakespeare fez perfeitamente tudo aquilo no qual se aventurou: drama, comédia, tragédia e mais. Não consigo imaginar ou gênio cômico maior que Falstaff ou um herói emo maior do que o príncipe da Dinamarca. Eu rio com A Megera Domada e Como Gostais e chorei ao ler o tomorrow and tomorrow pela primeira vez. Macbeth, a proposito, é lindo na voz do Ian Mckellen.
Draco: É possível perceber que além da cultura pop, o cânone literário, principalmente o de língua inglesa, te influência bastante. Como funciona isso?
JA: Bem, quando eu descobri os livros da minha casa eu não tinha ciência de que estava lendo algo canônico ou não. Ou eu gostava ou não. Eu leio qualquer coisa que fique parada tempo o bastante. Seja em inglês, português ou língua do P. Talvez essa inclinação tenha se dado ao fato de que o inglês se tornou comum para mim muito cedo e muitos livros estivessem a minha disposição. Eu tenho uma relação com os clássicos que não me atrapalha com o pop. Bem, “A Morte é Legal” é inspirada num poema de T.S Eliot, com influência monstruosa de Wallace Stevens e Philip Sidney, entre muitos outros. Acho possível conciliar e girar dessa forma. Além disso, sou aluno de literatura inglesa, acho que isso influencia bastante. Acho que no mundo atual não existe mais isso de meu e do outro, tudo está globalizado e na sua frente para ser usado. Você pode ler autores gregos – Homero está por aí, colombianos, japoneses ou africanos como Achebe e seu lindo Things Fall Apart ou Wole Soyinka – The King and His Horsemen.
4 – Umbrella Academy, de Gerard Way e Gabriel Ba
JA: Eu amo quadrinhos, eu tenho até um número razoável de graphic novels na minha estante. Sou apaixonado por Jimmy Corrigan, Cerebus, Sandman, Os Invisíveis e Planetary. Mas, The Umbrella Academy é um dos meus quadrinhos favoritos e o fato de ser escrito pelo Gerard Way – vocalista do My Chemical Romance – só ajuda. Minha tatuagem da Violino Branco, meu boneco do Número Cinco, meu papel de parede com Pongo e os cinco quadros com cada um dos integrantes não me deixam mentir. Sim, eu posso ser um nerd. Eu gosto de como essa história pode ir de um lado para o outro – cara, lutar contra a Torre Eiffel?! Eu amo a dinâmica que existe entre eles e a forma como você ama todos esses heróis hipsters. Eu amo nonsense – o que não quer dizer que se você colocar um elefante dançando balé vai me agradar. Eu acho que o bom nonsense existe numa coisa de transgressão do comum e da capacidade de maravilhamento do ser humano. Existe um ethos e um pathos que correm em paralelos eu acho que é exatamente isso que podemos observar nessa HQ. O único problema foi que depois de ter lido Dallas, o segundo volume, eu entrei num coma criativo, eu nunca conseguiria inventar algo mais cool do que o Hazel e o Cha-Cha. Eu tenho ela autografada na minha casa, dia mais feliz!
Draco: O que você acha sobre a eterna briga: HQs x Literatura
JA: Quadrinho não é literatura. E isso não é uma ofensa. São artes e mídias diferentes, cada uma com sua possibilidade de exploração. Não acho que Promethea possa ser feito em nenhuma outra mídia que não a arte sequencial e o mesmo pode ser dito de Ulisses – que é a exploração definitiva do romance do século XX. São coisas que se tangenciam aqui e ali, mas são coisas diferentes e compará-las dessa forma é diminuir ambas. Por exemplo, compare Sussurro da Becca Fitzpatrick – que é um... romance – com Jimmy Corrigan ou Daytripper ou V de Vingança, a qualidade das graphic novels é superior, mas isso não os transforma em romances.
5 – Thomas Pynchon
JA: O cara é doido e é o escritor mais legal do mundo. Pynchon é um escritor tão estranho que ninguém nunca viu o rosto dele – quer dizer, tem uma foto de 70 anos atrás que dizem que é dele. Não dá entrevistas, não aparece para receber prêmios e gosta de rock, matemática e teoria da conspiração. O cara é tão doido que chegaram a pensar que ele fosse o Unabomber! Pynchon escreveu “Gravity’s Rainbow” – aquela música do Klaxons é inspirada nele – um livro que entre muitas coisas fala sobre um tal Tyrone Slothrope que em cada lugar no qual ele teve uma ereção, cai um míssil. Ah, e tem polvo e um nariz gigante que invade uma cidade e só pode ser destruído com montanhas de cocaína. Ele escreveu Leilão do Lote 49, que é de morrer de rir. Vício Inerente foi o último e é o mais acessível, junto com Against The Day, comece por esses. Sua única aparição foi num episódio de Simpsons. Ele usava um saco de pão na cabeça. Gostei disso. Pynchon nos faz olhar para o mundo como uma pintura cubista, de vários ângulos.
Draco: Quais são outros autores que você admira?
JA: Delillo, Murakami e Takahashi são absurdamente criativos. China Mièville está um passo na frente de todo mundo e merece entrar nessa lista, assim como o Jacques Barcia – que é o autor de fantasia nacional que eu mais admiro. David Foster Wallace – Infinite Jest é lindo e eu até usei o nome Incandenza como minha identidade secreta depois de ter lido. Douglas Adams, Maurice Sendark, Ian McEwan, Virginia Woolf – não tudo - e Mark Twain. Menção honrosa para Mark Z. Danielewski e seu House of Leaves. Acho que é isso.
Jim Anotsu odeia dias de sol e chocolate amargo. Nasceu em algum lugar e foi por lá que começou a escrever. Seu autor favorito é R.L Stevenson. Annabel & Sarah foi escrito pouco depois de ter sido expulso de casa. Morou em Seattle e debaixo de algumas pontes por lá. Ama somente três coisas na vida: Livros, rock’n’roll e uma garota em especial. Atualmente se dedica à arte do tédio e aos cuidados com seu cão, Humbug.
[Top 5] Luiza Salazar
O que você faria se pudesse matar com um toque?
Kat daria tudo para ter problemas normais. Ela queria se preocupar com todas aquelas coisas sobre as quais as pessoas discutem todos os dias nos trens, nos corredores das escolas, nas ruas.
Mas sua mente só tem espaço para uma preocupação: quem vai ser sua próxima vítima.
Kat é uma Ceifadora, o que significa que ela pode matar com um simples toque dos seus dedos, um “dom” que ela desejava todos os dias não possuir. Mas quando dois estranhos aparecem na sua vida e viram seu mundo de cabeça para baixo, Kat começa a perceber que, embora ela não queira seus poderes, existem pessoas que dariam tudo para usá-los. Ou matá-la se falharem.
O livro Um Toque de Morte é a próxima obra da autora Luiza Salazar e será lançado pela Editora Draco. Luiza fala conosco sobre suas influências e explica como elas ajudaram na criação do novo romance.
Vamos lá.
1. Fronteiras do Universo – Philip Pullman
Luiza Salazar: Fronteiras do Universo é a série do autor inglês Philip Pullman, que acompanha a jornada de Lyra Belaqua, uma órfã que descobre um fabuloso instrumento conhecido como o Aletiômetro, que a leva em uma jornada por diversos universos.
Esse livro mudou a minha visão de livros de fantasia de uma forma diferente de Senhor dos Anéis (falo sobre isso depois). Se alguém me dissesse que existia um livro que misturava Física, Bruxas, Ursos Polares de armadura e anjos eu diria que devia ser uma salada que não tinha como ficar boa. Exceto nas mãos hábeis e ultra originais de Philip Pullman.
O livro é de aventura, mas isso não quer dizer que não tenha sua dose de profundidade. A questão central é a eterna luta entra Religião e Ciência, mas de foram tão sutil, que mal dá pra perceber. O livro não tem um vilão claro, o que não só é difícil como deixa a história muito mais interessante.
Draco: É assim que você escreve os seus vilões?
LS: Eu acho que nunca conseguiria escrever um vilão tão bem quanto o Pullman, mas para mim é importante criar antagonistas. O antagonista não é necessariamente uma pessoa ruim, cruel. Ele só é uma pessoa que vai contra o protagonista, no caso de Um Toque de Morte, a Kat. Uma autora certa vez disse que todo personagem se acha seu próprio herói. Ninguém acorda de manhã pensando “Como vou ser mau hoje?” e isso especialmente é verdade em Um Toque de Morte. Cada um defende o que acha que é certo, o que vai beneficiar mais a cada um.
2. O Senhor dos Anéis – J.R.R. Tolkien
LS: A mudança que Tolkien provocou na minha vida não pode ser descrita em palavras. Ele me mostrou com Senhor dos Anéis que histórias fantásticas poderiam ser escritas para um público mais velho – coisa que as pessoas ainda não entendem
A mudança que Tolkien provocou na minha vida não pode ser descrita em palavras. Ele me mostrou com Senhor dos Anéis que histórias fantásticas poderiam ser escritas para um público mais velho – coisa que as pessoas ainda não entendem – e isso me fez querer escrever minhas próprias histórias.
O que atrai em Senhor dos Aneis é a complexidade dos personagens e o fato de ser uma jornada épica. O arco de evolução de cada um é muito bem trabalhado e, além de tudo, é uma historia interessante por si só, com dilemas morais simbolizados pelo Anel do Poder, um símbolo da ambição humana.
Draco: E qual é a semelhança que você vê entre um livro como Senhor dos Anéis e Um Toque de Morte?
LS: Acima de tudo, a série do Tolkien é sobre escolhas, as escolhas que as pessoas consideram certas ou erradas, coisas que são movidas pelos seus instintos e seus interesses. Para mim, certas coisas são inerentes a natureza humana. Ambição, inveja, amor, são coisas que todos temos dentro de nós. E nada é mais comum nas pessoas do que o medo do desconhecido. Acredito que isso esteja presente em Um Toque de Morte justamente por isso: não existe nada mais desconhecido e, por consequência, assustador, do que a morte. Acho que um indivíduo que pudesse controlar essa faceta da existência humana seria tão venerado quanto temido.
3. Peixe Grande – Tim Burton
LS: Peixe Grande, filme que fala da relação problemática entre um pai cheio de imaginação e um filho com quase nenhuma, também foi outro marco na minha vida e na minha carreira criativa. Eu sempre amei ouvir histórias, desde contos de fada a histórias de terror. Depois de um tempo, eu percebi que a única coisa que poderia se igualar a ler ou ouvir uma boa história era contar uma eu mesma. Poder inventar, criar desfechos, desenhar personagens com palavras, é uma experiência que não tem preço.
Draco: Falando em criação, como foi criar Kat?
LS: Quando eu era mais nova e li pela primeira vez um quadrinho de X-Men, eu me senti torturada pela personagem da Vampira. Como deveria ser, ter tanto poder, mas não ser capaz de ficar perto de outra pessoa? Não poder ser abraçada ou se sentir atraída por alguém, não receber carinho, nem mesmo de pais ou familiares? Apesar de todas as desvantagens emocionais, a Vampira sempre foi uma personagem forte, cheia de energia. E eu acho que Kat é parecida com essa dessa maneira. Ela tem um dom que a atormenta, mas aceitou que não pode mudar sua realidade e precisa achar um jeito de viver com isso. Ainda que não seja o mais nobre.
4. As Aventuras de Tintin – Hergé
LS: Eu leio os quadrinhos de Tintin desde que sou pequena. Tenho algums que foram passados para mim pelo meu pai. Acho que, em parte, Tintin seja até responsável por eu ter feito jornalismo! Hahhahaha. Não existe no mundo aventureiro mais sensacional (talvez Indiana Jones) do que Tintin. Não sei se ele influenciou diretamente minha escrita, mas certamente me tornou mais apaixonada por histórias de aventura.
Draco: Você diria que Um Toque de Morte pode ser considerado aventura?
LS: Independente do gênero, gosto de pensar que todas as minhas histórias tem algo de aventureiro nelas. Não acho que o livro seria classificado como aventura, mas francamente não vejo muito sentido em classificação das coisas. Um livro pode ser terror, romance e ficção científica ao mesmo tempo, então porque reduzir uma obra a determinado estilo?
5. O Livro do Cemitério – Neil Gaiman
LS: Sou uma grande fã de Neil Gaiman, desde Sandman a Stardust. Já li quase tudo que ele escreveu, assisti os filmes que ele produziu, eu o considero um mestre em tudo que faz – e ele faz bastante coisa. O Livro do Cemitério tem um apelo particular para mim, justamente porque fala sobre a morte. Sei que parece um pouco mórbido dizer que a morte tem um apelo tão grande sobre mim, mas acredito que o mistério que cerca o fim da vida seja o palco perfeito para lindas histórias. Como acontece com esse livro, a história de um garoto, Ninguém Owens, que é criado por habitantes de um cemitério depois do assassinato brutal da sua família. A narrativa é linda, sobre o autodescobrimento de um rapaz, mesmo nas circunstâncias mais inusitadas. Além disso, acho o estilo meio nonsense dele uma coisa única. Ninguém fala absurdos com tanto sentido quanto Neil Gaiman.
Draco: A Kat é tão fascinada pela morte quanto você?
LS: Acho super estranho dizer que eu sou fascinada com a morte, mas é verdade. Kat, pobrezinha, ela tem que ser, certo? Sua situação não permite que ela tenha muita escolha. Mas eu não acho que Um Toque de Morte seja necessariamente sobre a morte. Acredito que é mais sobre como uma jovem, com tantos outros problemas, precisa se aceitar como é e aprender a lidar com uma condição sobre a qual ninguém tem conselhos para dar. O tipo de coisa pela qual ninguém nunca passou. Ela sente medo e tem desejos como todos nós, mas com um obstáculo a mais para enfrentar.
Draco: Qual você acha que é o maior apelo de um assunto tão controverso quanto a morte?
LS: Já falamos da natureza humana e eu acho que um outro elemento importante em atrair as pessoas é a curiosidade. Não só de saber o que vai acontecer no próximo capítulo ou no próximo volume de uma série, mas de querer ler mais sobre um assunto que nos instiga, um assunto sobre o qual nós não conhecemos nada. Eu gosto de inventar coisas e eu acho que as pessoas gostam de ler coisas inventadas. Eu sei que eu adoro!
Também tenho um segredinho: acho que o mundo dos mortos (ao menos das muitas maneiras em que eu o vejo) é um banquete visual. Podemos fazer dele o que quisermos, de um belo jardim colorido a um descampado árido e acinzentado. Não se pode comprar esse tipo de liberdade criativa.
Nascida em Belo Horizonte, Luiza Salazar é autora dos livros Os Sete Selos e Bios. Formada em Jornalismo, atualmente mora em Vancouver, Canadá onde estuda Animação 3D e Efeitos Visuais. Anota tudo que passa pela sua cabeça na esperança de que, em algum lugar naquele caos, saia uma boa ideia.
[Top 5] Cirilo S. Lemos
"Que segredos existem por trás das torres de aço e vidro da Cidade-Centro?
Cosmo Kant, operário com nome de filósofo e vida ordinária, precisa lidar com essas questões após testemunhar um homem atravessar o espelho do banheiro como num passe de mágica. Enquanto o governo trava uma guerra não oficial contra o Nada, Cosmo vê sua história se entrelaçar com a de um inspetor encarregado de investigar possíveis ataques terroristas contra a realidade, mas que está mais interessado no amor de uma mulher proibida.
A resposta para suas perguntas pode estar perdida entre as lembranças, no tempo que se estica e se sobrepõe, nas filas que parecem uma entidade coletiva, nas mãos de um Forasteiro manipulador que usa crianças como bombas, nos corredores escuros de um Arquivo inalcançável… ou em lugar nenhum. Em um mundo de dúvidas, só existe uma certeza: os Metafilósofos vigiam você."
O romance O Alienado chega em breve rodeado de grande expectativa. E não é para menos, o autor Cirilo S. Lemos tem encantado leitores e críticos em suas participações em coletâneas. Para conhecermos melhor o trabalho e o imaginário que compõem o seu romance de estreia e seus contos, convidamos o autor para a segunda participação do Top 5.
Confira abaixo:
1. A Metamorfose, Franz Kafka
Cirilo S. Lemos: A história de Gregor Samsa, um homem absolutamente comum soterrado pelas responsabilidades do dia a dia, que uma bela manhã acorda e se descobre transformado em inseto. Há quem diga que se trata de uma metáfora para a desumanização do homem diante dos processos cada vez mais burocráticos trazidos pela modernidade, pelo trabalho especializado e maçante (haveria um eco de Marx aí?), pela inadequação da religião como fonte satisfatória de respostas, pelo absurdo de um mundo industrial, frio e cada vez mais nacionalista. Também tem quem afirme que Kafka é uma espécie de Kurt Cobain da Literatura (ou o oposto, levando em conta a precedência cronológica), para quem a famosa expressão do líder do Nirvana I hate myself and I want to die cairia como uma luva. Nesse caso, o tcheco pouco estaria se importando para a humanidade. Estava falando de si mesmo, lidando com seus demônios da melhor maneira que podia. Na Metamorfose, Kafka cantou sua aldeia, e o mundo se viu nela. E que se dane se era uma barata ou um besouro, meu senhor.
Draco: Captamos alguns ecos de Kafka no universo de O Alienado...
CSL: Acho que Kafka está em tudo produzido de 1915 para cá. É, Kafka está aqui, escondido na sensação do protagonista, Cosmo Kant, de que não há sentido nenhum na realidade objetiva, na vida que ele leva, na rotina de acordar-trabalhar-consumir-dormir-ver-televisão. É uma insatisfação prática, como não gostar do próprio emprego, mas que permite o salto para uma inquietação mais metafísica. Na Metamorfose, isso se traduz na transformação em inseto. Gregor Samsa é arrastado pelo mundo que não compreende – ou compreende bem demais, vai saber. Em O Alienado, a luta de Cosmo é para fincar o pé em algo palpável e não se perder. Como resultado, se a realidade não o muda, talvez ele mude a realidade. Mas eu arriscaria dizer que há bastante de O Processo aí também. Escolho a Metamorfose por ser divertido. O Processo, me perdoem, é chato demais.
Draco: E tem o onipresente K.
CSL: Sim, tem o K. Pode pensar em Kafkiano, em Franz K. Mas a ideia também é K de Kant. O nome é para soar um pouco estranho mesmo, mas ele possui uma função específica. Sabe aquelas ideias de menoridade do homem, virada de Copérnico? Apareceu um pouco disso no livro, você não vai encontrar isso lá sem procurar. Filosofia não é tão inútil, pessoal. Ela é viva. Escrevam aí.
2. Elektra Assassina, Frank Miller e Bill Sienkiewicz
CSL: Elektra é a ninja criada por Frank Miller para a série mensal do Demolidor, lá nos anos 80. O candidato à presidência favorito da América, jovem, bonito e arrojado aos moldes de Kennedy, é na verdade A Besta, um demônio doido para controlar o país mais poderoso do mundo. Só Elektra pode detê-lo. À primeira vista, o enredo parece simples, uma ideia antiga (o demônio que usa disfarces para corromper é Satã, é Sauron, é o Mestre do Santuário, o próprio Miller usou um demônio com as mesmas características em Ronin), mas o roteiro fragmentado, psicótico e cheio de ação é daquele Frank que amamos, o que morreu em algum ponto da década de 90. Então, não espere nada convencional. Tudo isso, mais a arte alucinógena de Bill Sienkiewicz, transforma Elektra Assassina num vagalhão surrealista.
Draco: Algumas cenas no seu livro parecem remeter às histórias em quadrinhos, como As Aventuras de Luther Arkwright e Os Invisíveis. Algum desses trabalhos foi referência direta em O Alienado?
CSL: Sim. Tenho uma relação de amor com as histórias em quadrinhos desde que me entendo por gente. Aprendi a ler com eles, cresci com eles, e nunca engoli muito bem essa tentativa de diminuir seu valor artístico ou, ao contrário, encaixá-los em espaços em que não cabem. Sempre os vi como um canal de histórias tão competente quanto o cinema e uma experiência narrativa tão densa quanto um romance, se você encontrar a obra certa. Para falar a verdade, se hoje minha tentativa de contar histórias é a literatura, isso se deve à minha total falta de talento com desenho. No fundo, devo ser um quadrinhista frustrado que foi tolo o suficiente para achar que escrever era mais fácil (você pode ouvir a risada de escárnio de Iori Yagami no fundo agora). Em O Alienado, as histórias em quadrinhos aparecem como o objeto de interesse de dois personagens importantes. Um deles é fã de super-heróis e consome esse tipo de revista, e isso se reflete na forma como ele narra alguns trechos. Conforme algo de sua inocência vai se diluindo, se dilui também essas referências. O outro personagem é um desenhista, ou quase, e muito do que ele desenha, sem saber, são pontos que fazem a realidade fragmentada da Cidade-Centro se movimentar um bocadinho. Os quadrinhos são importantes no livro. Mas creio que não tenha sido exatamente isso que você perguntou...
Draco: Pois é, eu queria saber sobre influência direta. Arriscaria Luther Arkwright e Os Invisíveis.
CSL: São dois trabalhos ótimos. Apesar da similaridade de temas, Luther Arkwright não exerceu efeito direto sobre O Alienado, pois foi um contato posterior. Mas não há como negar uma influência indireta de Os Invisíveis, do Grant Morrison, pois há a velha questão dele ser a base principal de Matrix, e Matrix influenciou... Bom, Matrix influenciou muita coisa na cultura pop nesse comecinho de século. Inclusive meu livro, no ponto em que questionar o status quo é crime, uma espécie de terrorismo. Ousaria dizer que essa influência não é tão profunda quanto outra obra de Morrison, Homem-Animal, e mesmo essa não exerceu o mesmo peso que Elektra Assassina. O trabalho de Miller e Sienkiewicz foi um dos meus alvos enquanto escrevia, e muito dali se imiscuiu no universo do livro. Assim, de supetão, aponto para a narrativa esquizofrênica, a estética (o personagem AM013 dentro dos sanatórios dos Metafilósofos, os equipamentos médicos, por exemplo), uma agência governamental dúbia e indecifrável, o operativo que não sabe exatamente seu papel... Bastante coisa, eu acho. Aproveito para revelar um segredo: se você juntar Sienkiewicz e Straczynski numa mesma palavra e a recitar três vezes no tom correto, pode despertar o Grande Cthulhu.
“Dizem que uma sombra os seguia por onde quer que fossem. As flores murchavam, as crianças choravam, os animais se escondiam. Quando apareciam, as pessoas sabiam que algo estava profundamente errado. E não estamos falando aqui de carteiras batidas, música alta em bairros residenciais ou brigas de trânsito. Estamos falando de crianças explodindo, terrorismo telúrico, corrupção filosófica, vandalismo contra paradigmas. Coisas sérias, coisas que as pessoas não faziam ideia de existir, mas sentiam na forma de arrepios estranhos, ou naqueles momentos em que todos silenciam de repente numa roda de conversa. Nessas horas, eles estariam nas redondezas em seus carros escuros cheios de segredos, com seus ternos alinhados e suas máscaras de couro e metal, feitas para reprimir qualquer presunção de individualidade."
"Como agora.”
Trecho de O Alienado
3 – Rabos de Lagartixa, Juan Marsé
CSL: Melancólico, Rabos de Lagartixa é sobre uma pequena família que, apesar de desfeita, sonha. O pai é um fugitivo da Justiça por seu envolvimento com questões políticas delicadas, talvez até mesmo esteja morto. Isso não impede o pequeno David de conversar com ele de vez em quando, enquanto tenta manter afastado o inspetor Galvéz, que, a pretexto de investigar o desaparecido, tenta conquistar sua bela mãe, uma ruiva tentadora até mesmo grávida. Como contraponto à realidade estéril dos personagens, temos o irreal na forma de personagens como a fotografia de um piloto da RAF, ou do elixir para a cura de hemorroidas produzido com os tais rabos de lagartixa, ou mesmo os diálogos meio hostis entre David seu irmão ainda não nascido. Por sinal, o feto é o narrador da história.
Draco: As memórias aparecem em O Alienado como algo que pode libertar ou aprisionar, mas, em ambos os casos, há uma certa tristeza no ato de lembrar. Por que isso?
CSL: Memória é algo importante para mim. Minha formação em História talvez seja um reflexo disso, dessa busca por preservar ali, pelo menos na lembrança, alguma coisa do passado. Lembrar é algo que traz, essencialmente, uma melancolia subjacente, daquelas que você nem percebe que está sentindo: quando você ri com os amigos, ou com seu irmão, de eventos lá da infância, aqueles instantes em que a risada vai morrendo devagar, o sorriso vai se desfazendo e todo mundo pensa em como eram bons os velhos tempos. Há uma espécie de perda aí, de alguma forma. Rabos de Lagartixa é um romance que encontrei sem querer, e acho que trata mais ou menos dessa questão. Não se encontra muitas resenhas dele, infelizmente.
4 – Contos Reunidos, Moacyr Scliar
CSL: Moacyr Scliar dispensa apresentações. Sua prosa é limpa, simples, e ao mesmo tempo poderosa, capaz de criar imagens que atingem você com a força de uma estilingada. Seus contos transitam entre o fantástico e o cotidiano, a herança judia e a brasilidade, o acadêmico e o popular, o carnaval e a Bíblia. Ele já escreveu sobre uma sociedade que se desenvolve no estômago de duas ursas. Sobre o Capitão Marvel da DC morando no sul do Brasil. Sobre a ameaça dos leões. Sobre contistas, essas figuras autofágicas e ególatras. Sobre o messias. Sobre exércitos de um homem só. E todas essas maravilhas (com exceção do exército) estão reunidas num enorme volume de capa dura intitulado, er, Contos Reunidos.
Draco: Você já disse por aí que detesta o termo “mainstream”.
CSL: Não gosto quando aplicado exclusivamente à literatura do cotidiano, aquela dita séria, que chafurda nos mesmos temas há quanto tempo, cinquenta, sessenta anos? Desse jeito, realmente detesto. Violência, família desestruturada, o choque entre o rural e o urbano, são temas que estão gastos da forma como ainda são trabalhados por aí. Mainstream, para mim, é tudo que está em evidência, no olho do furacão editorial, nas listas de mais vendidos, na academia. Crepúsculo é mainstream, nesse sentido. Fazendo um paralelo com a música, o Nirvana era uma banda underground, até Nevermind estourar, cair no gosto das rádios e virar febre mundial. Aí virou mainstream. Um livro pode ser gênero e mainstream. Tem mais a ver com aceitação que com tema. Mas é só a minha opinião.
Draco: No seu livro, tem a questão da vida urbana também... Isso o torna mainstream?
CSL: Depende de qual visão de mainstream você se refere. Segundo a minha própria percepção, vai ser mainstream quando eu for amplamente divulgado, lido, resenhado e ganhar muito dinheiro (ta-ta-tsss). Entrar no grand slam, entende? (Para falar igual ao Pelé). Se for pela temática, o cotidiano está simplesmente no livro porque Cosmo Kant é um trabalhador normal. Mas depois as coisas mudam, e não há mais nada de cotidiano em sua vida. Ele conhece os Metafilósofos, o Vazio, a Hidra, viaja por lugares estranhos. Acho que é por aí: a Fantasia e a Ficção Científica servem também para falar da violência, família desestruturada, o choque entre o rural e o urbano, liberdade, o papel do homem no mundo, medo da mudança, ânsia pela mudança, tudo isso. No fim, todas as histórias são histórias sobre a Humanidade. Aí está o Moacyr Scliar para me dar razão. Imortal da Academia, esteve no Fantasticon. Samba e diáspora, carnaval e pessach, gênero e mainstream. Um cara que sabia das coisas.
“Sabia que estava sendo manipulado, mas seguiria em frente. Em primeiro lugar, porque ele realmente conhecia a natureza do homem trancafiado na Torre dos Metafilósofos, tanto pelos perfis psicológicos disponibilizados pela Academia quanto pelas conversas que tivera com ela. Em segundo, porque não fazia ideia do escrever num bilhete suicida.”
Trecho de O Alienado
5 – Man in the Box, Alice in Chains
CSL: Essa rancorosa canção é uma das responsáveis por moldar o espírito da banda na forma como a conhecemos, segundo o guitarrista Jerry Cantrell (mais ou menos isso). Batida, marcada, guitarra pesada e vocal afiado, Man in the Box fala sobre alienação e introspecção. Layne Staley diz que estava chapado quando a escreveu, então ela pode ser sobre qualquer coisa. É considerada uma das melhores músicas da era grunge, apesar da influência do hard rock, do heavy metal e – por que não? – do glam. É uma espécie de irmã gêmea de Heart-Shaped Box, do Nirvana, e uma transcodificação de O Processo, do Kafka (olha ele aí de novo). Mas espera aí, talvez eu também esteja chapado.
Draco: Já que falou do Nirvana, há uma citação de uma “música favorita” no livro. Ela tem uma função na história, agindo como uma espécie de escudo contra as invasões mentais. Que música é essa, afinal?
CSL: Decidi não empurrar meu gosto musical pela garganta do Cosmo. Nem do leitor. Música sempre teve o poder, mais que qualquer outra forma de arte, de provocar sensações. É assim que ela aparece em O Alienado, como uma espécie de contrafeitiço usado para resistir às investidas dos Metafilósofos. Deixo a responsabilidade de decidir que música é essa nas mãos de quem pegar o livro.
Draco: Mas qual seria, se você tivesse de dizer qual é?
CSL: Sei lá. Escolher música é sempre complicado, porque depende do dia, do clima, do estado de espírito. Se eu escolhesse uma, daqui a ano pensaria: “Isso não tem nada a ver”. O Alienado foi quase todo escrito enquanto ouvia milhares de vezes as bandas de Seattle dos anos 90, tipo Nirvana, Mudhoney, Pearl Jam (minha favorita, caso ainda exista alguém que não saiba), Soundgarden e Alice in Chains. Desta última, aliás, vem uma das inspirações diretas para o Cosmo, com a capa da coletânea Nothing Safe, onde um homem aparece espremido numa espécie de vidro, de caixa, sei lá. Escolho por isso a canção Man in the Box como uma das maiores influências do livro, embora músicas como Rearview Mirror e Parachutes (Pearl Jam), Dive (Nirvana), Fell on Black Days (Soundgarden) e Touch Me I’m Sick também respinguem sobre algumas passagens. Dessa forma, o som do Alice In Chains é mais um embaixador de todos os meus discos favoritos pelo fato de me ajudar a definir o status de Cosmo Kant dentro de O Alienado. Mas, só para constar, toda a história da música ocidental foi só uma preparação para o Pearl Jam. E não ouse discordar, seu leigo.
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Cirilo S. Lemos nasceu em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, em 1982. Foi ajudante de marceneiro, de pedreiro, de sorveteiro, de marmorista, de astronauta. Fritou hambúrgueres, vendeu flores, criou peixes briguentos, estudou História. Desde então se dedica a escrever, dar aulas e preparar os filhos para a inevitável rebelião das máquinas. Gosta de sonhos horríveis, realidades previsíveis e fotos de família. Publicou em Imaginários v. 3 (2010) e Dieselpunk (2011), pode ser encontrado em @CiriloSL.











































